Em primeiro lugar, já começo pedindo desculpa ao leitor do AUTOentusiastas, mas eu precisava usar esse trocadilho no título, tenho vontade de fazer isso desde 2014, quando comprei minha Pampa 4×4 1989. Ainda tem um segundo pedido de desculpas, pois não tive tempo de limpar o carro para as fotos (você, leitor, merece ver carros limpos com esmero), mas fui operadono último dia 16 e o médico me recomendou repouso máximo.

Voltando ao carro, objeto dessa matéria… Ter esse “fora-de-estrada à brasileira” era uma vontade de duas décadas e o motivo que me encantou por esse carro não foi o tipo de tração, mas sim o fato de ter dois tanques.

Não me peça para explicar, não saberia como fazê-lo, mas eu estava no colegial técnico de mecânica quando um amigo explicou que a Pampa 4×4 tinha obrigatoriamente dois tanques e isso dava uma autonomia gigantesca ao carro. Pronto, nesse momento eu — garoto — já pensava que a Pampa um dia poderia ser meu carro de uso diário. Até então eu tinha um Galaxie LTD 1976, que não podia usar diariamente por dois motivos: não tinha dinheiro para abastecer e nem idade para a carteira de motorista.

Sou fã a linha Corcel II a Pampa e o Corcel II GT 1979 dividem espaço na garagem (Foto: autor)

Uma vez ou outra me arriscava, escondido dos meus pais, em pegar o LTD de casa (em São Paulo) e ir até São Bernardo do Campo, na ETE Lauro Gomes. Quase sempre era alguma emenda de feriado ou final de ano, quando o trânsito era mais tranquilo. Meu medo não eram os outros motoristas e nem as autoridades, mas sim ter que parar num posto de combustíveis. Pensava que, quando tivesse minha Pampa com dois tanques encheria uma única vez ao mês e no mais só alegria.

Com o tempo descobri o real motivo da Ford ter adotado dois tanques. O cardã responsável em levar a tração para a traseira do veículo obrigou um novo desenho do tanque de combustível, diminuindo sua capacidade de 76 para 62 litros. Visto que esse seria um carro para andar em ambiente fora-de-estrada e em 1984 (ano de lançamento) muitos postos ainda fechavam nos finais de semana e feriados, diminuir a capacidade do tanque de um veículo desses seria uma atitude sem propósito. A solução encontrada foi adaptar o tanque do Jeep (feito até 1983 pela Ford) fixando-o na traseira da caçamba, dando assim mais 40 litros de lambuja.

Foto para a sessão “Grandes Brasileiros”, da revista Quatro Rodas; emprestei o carro, note as duas tampas dos tanques (foto: Marco de Bari)

A vontade de ter a Pampa foi ficando para trás, até que em 2012 recomecei as buscas e em 2014 achei uma de único dono. Sabe aquela história de que carro de único dono é bem cuidado? Pois então esqueça, o japonês (que era dono dela) tinha um sítio, usava ela para o trabalho pesado e na hora do conserto usou somente duas ferramentas: uma talhadeira e uma máquina de solda.

Essa era a foto do anúncio, o carro tinha essas faixas que não são as corretas do modelo, não possuía as calotas e quando fui ver nem esses pneus estavam mais (Foto: anúncio OLX)

Foram três meses mexendo em tudo do carro, exceto funilaria e pintura, afinal de contas esse seria meu carro para uso diário, então o objetivo era ter um veículo extremamente confiável, mas sem a neura de cuidados com pintura e pequenos riscos. Tudo que pude comprei peças do tipo “NOS” (New Old Stock) como fala a expressão “estadunidense” que agora está na moda por aqui, coisa que sempre chamei de “ainda na caixa”.

Por incrível que pareça, apenas uma coisa funcionava bem: o sistema de tração. Justamente o acionamento da tração traseira, que tornava o veículo apto a passar pelo “perrengue”, era a parte mais criticada do veículo. Na época, a imprensa especializada alertou o fabricante sobre a fragilidade do sistema que não aguentava uma situação off-road extrema. O problema foi resolvido colocando um alerta no manual do proprietário, onde ficava claro que o uso do 4×4 era somente em situação de necessidade. Para acioná-lo o carro precisaria estar completamente parado, com as rodas dianteiras retas, e o uso do sistema de tração 4×4 é somente para passar pela situação, podendo só ser usado em ré ou em primeira marcha, não passando de 60 km/h.

As páginas 68 e 69 do manual explicam como deve ser o acionamento do 4×4. A informação só surgiu em 1985, gerando problemas na utilização dos primeiros veículos (Foto: autor)

No processo de procura por uma Pampa 4×4, acabei encontrando boa parte desses veículos com o sistema de tração traseiro substituído por um outro sistema que – até pode ser mais moderno e eficiente, mas tira todo o charme, a popular “roda-livre”, onde uma alavanca de acoplamento fica na ponta do eixo. Diversos Jeeps e seus irmãos utilitários de Willys (Rural e F-75) tiveram seus sistemas originais adaptados para este “mais moderno”. Se por um lado deixa o sistema de tração mais livre e é mais robusto, por outro exige que o motorista desça do veículo e vá até cada uma das rodas para o devido acionamento, enquanto que no manejo original baste acionar pela alavanca do console, ao lado da alavanca de câmbio das marchas.

No console central duas alavancas, na esquerda a do câmbio de quatro marchas e à direita, o acionamento do 4×4 (Foto: autor)

De volta à Pampa lá de casa, exceto pelo sistema de tração, todo o resto estava tenebroso, a tapeçaria toda errada, faltavam as características calotinhas que são esteticamente horríveis, mas que se tornaram uma das marcas registradas da Belina e da Pampa 4×4, os botões do painel haviam sido substituídos por botões do tipo “tic-tac”, os pneus não eram mais os lameiros, e o mais importante, os dois tanques não estavam interligados. Justamente a parte que eu mais queria não estava como deveria, funcionando. Não funcionava nem o sistema de medição da quantidade e nem o sistema de tubulação.

Esse é o botão que considero mais interessante, no painel tem apenas um medidor de combustível, então esse botão faz a mudança da leitura do sensor de nível do tanque 1 para o tanque 2 (Foto: autor)

A solução para ter dois tanques na Pampa foi bem simples e genial. Atrás do banco do motorista havia um sistema de registro, onde numa posição funciona o Tanque 1 e na outra o Tanque 2. Esse “registro” era usado no Ford Bronco, F-100, F-150 e Ranger americanos que tinham dois tanques. Provavelmente foi a inspiração da filial brasileira para encontrar o bom funcionamento nossa picapinha.  Já no painel, há um botão com o desenho de duas bombas de combustível, os números 1 e 2 e cores azul e vermelho, esse acionamento é o responsável em trocar a leitura para o sensor de nível do tanque 1 ou do tanque 2, assim fica simples, apenas um instrumento lê a boia dos dois tanques ao acionar qual se quer ver.

Essa chave funciona como um registro, ela fica atrás do banco: na posição em que está pesca o combustível do tanque 1 e na horizontal passa a tubulação para o tanque 2 (Foto: autor)

O carro está em pleno funcionamento e a picape está “originalzinha”. Durante os tempos de crise de abastecimento devido à recente greve dos caminhoneiros foi uma delícia curtir a falta com a certeza de que não dependeria de alguma parada em posto de combustível.

A Pampinha tem sido o carro que mais uso diariamente.  Seu motor 1,6 CHT a álcool está saudável (Pampa e Belina 4×4 só tiveram esse motor). Agora consegui o que faltava, os pneus lameiros de cravo, por incrível que pareça o carro ficou muito, mas muito macio, só que agora aos 60 km/h tem o característico assobio de carro com pneu off-road, mas essa é outra característica e, quem sabe, virá outra história a ser contada.

Além do dia a dia, gosto muito de usá-la para o evento realizado todos os anos em São Paulo no bairro de Moema, a “Carreata da Solidariedade”, onde arrecadamos agasalhos para doar aos necessitados. A caçamba grande e a pouca altura facilitam o carregamento (Foto: Edison Guerra sr)

PT

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