Ao dar na madrugada do dia 1º/12 aqui no AE a notícia do lançamento dos novos motores Renault, eu disse que manhã seguinte andaria na versão disponível para avaliação, restrita ao motor 999-cm³ de três cilindros, uma vez que o 4-cilindros de 1.597 cm³ ainda não está disponível. E assim foi, dirigi primeiro o Sandero e depois o Logan.
Como com todos os carros de motores de três cilindros que dirigi até hoje (até o 1,5-l turbo do MINI que conheci na Alemanha em novembro de 2014), sabe-se que sob o capô está um motor dessa configuração, embora a árvore contrarrotativa de balanceamento no MINI faça o efeito de suavizar com maestria, já que com maior cilindrada a “estranheza” aumenta. Nos motores de 1 litro daqui não incomoda absolutamente e chega a ser agradável com alguma carga em rotação de média para alta. O novo motor Renault 1,0 12-válvulas SCe está rigorosamente inscrito nesse contexto. Inclusive, surpreende o fato de não ter coxim hidráulico como a concorrência.
O 3-cilindros da marca do losango é mais potente do que o 1-litro de 4 cilindros anterior, o D4D, mas pouca coisa, 2 cv mais com gasolina e álcool — 79/82 cv a 6.300 rpm, enquanto antes a rotação de potência máxima ocorria a 5.750 rpm. O torque não mudou, permanece 10,2/10,5 m·kgf, ambos a 3.500, embora antes fosse a 4.250 rpm.
Como agora são dois comandos de válvulas (acionados por corrente) e com variador de fase em ambos, além da rotação-pico de torque ser mais baixa, nas rotações inferiores o torque subiu, por exemplo, mais 15% a 2.000 rpm. O resultado é a pegada de baixa melhor, facilmente perceptível, associada a uma puxada em alta bastante prazerosa, como o motor ir alegre e cheio ao corte a 6.500 rpm. Ficou melhor, sem nenhuma dúvida.
Curiosamente, a taxa de compressão foi mantida em 12:1, num momento em que a concorrência está “espremendo” este dado, como 13,2:1 no motor FCA/Fiat Firefly ou mesmo 13:1 nos Etios 1,3- e 1,5-litro.

Claro, o objetivo maior de todas essas mudanças nos motores dos carros fabricados aqui é reduzir consumo, aumentar a eficiência energética. Mas olhando-se os números abaixo vê-se que a redução significativa de consumo do Sandero, resultando em maior quilometragem por litro, foi na cidade (12,7% com gasolina e 9,2%, com álcool), mantendo-se praticamente igual na estrada. No Logan, ganho de 24,7% com gasolina e 30,5% com álcool na cidade, e na estrada, 10,7% com gasolina e 9,9%, com álcool. Atenção, leitor: não é erro de informação ou de digitação: o consumo urbano do Sandero é menor que o rodoviário. A Renault alega calibração específica do Sandero visando favorecer a economia em cidade.
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O porquê dessas diferenças entre o Sandero e o Logan é intrigante, dadas as similaridades de peso, aerodinâmica muito parecida, mesmas relações das marchas e do diferencial, e mesma medida dos pneus (ver esses dados na ficha técnica).

Tanto o Sandero e o Logan 1,0 são bem curtos de transmissão. A v/1000 em 5ª é de apenas 28,9 km/h, o que faz o motor ir a 4.150 rpm a 120 km/h. Mesmo assim à velocidade máxima de 161 km/h (A) o motor só vai a 5.570 rpm, bem distante, portanto, das 6.300 rpm correspondente à potência máxima. Pelo gráfico de potência e torque mostrado no texto da apresentação faltam 7 cv para chegar à potência máxima.
Tampouco é possível chegar à velocidade máxima em quarta marcha, pois com 23 km/h por 1.000 rpm o motor entraria em corte com o carro a 150 km/h.

O Sandero e o Logan com o novo motor 1,0
Como eu disse, nota-se que é um 3-cilindros e, como outros, tem funcionamento suave, apesar da relação r/l bem alta, 0,34. Essa percepção de suavidade pode ser atribuída às massas das peças móveis dos motores cada vez menores, como também à atuação direta das válvulas por tuchos tipo copo, eliminando as alavancas-dedo e seu movimento de balanço. Não há compensação hidráulica da folga de válvulas e nenhum tipo de seu ajuste: o motor é montado com tuchos selecionados para dar a folga de trabalho prevista e assim permanecerá por toda a vida útil. A folga não aumenta por desgaste das peças e nem as válvulas “afundam” nas sedes, garante a Renault. O óleo usado é 0W30.

Uma importante mudança, tanto pedida aqui no AE, foi o comando de câmbio passar de varão a cabos, elevando o status dessa parte para “Wolfsburg”. Ficou mesmo muito agradável passar marchas, com apreciáveis precisão de seleção, curso e carga de engate.
Outra mudança observada foi o velocímetro e demais instrumentos passarem a ser visíveis mesmo em dias bem claros, o que antes era impossível sem ligar luzes. No última reclamação desse problema foi no teste do Sandero R.S.. E foi com satisfação que vi discos ventilados mesmo com motor 1-litro, o que não acontecia antes. É um exemplo a ser seguido pelas outras fabricantes. E o rasga-elogios vai à faixa degradê no para-brisa e à pintura do cofre do motor igual à externa.
Em movimento por ruas e avenidas de Curitiba (a maioria de limite 60 km/h, nada dos nossos ridículos e abusivos 50 km/h), a percepção de solidez do monobloco deste “Dacia” agrada bastante, bem como a correta calibração e a rumorosidade mínima da suspensão em seu funcionamento. É firme sem ser desconfortável, com maneabilidade e estabilidade para ninguém se meter em apuros. A ausência da barra estabilizadora dianteira não faz falta.
O Sandero e o Logan são carros agradáveis, têm uma legião de admiradores e nessa fase de motorização nova têm condições de agradar ainda mais. Só precisa a Renault, com sua “mão” em versões esportivadas e modelos esportivos, se convencer que os brasileiros também sabem dirigir carros de câmbio 4+E; o que não sabem aprendem logo.
Para preços, veja o final da matéria anterior sobre os motores SCe.
Em breve faremos um teste “no uso” dos modelos com os novos motores, começando pelo Sandero 1,6 SCe.
BS
| FICHA TÉCNICA RENAULT SANDERO E LOGAN 1,0 SCe | ||
| Sandero | Logan | |
| MOTOR | 3 cilindros em linha, transversal, duplo comando de válvulas, corrente, atuação direta por tucho-copo sem compensação hidráulica de folga, variador de fase na admissão e escapamento por 40º, 4 válvulas por cilindro, bloco e cabeçote de alumínio, flex | |
| Cilindarada (cm³) | 999 | |
| Diâmetro x curso (mm) | 71 x 84,1 | |
| Taxa de compressão (:1) | 12,0 | |
| Potência (cv/rpm) (G/A) | 79/6.300 // 82/6.300 | |
| Torque (m·kgf/rpm) (G/A) | 10,2/3.500 // 10,5/3.500 | |
| Formação de mistura | Injeção no duto | |
| Corte de rotação limpo (rpm) | 6.500 | |
| Veloc. média do pistão no corte (m/s) | 17,6 | |
| Comprimento da biela (mm) | 123,6 | |
| Relação r/l | 0,34 | |
| Combustível | Gasolina e/ou álcool | |
| Sistema de partida a frio | Injeção de gasolina no coletor de admissão | |
| TRANSMISSÃO | ||
| Câmbio | Transeixo dianteiro de 5 marchas manuais à frente 1 à ré, comando por cabo | |
| Relações das marchas (:1) | 4,09; 2,24; 1,39; 1,03; 0,82; ré 3,55 | |
| Relação do diferencial (:1) | 4,93 | |
| SUSPENSÃO | ||
| Dianteira | Independente, McPherson, braço triangular inferior, mola helicoidal e amortecedor pressurizado | |
| Traseira | Eixo de torção, mola helicoidal e amortecedor pressurizado | |
| DIREÇÃO | ||
| Tipo | Pinhão e cremalheira, eletro-hidráulica | |
| Relação de direção (:1) | 15,0 | |
| Voltas entre batentes | 3,4 | |
| Diâmetro mínimo de curva (m) | 10,6 | |
| FREIOS | ||
| Dianteiros (Ø mm) | Disco ventilado, 258 | |
| Traseiros (Ø mm) | Tambor, 203 | |
| Circuito hidráulico | Duplo em “X” | |
| RODAS E PNEUS | ||
| Rodas | Aço, 5Jx15 | |
| Pneus | 185/65R15 | |
| DIMENSÕES | ||
| Comprimento (mm) | 4.060 | 4.349 |
| Largura sem/com espelhos (mm) | 1.733/1.994 | |
| Altura (mm) | 1.536 | 1.529 |
| Distância entre eixos (mm) | 2.590 | 2.635 |
| CONSTRUÇÃO | ||
| Tipo e material | Monobloco, aço, subchassi dianteiro | |
| Nº de portas/nº de lugares | Quatro/cinco | |
| AERODINÂMICA | ||
| Coeficiente aerodinâmico (Cx) | 0,35 | 0,34 |
| Área frontal (m², calculada) | 2,13 | 2,12 |
| Área frontal corrigida (m²) | 0,74 | 0,72 |
| PESOS E CAPACIDADES | ||
| Peso em ordem de marcha (kg) | 1.011 | 1.019 |
| Carga útil (kg) | 456 | 447 |
| Porta-malas (L) | 320 | 510 |
| Tanque de combustível (L) | 50 | |
| DESEMPENHO | ||
| Aceleração 0-100 km/h (s) (G/A) | 13,1/13,0 | |
| Velocidade máxima (km/h) (G/A) | 160/163 | 162/164 |
| CONSUMO DE GASOLINA (INMETRO/PBVE) | ||
| Cidade/estrada (km/l) | 14,2/14,1 | 13,8/14,5 |
| CONSUMO DE ÁLCOOL (INMETRO/PBVE) | ||
| Cidade/estrada (km/l) | 9,5/9,6 | 9,4/10,0 |
| CÁLCULOS DE CÂMBIO | ||
| v/1000 em 5ª (km/h) | 28,9 | |
| Rotação a 120 km/h em 5ª (rpm) | 4.150 | |
| Rotação à vel. máxima em 5ª (rpm) | 5.640 | 5.670 |
| MANUTENÇÃO | ||
| Revisões, intervalo (km/tempo) | 10.000/anual | |
| Troca de óleo do motor (km/tempo) | 10.000/anual | |
| Óleo, viscosidade | 0W30 | |
| GARANTIA | ||
| Termo (tempo) | 3 anos | |






