Confesso que chegar a Istambul depois de ter estado em Baku foi um choque. Enquanto a capital do Azerbaijão é organizada, limpa, silenciosa e lindíssima, a capital da Turquia lembra mais São Paulo. Muita, muita gente (15 milhões de habitantes na área metropolitana, para um país que tem 80 milhões de pessoas) e bastante desorganização (foto de abertura). Repensando minha viagem, hoje faria ao contrário. Iria primeiro para a Turquia e depois para Azerbaijão justamente para evitar isso. Quando estive em El Calafate e Ushuaia segui o conselho da minha tia: fui primeiro para Ushuaia e depois para Calafate. A razão é simples: a capital da Terra do Fogo é muito bonita, mas a cidade da província de Santa Cruz é deslumbrante. Se tivesse ido primeiro para lá, teria me desapontado com uma cidade que é linda e seria injusto.

Dito isto, vamos às considerações autoentusiásticas misturadas com Noratur. Em primeiro lugar, quero esclarecer que estive duas semanas na Turquia, o que não me habilita a tirar maiores conclusões sobre o país, mas apenas observações e dados que pesquisei. Ou seja, mistura de DataNora, Noratur e Google.

Do lado Noratur, de Istambul gostei de algumas mesquitas e palácios, claro, mas curti muitíssimo mais o interior da Turquia. A Capadocia é ainda mais bonita do que parece nos filmes e nas fotos. As ruínas de Êfeso, embora lotadíssimas de gente e bastante mal preservadas, são incríveis. O pôr do sol em Kusadasi vale qualquer desvio de rota. Ficamos uma hora sentados num banco na rua de frente para o lindo mar Egeu apenas curtindo um dos sóis mais vermelhos que vi na minha vida — o outro foi em Colonia del Sacramento, no Uruguai.

Bodrum é um charme e foi ótimo para descansar e pagar minha promessa ao maridão, que havia pedido praia e sol. Pamukkale é simplesmente incrível, mas reconheço que tenho alguma tara por formações geológicas diferentes. Quando estive na Nova Zelândia desviamos uns 400 quilômetros apenas para ver as “pedras panquecas” de Punakaiki. E adorei. Talvez deva ser algo a ser estudado, sei lá.

Mas o fato é que se tiver algo diferente geologicamente, lá vou eu. Serve vulcão, pedras estranhas, caverna, montanha, quase qualquer coisa. Também sou apaixonada por museus e templos de qualquer religião, mas formação geológica diferente é algo que eu mesma procuro quando viajo. Acho que beira a obsessão.

Vamos então ao lado autoentusiasta. Em primeiro lugar, a taxa de motorização da Turquia é de 144 carros por 1.000 habitantes (ou 14,4 por 100), o que é um índice relativamente baixo para a União Europeia. Na capital há metrô, mas é pequeno e bastante recente, pois só começou a ser construído em 1992 — tarde para uma cidade europeia, ainda que Istambul esteja parte na Europa, parte na Ásia. Tem somente uma linha de 10 quilômetros com 10 estações e transporta diariamente 130.000 pessoas — ou seja, é praticamente irrelevante em termos de escoamento de gente.

Claro que as obras são lentas e custosas pois são feitas e depois cobertas – em vez do sistema “tatuzão” que se usa em tantas cidades. Mas são à prova de terremotos de até 9 graus na escala Richter — algo bastante frequente naquelas paragens.

Vi ônibus e um charmoso bondinho que passa pelo centro que leva pouquíssimos passageiros e vai ao longo de uma das principais ruas para pedestres, a Istiklal. Novamente, ele divide o mesmo espaço com milhares de pedestres, alguns ciclistas e carros e motos que passam pelas ruas perpendiculares, tudo sem problemas. Nada de vias dedicadas. Além deste, há linhas de bondes normais, aqueles tão comuns na Europa.

Bondinho na congestionada praça Taksim

Não tenho certeza se isso funciona em todas as estações, mas pelo menos naquelas do centro, próximo do Palácio Topkapi, há plataformas de acesso com catracas para validação do pagamento antes do embarque, o que agiliza muito as operações.

Notem como as separações são baixas – não pude deixar de me perguntar se no Brasil o pessoal não pularia para deixar de pagar a passagem. Lembro então que o PIB per capita da Turquia é pouco superior ao do Brasil, com US$ 10.787,61 (valores de 2016) e o nosso é de US$ 8.649,95 e fico ainda mais triste com nosso país… Continuo com minha teoria de que pobreza e honestidade estão totalmente desvinculadas.

No final de dezembro de 2016, o governo turco tinha registro de 21.090.424 veículos, dos quais 53,7% eram carros de passeio, 16,3% caminhonetes e 14,2% motocicletas (o restante são ônibus, tratores, caminhões e veículos especiais). Um dado que me chamou especialmente a atenção é que o número de veículos subiu bastante em 2016 – acréscimo de 1.095.952 entre janeiro e dezembro daquele ano. Mas, para minha enorme felicidade, a Turquia registra o número de veículos que saem de circulação, ao contrário do Brasil onde os dados são inexistentes e falhos. Em 2016, saíram 118.658 veículos. Ainda assim, o número de registros de veículos foi 4,6% inferior ao de 2015. Mas aí lembro que a inflação está aumentando na Turquia e o desemprego é de 10%.

A impressão que tive de uma grande variedade de marcas se confirma pelos números oficiais. Em 2016 dos veículos registrados 12,5% foram Renault, 12,4% Volkswagen, 8,6% Toyota, 7,3% Opel, 6,8% Fiat, 6,6% Hyundai, 5,7% Dacia, 5,4% Ford, 5,2% Nissan, 4% Mercedes-Benz e os restantes 25,4% divididos entre (ainda!) outros fabricantes. Fica até difícil reconhecer carros, tantas as opções e modelos.

Já quanto à cor, o branco ainda é maioria — o número de registros de carros dessa cor em 2016 foi de 61% seguido por… adivinhem? Cinza (15,9%) e preto (8,6). Ou seja, para quem acha que no Brasil as cores dos carros são sempre as mesmas, lá fora também. E a maioria sem filme – pouquíssimos com filme nas janelas de trás, e ainda assim, nem muito escuro. E a maioria sedãs. Algo cada vez menos frequente no Brasil. E olha que esta foto foi tirada em Kusadasi, cidade praiana e com muito sol.

Sedãs e sem filme nos vidros

O DataNora apurou, em pesquisas de campo, pomar e granja, que quasetodomundovírgulaalgo dirige usando o celular na Turquia. Isso não apenas em Istambul, mas no interior, onde estive metade da viagem. Desse total, empiricamente, 50% o faz falando e outros 50% digitando. Como também quasetodomundovírgulaalgo fuma na Turquia, a quantidade de gente que usa celular e fuma enquanto dirige é gigantesca. E não me perguntem como dá certo pois não vi ninguém com mais do que dois braços ou duas mãos e muito menos duas cabeças ou quatro olhos. Diria que não dá certo, mas o volume de acidente não é assim tão assustador.

Em 2016 houve 1.182.491 acidentes de trânsito nas estradas, dos quais 185.128 resultaram em mortos ou feridos – exatas 3.493 pessoas morreram no local e outras 3.807 morreram nos 30 dias seguintes em decorrência do acidente. Novamente, loas às estatísticas de trânsito turcas! Essa separação começou a ser feita em 2015, portanto não dá para comparar com estatísticas anteriores. Apenas como comparação, em 2017 foram registrados no Brasil 47.000 acidentes com 37.306 mortes em 2015 (cuidado, pois os dados são de anos diferentes). E no Brasil não se sabe quantos morrem depois do acidente ou em decorrência dele.

Aqui cabe uma explicação de como foi minha viagem. Como não curtimos viagens em grupos, pois nossos hábitos são diferentes dos da maioria (já comentei que não costumamos almoçar, damos prioridade a passeios em detrimento de compras, não somos lá muito madrugadores, etc, etc., etc.) fiz pela primeira vez um misto de conta própria com excursão. Fizemos a viagem com uma guia exclusiva e uma programação nossa, com a valiosa ajuda da agência de viagens de um queridíssimo amigo de longa data. Deu muito certo, pois havia muitas cidades envolvidas, aviões, micro-ônibus, deslocamentos de centenas de quilômetros por terra, etc. Só não conseguiu me livrar das paradas para almoço e de algumas visitas a fábrica de casacos de couro e tapetes.

Mas que tiveram lá seu lado positivo e, principalmente, me pouparam de muitos desgastes num país onde o inglês não é tão comum assim. Mesmo assim, deixei totalmente por nossa conta, sem guia nem nada, dois dias em Bodrum e dois em Istambul na volta para Noratur esmerilhar. E toda a parte do Azerbaijão. Desta forma, ao contrário do que acontece normalmente, não dirigimos nada, mas rodamos nas estradas da Turquia uns 1.000 quilômetros.

Então… num desses dias de almoço na capital turca nos divertimos observando alguns hábitos, digamos, exóticos. Por isso esta foto em Istambul, em Tarabyia, merece uma série de explicações. Rotatória na Turquia significa praticamente nada. Não há preferencial — ela é de quem coloca o para-choque à frente primeiro. Muitos estacionam dentro das rotatórias (como o carro preto na foto), assim como nos acessos às vias mais rápidas e estradas. Embora ela estivesse claramente sinalizada, e visível a olho nu, vimos uma dezena de carros que, metros antes da rotatória, faziam uma conversão em ‘U’.

Em uma hora, centenas de barbaridades!

Não preciso explicar quanto isso atrapalhava o trânsito, pois bastava seguir alguns metros e fazer a rotatória. Mas ninguém ficava irritado com isso. Como próximo de onde estávamos havia um banco e diversas obras viárias, vários carros simplesmente estacionavam a 90 graus e, mesmo deixando metade do possante no meio da via, iam fazer seus pagamentos. Outros paravam em fila dupla e só voltavam 15, 20 minutos depois. Mas como parece ser algo mais ou menos institucionalizado, não ouvimos buzinas, xingamentos, nada.

Os pedestres e carros apenas desviavam. E atravessavam fora da faixa, mesmo quando estavam exatamente em frente a ela. Desviavam como o diabo da cruz. E em toda minha estadia não vi nenhum carro parar diante de uma faixa.

Não vi carros circulando com faróis quebrados, desregulados ou sem luzes, assim como tampouco encontrei os horrorosos xingling, mas não faço a menor ideia se as lâmpadas de pisca funcionam pelo simples motivo de que provavelmente zerovírgulaalgo dos motoristas as usam. Sequer ônibus de linha nem os motoristas profissionais que nos transportaram os usavam. Vimos um par de carros que a acionaram mas ate agora me resta a dúvida se esbarraram na alavanca. Aliás, será que todos os carros têm alavanca de luz de seta ou é opcional? Ô, dúvida cruel!

Nas estradas de pista dupla, a faixa entre elas serve de guia para a maioria dos carros. Eles andam como num Autorama, colocando o carro bem no meio das duas pistas . Isso nos aconteceu em vários lugares, mas esta foto é da estrada entre Kayseri e Urgup é bem emblemática, embora meu enquadramento não tenha sido lá dos melhores. Garanto que estávamos bem no meio das duas faixas.

Estrada ou Autorama?

Pensei em escrever algo sobre “Capacete, esse desconhecido”. Nossa guia nos disse que se a polícia flagrasse alguém numa moto sem capacete poderia multar o motorista, mas vi sei lá quantos passando, inclusive na frente de carros e motos de polícia e nada — ou seja, talvez eles também tenhas leis que pegam e leis que não pegam. E eu que pensava que isso só acontecia no Brasil…

Motociclista sem capacete na cidade de Atça. E ainda passou dois sinais no vermelho

Assim como no Brasil, vi moto com três pessoas, mas não consegui fotografar. Em outras ocasiões, quem usava o capacete era o carona, não o motociclista. Somente nas motos de maior cilindrada e nas estradas é que vi pessoas de capacete. E andam por qualquer lugar, inclusive nas calçadas, como na charmosa cidade costeira de Bodrum.

Mas me surpreendi com a qualidade das estradas e a sinalização, fácil, correta. Hoje eu digo que dirigiria nas estradas da Turquia, embora não ficaria confortável de fazê-lo em Istambul. De tudo o que circulamos, que não foi pouco, não achamos buracos. Eu já nem lembrava como era digitar no celular no carro sem errar as letras (eu era passageira, lembram?).

Estradas bem feitas e bem sinalizadas

O mais estranho foi na estrada D-585 entre Pamukkale e Izmir a quantidade enorme de faróis, já que ela passa o tempo todo por cidades e vilas de diversos portes. Muitas curvas são “peraltadas”, com inclinação para dentro, que evita que o carro seja jogado para fora. Ponto para quem construiu. E asfalto em alguns lugares onde estivemos, como Capadócia, têm de aguentar temperaturas negativas, neve e depois calor extremo. Incrível que dá para fazer, não? (modo irônico ativado).

Um detalhe engraçado são os carros “fakes” de polícia nas estradas. Vimos vários. Apenas o perfil de uma viatura, recortado em tamanho natural e postado ao longo do acostamento. Hilário! Não sei se surte algum efeito pois imagino que as pessoas já tenham sacado que de lá não sai multa, mas…

Resumindo, achei o trânsito na Turquia um caos, mas reconheço que é um caos que funciona para eles, como se vê nesta esquina próxima da mesquita Süleymaniye. Ninguém respeita as normas de trânsito, nem pedestres nem motoristas, mas por algum motivo isso não parece ser problema. E apesar de o trânsito em Istambul ser muito congestionado, poucos abrem mão de um carro — é comum ver apenas o motorista. Mesmo na sexta-feira quando termina o jejum e muitos se dirigem às mesquitas para rezar.

Incrível, mas este caos funciona lá

Se já sabem que a maioria vai sair no mesmo horário, por que ir de carro? Pelo conforto, ora. Como todo mundo. E gostam de carro. Vi poucos ralados apesar dos altíssimos riscos. Mas um me chamou a atenção pela enorme confiança nos freios Você, estacionaria seu carro assim? E ainda, por onde saiu o motorista?

Você estacionaria seu carro assim?

 

Mudando de assunto: adoro o Canadá como país e o circuito de Fórmula 1. Mas a corrida deste ano foi sonífera. O melhor foi antes, com a volta dos Rosberg, pai e filho nos respectivos carros e, claro, relembrar meu ídolo Gilles Villeneuve. Acho que poucos pilotos representaram tão bem uma escuderia quanto ele a Ferrari e acredito que por isso o Canadá tenha até hoje a terceira maior torcida ferrarista do mundo. Sempre acho uma desculpa para assistir novamente à prova de 1981. Ou a de Jarama do mesmo ano. Ou a de Dijon de 1979. Ou qualquer uma que ele tenha disputado.

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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