Reverencialmente tomo inspiração, lembrança e carona no ótimo registro histórico feito pelo Douglas Mendonça em AE — O Gordini que rodou 50.000 em 22 dias — para resgatar o cenário de época, o período iniciado com a Revolução ou Golpe, e sinalizava o futuro com tintas cinza – o ano seguinte, 1965, foi o primeiro de queda de produção e vendas de automóveis após a implantação da indústria automobilística no Brasil.

As duas marcas com produtos franceses, Willys com Renault e Simca em marca própria –, perdiam para os respectivos concorrentes, VW 1200 e Aero-Willys. Apesar de superiores em conforto, performance e tecnologia, ambos eram secundários em vendas, e uma das referências avultava: a fama de pouca resistência.

Coincidentemente ambas resolveram fazer a mesma prova – teste de resistência, à mesma época, fim de outubro, princípio de novembro.

Na foto acima (divulgação), atraente contrassenso: carro mais sujo e veloz é o mais luxuoso do país (RN)

 

 Willys

A Willys-Overland até o ano anterior líder nacional de vendas, investiu em operação profissional, onerosa: recuperou o anel externo do circuito paulistano de Interlagos, fez pequenas obras para implantar estrutura ao desafio: rampa para examinar o carro nas paradas para troca de pilotos. E levou médico, psicólogo, cronometristas. Boa área de descanso e lazer, espaço para receber a imprensa a trabalho, uma certa flexibilidade para deixar pilotos dormir em casa ante a proximidade e o ralo trânsito daqueles tempos. O Gordini, escolhido na linha de montagem com chancela de fiscal internacional, assinatura por todos os pilotos envolvidos, capotou ao início da prova, e completou 51.233 km rodados em 51 dias, média de 97,15 km/h.

O bom trabalho obteve ótimos resultados, foi considerado o melhor evento publicitário de 1964, marcando o início da aproximação profissional entre o jornalista Mauro Salles, autor da sugestão, iniciando se tornar publicitário, e Willys. Mauro acabaria por conquistar a conta do fabricante.

 

Simca

Se na Willys o entorno da equipe de competições era um principado, com salário,  função específica, na Simca, muito pelo contrário: funcionários também pilotavam ou exerciam outras atividades. Grana curta, hipo-orçamento, dirão os letrados, não permitiam grandes gastos. E, à falta de circuito fechado – ao tempo só havia o paulistano Interlagos – foram-se para pista pública, aberta.

Buscava o mesmo resultado, exibir performance e resistência. Fórmula idêntica, contendo custos.

No caso Simca, ideia parece ter sido inspirada numa prova de resistência promovida pela marca nos arredores de Paris anos antes. Foi quando o nosso Chambord, lá Vedette 3, foi descontinuado, e a Simca pegou um exemplar do Vedette 2, carroceria antiga, sem requinte, retirou o motor V-8 Aquilon de 2,4 litros e aplicou o Rush, um L-4 de 1,3 litro, para vender barato enquanto não criava um novo produto. Para mostrar resistência ante a proposta mecanicamente descabida, da soma de carroceria pesada com motor pequeno, submeteu-o à prova de resistência. No Brasil, aos 23.setembro.1964 unidade Rallye, chassis 34.925, motor 35.441, foi escolhida e chancelada na linha de montagem da Simca do Brasil, km 23 da Via Anchieta, pelo sr. Euclides de Britto, representando o Automóvel Club do Brasil, então o órgão que detinha o poder esportivo do automobilismo nacional.

Iria fazer a internamente denominada “Operação Robustez”, publicitariamente chamada “Teste Paracatu-Brasília”. Pelo método e características, hoje seria irresponsabilidade rematada, crime continuado, e outras imputações penais. À época, num retrato de como o automóvel era um ser importante e imponente, capaz de abrir portas e forjar costumes, foi evento retumbante. Autoridades condescenderam com o aviso oficial do desrespeito ao então Código Nacional de Trânsito, com regras de circulação exigindo respeito à velocidade máxima de 80 km/h e ultrapassagens apenas com linhas tracejadas, não utilizar acostamento para ultrapassagens … Era o início do convívio com o bicho automóvel, e o objeto de desejo permeava na sociedade, laceava suas regras. Foi ótimo evento, maior relativamente ao da Willys, porém com resultado pouco capitalizado.

Mapa do trecho da Operação Robustez (desenho do jornal Correio da Manhã)

 

Este Rallye branco Gelo com teto e faixa lateral vinho, exatamente idêntico às unidades conhecidas pelas provas e recorde mundial sobre duas rodas, correu na BR 7 em velocidade máxima nos 224 quilômetros entre Paracatu — histórica e mais importante cidade do noroeste mineiro — e Brasília. Estrada aberta ao trânsito, para efeitos publicitários justificada pela Simca como réplica de utilização em condições usuais de trânsito, refletindo uso normal. Na prática, o teste e sua quilometragem equivaliam a oito anos de uso. Extenso, árduo, mas exceto as pancas, não houve quebras.

O carro fazia verificações, parando a cada 224 km por dois minutos, como num boxe de corrida de automóveis, mas em postos de gasolina no extremo norte de Paracatu e sul de Brasília. Na Capital, coisa superficial: complementação de combustível, e verificação de pneus e óleo, reposição do líquido no depósito do solicitado esguicho do para-brisa. Inspeções ou reparos mecânicos, e troca de pilotos, em Paracatu.

Manutenção como em posto de gasolina. Reabastece na bomba, sai rápido em busca do tempo e do recorde (foto arquivo Walter Hahn Jr.)

 

A partir das 0 hora do dia 1º.outubro.1964, rodou 120.048 km em 44 dias e noites, à média de 113 km/h — alta relativamente à velocidade final do automóvel, em torno de 150 km/h; para as condições de estrada aberta.

Filosoficamente a bandeira era “Velocidade livre com responsabilidade”, logo traduzida em visão prática para “Baixa a bota, sem quebrar”. Levaram o negócio ao pé da letra. O carro resistiu.

Época mal escolhida, coisa de quem não conhecia o Planalto Central em tempos de cerrado natural — e não o crime ecológico, a irresponsabilidade festejada na monocultura da soja hoje devastando a vida natural do precioso genoma — mesclava frio nas madrugadas, quedas de temperatura no outono, e o início da temporada de chuvas, naquele tempo pontuais, diárias e de grandes cargas d’água. A mudança de temperatura gerava intensa neblina, causadora de acidentes.

Há que se lembrar, ao tempo o risco preto do asfalto traçara a ligação entre Belo Horizonte e Brasília, à época chamada BR 7. Antes a estrada de terra ia apenas até Paracatu, e uma picada chegava a Cristalina, no Goiás, distante 120 quilômetros do risco em cruz deflagrador da implantação da nova Capital Federal. O negócio não era pacífico, para fazer a estrada ligando o Sul a Brasília, em tempo recorde, as terras haviam sido desapropriadas, nem todos fazendeiros receberam indenização, ou gostaram de tê-las divididas por uma estrada federal, e destes, muitos alguns sequer implantavam cercas.

O asfalto, aquecido durante o dia, era quentinho nas noites de chuva, e isto atraia os animais, bois, vacas, bezerros, cavalos, éguas, mulas, burros, aproveitando o novo tapete preto, duro, porém quentinho, para compensar o frio da chuva. Ao tempo eram comuns os acidentes entre veículos e gado dormindo no meio da estrada.

Nestas condições, um destes ocorreu com o Rallye.  À noite, sob chuva, com neblina, com andando no limite de suas possibilidades, para desviar de um cavalo no meio da estrada, o piloto jogou o carro no acostamento. Na correção da inevitável derrapagem, um pedaço de pau trepanou – perfurou – o costado  do pneu radial, arremessando o Simca contra um barranco, capotando. Sofreu uma boa amarrotada, quebra de para-brisa e vidros laterais traseiros, amassamentos gerais.

Era o segundo acidente. O primeiro, com o piloto piracicabano Walter Hahn Jr., foi uma série de rodadas em velocidade próxima à máxima oficial — era na chegada em Brasília após uma descida de vários quilômetros, e a longa reta até o Balão da dona Sarah, como batizado o regulador de trânsito dando acesso ao aeroporto, ao Lago Sul e ao Eixo Rodoviário. Na grande curva de 360 graus, o Simca derrapou, girou várias vezes, caiu numa vala, sem danos mecânicos. Como registro, pequeno amassado no para-lama traseiro, continuando. Com o repetir do evento, agora com capotagem, mais que o dobro da quilometragem marcada pelo Gordini, a Simca definiu encerrar o teste aí. Quilometragem percorrida, média de 113 km/h assinalada, problemas ausentes, objetivo promocional cumprido. “Tava de bom tamanho“, definiram os mineiros acompanhando o programa diuturno, atração na cidade limite deste lado de Minas — pouco à frente se inicia o Goiás. Inspecionado pelo pessoal da Simca e do Automóvel Club, percebendo-se a incolumidade da parte mecânica, decidiram continuar, extra prova, sem alguns vidros laterais traseiros, esforço hercúleo no meio ambiente agreste por nuvens de mosquitos. Tocaram, olimpicamente, talvez por inércia, por mais cinco dias, sem contar referências para o Automóvel Club.

Paracatu. Walter Hahn Jr, (e) chefe e dileto amigo Georges Perrot, com luvinhas de meio-dedo, mandatórias para a época e a atividade. (arquivo Walter Hahn Jr.)

 

Maluco

Houve pouca divulgação do movimento. Soube não me lembro por quem, e saíamos do Elefante Branco — escola secundária —, no carro da mãe de alguém para ir ao distante Park Way, onde ficava o posto contratado para a pequena estrutura de apoio.

José Alfredo Malenha, português, então aos 24, lembra-se do susto ao encontrar o Rallye. De picape Ford F-100, saía da casa dos pais, na Granja do IP — erroneamente chamada Ipê, espécie arbórea importante e tombada para preservação em Brasília. IP estava escrito na plaqueta assinalando onde morava Israel Pinheiro, mineiro, deputado que renunciou ao mandato a pedido de JK para gerir e cumprir a desafiadora construção de Brasília.

Entrou na BR 7, atual 040, longa reta, meio caminho entre o Catetinho, onde poucos anos antes JK fazia pouso, a Cidade Livre, a Velhacap, e as obras. Zéalfredo relatou, olhara para a estrada, vazia. Ao longe, um carrinho. Entrou na BR, faixa da direita, acelerando suavemente o picape e seu motor ainda frio, V-8, 4.500 cm³, apto a fazer 161 hp de potência bruta SAE. Olhou o retrovisor, tomou um susto e segurou o volante fortemente, à espera de abalroamento pela traseira. O carrinho já não era carrinho, estava na sua traseira, desviou como vinha, e o ultrapassou pelo acostamento da direita, jogando sobre o F-100 todos os pedriscos, poeira, e a sujeira da lateral na estrada. “Devia estar a uns 150 por hora. Era um maluco com um Simca Rallye branco sujo. Só depois soube do teste”.

A Simca fez base em posto de gasolina em Paracatu. Não queria e nem dispunha de rubrica no orçamento para diversão paralela, e tocou o negócio quase como concentração. No posto Texaco, à beira da estrada, sentido Norte, havia pequeno hotel para viajantes, uma churrascaria.

Levou o negócio a sério, utilizou o time de mecânicos da área de desenvolvimento, os pilotos de pista, de teste e contratados. Esquema profissional, cada piloto fazia um vai e vem, Paracatu-Brasília. Rodava 448 km em pouco menos de 4 horas. Por alternância somente dirigiria daí a 20 horas. Profissional, líder, Georges Perrot, o gerente de desenvolvimento, acampou junto com sua turma, acompanhava, dirigia. Nos intervalos de muito nada a fazer, passeios pela pequena cidade, caçadas de perdizes nos arredores, visitas a fazendas oferecidas à compra em especial aos franceses. À noite, no restaurante, pontificava um cego, entoado cantor.

Como registro de pilotos, seguindo a memória de Walter Hahn Jr, participante, estavam presentes: Gunther Heilig, Luciano Onken, Manoel de Oliveira, José Gorga Neto — cunhado de Toco —, Edison Biston, Alberto Saviolli, Carlos Calza, e os mais conhecidos: Ubaldo César Lolli, o citado Toco, Hahn Jr. e Perrot. Estrelas maiores da área de competição, Jayme Silva e Cyro Caires dirigiram apenas uma vez e voltaram para São Paulo.

Verificado, abastecido, o Rallye plota Brasília e arranca forte. Caminhão em segundo plano é um fugaz International NV 184, então o mais moderno do país: sua fabricação parou em 1966

 

Causo

Um fazendeiro, morador de propriedade sobranceira à estrada, proprietário de Simca e com fama local de fazer tempos reduzidos entre a fazenda e Brasília, começou a aparecer diuturnamente no posto Texaco. Via, assuntava, cumprimentava, volta e meia trazia uma garrafa de aguardente de produção própria para um gole pós jantar com os que já estavam dispensados. Um dia o quase-íntimo quebrou o encanto: “Bota preço”, disse ao francês sorridente e sem entender a alocução. Alguém explicou que o proprietário rural, encantado com os tempos de viagem e a projeção de velocidade, queria comprar o carro ao fim do teste, mesmo sem discutir preço. Perrot disse o óbvio, de ser unidade invendável, que fariam um carro igual, 0 km. Não aceitou, foi-se embora, nunca mais apareceu … Anos depois vendeu a fazenda para uns gaúchos predadores, derrubaram matas seculares para plantar soja…

 

Surpresa

Imensuráveis resultados em vendas, mas integrado ao grande esforço promocional ligado ao lançamento da linha Tufão — corridas, construção do protótipo Tempestade, o novidadoso recorde de pilotagem em duas rodas, demonstração destas habilidades país a fora. O pacote de novidades mecânicas e visuais no carro, e a correta  exploração de suas qualidades dinâmicas permitiu fazer de 1964 o melhor ano de vendas  da Simca, circa — em torno, cerca — 14 mil unidades.

Promocionalmente a empresa anunciou uma Super Garantia, incluindo peças e serviços por seis meses ou 15 mil quilômetros — que tempos… E adicionalmente, a conquista. Feito, campanha, rótulo de resistência eram contraste à imagem pública do carro, marcada por quebras e problemas. Fosse pela inicial inadequação do produto ao meio ambiente; pela Simca pouco investir em qualidade; pela falta de socorro em capital pela matriz, pelas quebras sapecaram-lhe o apelido de Belo Antônio, filme àquele tempo estrelado pelo festejado ator italiano  Marcelo Mastroianni, representando homem rico e charmoso, entretanto conquistador incapaz de concluir com êxito seus assuntos.

Anúncio contando o feito (Divulgação)

 

Curiosidade, o mapa de acompanhamento no item consumo exibiu números surpreendentes: médios quase 7 km/l. Versados em motores explicam, o fato de rodar permanentemente com a borboleta dos dois carburadores  Zenith-Stromberg totalmente abertas, reduz o consumo. Óleo baixou 1 litro a cada 1.000 km, idêntico ao projetado para aqueles carros em uso normal.

Após o teste, a Simca levou o Rallye ao Salão do Automóvel junto com a sujeira e as marcas do evento.

O Rallye no Salão do Automóvel, prova física aos 500 mil visitantes da mostra (arquivo pessoal Walter Hahn Jr.)

Deixou-o exposto próximo a exemplar idêntico para exibir a aparente incoerência: o mais sujo era veloz e resistente quanto o belo e luxuoso 0-km ali ao lado. Após, nesta terra onde se despreza o passado, não se sabe se virou carro de frota com destino ignoto, ou  foi esmagado, usual destino de veículos usados e necessitando reparos — como multinacional não preserva a história das colônias, não foi preservado. Deveria ter sido vendido ao fazendeiro goiano.

RN

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