A Audi recorreu ao know-how da Porsche para produzir um dos veículos — uma perua — mais emblemáticos no tema desempenho.

 

Derivada da station Audi 80 Avant, a RS 2 Avant foi o primeiro carro da marca alemã a ostentar a carismática sigla que significa Rennsport, esporte de competição em alemão. RS depois acabou se tornando a marca registrada dos Audi de alto desempenho. Lançada em 1994, há exatos 24 anos, a RS 2 logo transformou-se em um clássico do mundo do automóvel. Foi a primeira parceria da Audi com a Porsche, que hoje fazem parte do mesmo grupo automobilístico mundial.

O encontro das duas gigantes do alto desempenho não poderia deixar de oferecer ao mundo um produto de repercussão internacional, como foi o caso dessa station de nome Avant, de filosofia tão particular quando o assunto é andar rápido.

Na verdade, a Audi na linha 80 já tinha a versão batizada de S no cupê e na station Avant. Em suas configurações mecânicas, esses carros tinham o motor longitudinal de 5 cilindros 2,2-litros turbo que desenvolvia 230 cv a 5.900 rpm e produzia 35,7 m·kgf de torque máximo a 1.950 rpm. Na transmissão, o sistema batizado de quattro era oriundo dos gloriosos sucessos da Audi nos ralis do campeonato mundial dos anos 80, onde sempre se saiu vitoriosa graças à grande capacidade de tração de sua transmissão especialmente desenvolvida para esse fim.

A linha esportiva 80 S2 acelerava de 0 a 100 km/h em 6,1 segundos, um resultado surpreendente para um tempo em que os carros de altíssimo desempenho  cumpriam essa prova em 4,5 a 5 segundos.

Mas nesse ponto a parceria com a hoje coirmã Porsche foi fundamental para que a família S2 recebesse em sua sigla o R que definitivamente a destacaria no mercado internacional. De posse do projeto do Audi S2, a Porsche trabalhou no desenvolvimento do motor turbo de 5 cilindros, no câmbio manual de 6 marchas, no diferencial autobloqueante do eixo traseiro, nas suspensões, freios e em alguns detalhes de design que justificassem o nome Porsche junto à marca dos quatro anéis entrelaçados.

No motor, os alemães da Porsche mantiveram a cilindrada de 2,2 litros (2.226 cm³, mesmo diâmetro de 81 mm e curso de 86,4 mm do AP-1800) e seus 5 cilindros. No restante, mexeram em tudo: O turbocompressor KKK original foi substituído por outro da mesma marca 30% maior, da mesma forma o intercooler foi trocado por outro com maior capacidade de resfriamento do ar de admissão. Os comandos de válvulas foram trocados por outros com maior duração e levantamento e, claro, o gerenciamento eletrônico Bosch de todo o sistema de injeção e ignição foi trocado por outro de maior capacidade de processamento, juntamente com válvulas de injeção (“bicos”) de maior vazão..

Todo esse retrabalho no motor permitiu que o novo 2,2 turbo passasse de 230 cv dos S2 para impressionantes 315 cv a 6.500 rpm, com torque máximo de 41,8 m·kgf já a 3.000 rpm. Combinado com o novo câmbio de 6 marchas e a transmissão Audi quattro que não permitia que as rodas patinassem nas acelerações, a nova RS 2 Avant cumpria a prova de aceleração do 0 a 100 km/h em 4,8 segundos. Na época era a station mais rápida do mundo.

Só para que se tenha uma ideia, a publicação inglesa especializada Autocar afirmou que na aceleração de 0 a 50 km/h a station RS2 era mais rápida do que o Fórmula 1 da McLaren, segundo os testes que realizaram. Provavelmente porque a RS 2 não patinava na saída e certamente o F-1 perdia um bom tempo com as rodas girando em falso. Segundo a publicação britânica, a RS 2 cumpria essa prova em 1 segundo e 50 centésimos. Um feito impressionante.

Além dessa mecânica de deixar babando qualquer entusiasta por carros esportivos, a RS 2 Avant também mostrava uma dinâmica irrepreensível graças á sua tração integral, portanto permanente, que permitia o controle em curvas perfeito, sem desequilíbrios entre a frente e a traseira ao aplicar potência. O torque era dividido entre os eixos de acordo com as necessidades do momento por um diferencial central Torsen.

No sistema de freios, disco nas quatro rodas, ventilados de 304 mm na dianteira e 299 mm, na traseira, com o mesmo ABS da S2. O comprador poderia escolher, opcionalmente, discos ainda maiores, de 322 mm nas quatro rodas, que aumentavam ainda mais a sua capacidade de frenagem. As suspensões, recalibradas em molas, amortecedores e barras estabilizadoras, deixavam a RS 2 quatro centímetros mais baixa do que a S2 Avant, melhorando sua estabilidade direcional, em frenagens e, principalmente, a aderência em curvas.

Além do novo projeto mecânico, a parceria Audi -Porsche, trabalhou o visual da RS 2. As rodas de 17 polegadas eram as mesmas utilizadas pelo Porsche 968. Os espelhos retrovisores são iguais aos utilizados pelo Porsche 964 e o contorno dos para-choques eram mais envolventes e exclusivos da RS 2, dando-lhe maior personalidade. No interior, bancos envolventes forrados em couro, especialmente desenvolvidos pela Recaro. Os acabamentos internos de console, laterais de portas e painel poderiam ser em madeira ou fibra de carbono, dependendo do gosto do comprador.

Na época, além de ser a station mais rápida do mundo (atingia 262 km/h), a Audi RS 2 Avant foi aclamada pela imprensa mundial como um carro que já nasceu clássico e hoje as poucas das 62 unidades comercializadas no Brasil são oferecidas ao mercado por até R$ 250 mil, um típico carro raro de colecionador.

Eu, particularmente, como jornalista, tive a oportunidade de avaliar uma RS 2 por cerca de duas semanas e, posso garantir ao leitor que foi uma experiência inesquecível. Daqueles carros que não se quer devolver e apenas guardá-lo na garagem como uma obra-prima da engenharia alemã.

DM

A coluna “Perfume de carro” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.
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