Casal repete a viagem de lua-de-mel, 35 anos depois, a bordo de seu fiel Fusca

Uma lua de mel aventureira viajando de Fusca entre Londres na Europa e Sydney na Oceania em 1961, já é algo bastante fora do comum. Pois bem, imagine só repetir esta aventura 35 anos depois, e com o mesmo Fusca! Este é o mote desta matéria, vamos embarcar nesta dupla aventura.

Foto do início da primeira viagem, um jovem casal aventureiro em 1961. O bagageiro tradicional com a carga protegida por uma lona. Volante de direção do lado direito e retrovisor externo adaptado sobre o para-lamas (Foto: acervo Família Hodges)

 

Partida para a segunda viagem, em 1996, com o Parlamento Britânico e o Big Ben de pano de fundo. O bagageiro moderno no teto do carro ajuda a reconhecer as fotos da segunda viagem (Foto: acervo Família Hodges)

O Ivan e a Beth Hodge e seu Fusca 1960 são os protagonistas desta história. Viajaram por muitos países do mundo. Passados 55 anos de leal serviço, o Fusca está agora no Museu de Transporte e Tecnologia (MOTAT) em Auckland, na Nova Zelândia, onde o carro foi batizado de “Travel Bug” (Besouro Viajante). Na segunda parte desta matéria vamos falar da entrega do carro ao museu.

O Ivan e a Beth são naturais da Nova Zelândia e australianos naturalizados. Atualmente eles moram perto do mar, em Balmoral, subúrbio de Sydney, na Austrália, mas, antes disto, eles também viveram alguns anos na Inglaterra.

Uma fotocomposição mostrando uma foto do casamento e outra do aniversário de 54 anos de casados; eles fazem em todo o aniversário de casamento uma festa pública com a participação da sociedade local (Fotos: acervo Família Hodges)

Mais adiante há uma interessante e detalhada entrevista que o Ivan e a Beth deram sobre as suas viagens e sobre eles mesmos. Agora, um resumo da história.

Como o casal passou em alguns lugares duas vezes, surgiu a possibilidade de eles fazerem fotos do “antes” e do “depois”, como estas no deserto da Turquia:

 

O casal trabalhou tanto na Austrália como na Inglaterra. Casaram-se em 1960 na Austrália e viajaram para a Inglaterra, onde compraram o seu Fusca. Seguindo o sangue meio nômade, meio explorador presente nos neozelandeses e nos australianos, o Fusca foi comprado para a lua-de-mel deles que seria na estrada, uma longa jornada entre Londres e Sydney.

Beth com o recém-comprado Fusca, ainda na Inglaterra (Foto: acervo Família Hodges)

Ficaram um ano na Inglaterra e fizeram algumas viagens exploratórias para ir se acostumando ao carro; acabaram desenvolvendo soluções para “morar” dentro do carro, como um dispositivo para prender o encosto do banco traseiro no teto e livrar espaço para as pernas na cama formada com os encostos dos bancos dianteiros rebatidos.

Neste ponto de minhas pesquisas eu estava levantando os itinerários de ambas as viagens, mas eu acabei detectando contradições entre as fontes de pesquisa. Como eu já tinha feito contato com o Ivan Hodge por conta de esclarecimentos sobre algumas fotos e na busca de fotos do Fusca no museu para onde ele foi levado, aproveitei para perguntar a ele sobre os itinerários. A resposta dele:

“Vai ser difícil eu me lembrar dos itinerários completos de ambas as viagens, mas vamos ver o que se consegue. A primeira viagem foi estendida para conhecer alguns países da Europa. Partimos de Londres, atravessamos o Canal da Mancha para a França, passamos através da Espanha, Portugal, França, Suíça e Áustria. De lá, através das montanhas fomos para a antiga Iugoslávia, Grécia, Istambul na Turquia, Costa do Mar Negro, de onde rumamos para o Irã, etc. Na segunda viagem não fizemos a volta pela Espanha, etc. Fomos de Londres para a Holanda com destino a Wolfsburg, na Alemanha. Lá a Volkswagen revisou o carro para o resto da viagem. De lá continuamos para a Itália, onde embarcamos o carro num navio com destino à Turquia, seguindo para o Irã, etc. Na primeira viagem fomos até Calcutá, na Índia, onde nós embarcamos junto com o carro no navio Wairata com destino à Nova Zelândia; a viagem levou sete semanas e três dias, chegando em Auckland no dia 10 de janeiro de 1962. Na segunda viagem, na Índia, descemos de Nova Déli para Mumbai, onde organizamos o transporte e deixamos o carro com a agência de navegação que o entregou em Sydney, na Austrália, em janeiro de 1997. Nós pegamos um voo da Quantas para Sydney. Aí o nosso carro começou sua vida na Austrália.”

Acho que isto explica a dificuldade de entender o começo e fim de ambas as aventuras com o Fusca. O Ivan, que está convalescendo de uma estada no hospital (coisa que ele me contou só quando eu estava terminando os esclarecimentos com ele — certamente eu teria sido cuidadoso com minhas perguntas se tivesse sabido disto antes), enviou algumas fotos do mapa que consta do livro que ele escreveu sobre estas duas viagens “For love and a Beetle – A tale of Two Journeys” (Por amor e um besouro – Um conto de duas jornadas), que está disponível em inglês. Como ele não está podendo acessar o scanner, foi isto que ele conseguiu fazer. Fiz uma colagem que resultou na foto abaixo que permite ter uma noção das duas rotas, a primeira em tracejado e a segunda em pontilhado:

Foto das páginas do livro “For love and a Beetle – A tale of Two Journeys” com o mapa das rotas das duas viagens

As viagens foram custeadas por eles mesmos. A primeira teve um orçamento de uma libra esterlina por dia para viver e a mesma quantia para os custos com o carro. Eles tinham uma barraca e também dormiram no carro, raramente ficaram em hotéis.

Camping na Espanha, foto da barraca ao lado do Fusca; a barraca deles era a menor daquele camping (Foto: acervo Família Hodges)

Na segunda viagem eles ficaram em hotéis, o espírito aventureiro sucumbiu ante o conforto que a idade aconselhava.

Mais um exemplo do antes e do depois, no Irã perto de uma mesquita – o tipo de bagageiro dá a dica do ano da viagem:

Perguntei ao Ivan se, na segunda viagem, eles conseguiram patrocínio da Volkswagen, e ele respondeu: ”A Volkswagen não patrocinou nossa jornada terrestre para a Índia, em 1996. Fomos à Wolfsburg onde o seu gerente de relações públicas nos recebeu. Ele organizou uma sessão de imprensa dirigida principalmente para a Alemanha. Em troca eles revisaram o carro para ter certeza de que ele era capaz de realizar a segunda jornada.”

Foto em Wolfsburg, ao fundo chaminés da usina termoelétrica da fábrica da Volkswagen (Foto: acervo Família Hodges)

Ainda em Wolfsburg foi feito contato com o clube de aficionados local, o 1. Käfer-Club Wolfsburg, que presenteou o Ivan com um agasalho do clube.

O Ivan continuou o seu relato: “A Volkswagen então nos deu uma garantia de que nós poderíamos ligar em qualquer local da rota que estivéssemos para solicitar socorro à concessionária mais próxima que o serviço seria feito em troca de uma sessão de imprensa local. Isso aconteceu na Itália e em Ancara. Nós os chamamos na Turquia, estávamos dirigindo por uma zona de guerra com o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão — que lutava pela liberdade de seu território), se nós quebrássemos as forças do PKK poderiam aparecer à noite e nos tomarem como reféns. A VW nos deu um carro de apoio para viajar 320 quilômetros pela zona de guerra. Isso nos levou em segurança até a fronteira com o Irã. Nós tínhamos feito arranjos para ter um carro de apoio no Irã através do grupo de viagem que fez nossas reservas de hotel. Eles arranjaram um guia que dirigia um Hillman Hunter o único carro disponível em Irã. Ele permaneceu conosco como guia, falava inglês perfeito, mas nunca tinha estado fora do Irã. Ele aprendeu inglês assistindo filmes em inglês.”

Outras fotos do antes e do depois, no Irã perto de uma mesquita – o tipo de bagageiro dá a dica do ano da viagem:

Por falar em gasolina, abastecer o carro não era uma tarefa muito fácil, em longos trechos simplesmente não havia postos de gasolina; e alguns deles não eram bem o que entendemos como tal. Veja este posto de gasolina:

“Posto de Gasolina” no Baluchistão, Paquistão em 1996, e o Fusca conseguiu funcionar com este “combustível” (Foto: acervo Família Hodges)

Estudando as fotos que eu tinha garimpado em várias fontes, a de uma pane com o carro sendo socorrido, me chamou a atenção (eu imaginava que tivesse alguma ligação com o “apoio” da Volkswagen em algum país exótico) e eu pedi ao Ivan para me dizer onde foi:

Foto da pane que me chamou a atenção, que na verdade foi uma pane seca (Foto: acervo Família Hodges)

No que o Ivan respondeu: “Foi somente em 1997 que nosso besouro chegou à Austrália vindo da Índia. Nós fizemos viagens pela Austrália, e acabamos tendo uma pane, como você viu, na Austrália Ocidental; de memória acho que foi um problema de combustível.

(*) – Wombats são marsupiais quadrúpedes musculosos de pernas curtas que são nativos da Austrália. Eles têm cerca de 1 m de comprimento com caudas pequenas e grossas.

Geralmente as viagens na Austrália são de longa distância, íamos de carro na ida, mas na volta o carro vinha de trem para Sydney. Com aquelas viagens estávamos promovendo nosso livro.

Capa do livro “For love and a Beetle – A tale of Two Journeys” (Por amor e um besouro – Um conto de duas jornadas) escrito em conjunto por Ivan Hodge e a repórter Petronella McGovern

Foi muito divertido, mas nunca foi para ganhar dinheiro com as vendas do livro. Tentamos fazer com que os editores fizessem uma versão em livro eletrônico (eBook), mas isso não aconteceu. Então, decidimos há dois anos atualizar nosso livro substituindo algumas fotos e acrescentamos um epílogo escrito por Petronella McGovern, que nos ajudou a escrever este livro.”

 

Este exemplo do antes e do depois é especial, pois mostra o Taj Mahal, da Índia, uma das edificações mais conhecidas do mundo:

 

O jovem casal em 1961, sentados em frente ao Taj Mahal, uma construção feita em função de uma linda história de amor. Já nossos viajantes celebraram o amor com seu Fusca, viajando (Foto: acervo Família Hodges)

 

Em 1996 a quantidade de turistas explodiu; aqui estão a Beth e o Ivan 35 anos depois, sentados no mesmo banco (Foto: acervo Família Hodges)

 

Na próxima parte vamos para a entrevista com nossos viajantes e terminaremos esta matéria com a entrega do Fusca ao museu em Auckland, na Nova Zelândia, onde permanecerá marcando esta aventura dupla, ou melhor deste trio, se considerarmos o Fusca, para sempre.

AG

Esta foi mais uma história que eu agradeço ao acaso (ou talvez ao meu já aguçado senso de pesquisa sobre tudo o que se refere a Fusca) por tê-la encontrado, e depois o trabalho seguiu com a obtenção do contato direto com o Ivan Hodge, e a comunicação não foi lá muito fácil devido ao fuso horário entre o Brasil e a Austrália. Fica o meu grande agradecimento ao Ivan, que, apesar de estar com problemas de saúde (coisa que por um bom tempo ele omitiu de mim) não se furtou a responder às minhas perguntas. Ele é uma pessoa de muito bom humor, talvez mais para o “British humour”, e por sua forte vontade de ajudar na redação desta matéria. Parabéns a ele e à Beth pela coragem de fazer estas duas viagens, parcialmente em condições difíceis e até bastante perigosas.
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