As críticas são recebidas com incentivos. Às vezes com pedrada…

 

A reação de certos mecânicos — classe profissional que respeito e admiro — às críticas de empurroterapia são as mais diversas. Alguns incentivam e ressaltam a importância de se acusar as maracutaias. Outros vestem a carapuça e jogam pedra…

Quando o carro é levado à oficina com sinais de fumaça mais colorida pelo escapamento (foto de abertura), tem mecânico que logo sugere o motor seja desmontado e enviado para a retífica. Tem o mais competente (e honesto) que, antes, verifica não se tratar de um mero retentor de válvula danificado.

Se chega fazendo fumaça pelo capô, tem o que vai direto na válvula termostática e a arremessa teatralmente para a lata de lixo. E, a seguir, o discurso de sempre: “Essa válvula só é necessária em países europeus que vivem congelados e com temperaturas abaixo de zero grau. No Brasil, país tropical, ela só serve para fazer a água ferver”. E diz ao atônito dono do carro que ele pode ir embora, sem nada cobrar pelo “serviço”. Admirado com a “competência” do mecânico, nem imagina que a água não vai mais ferver, porém o motor vai trabalhar em temperatura abaixo da ideal, aumentando consumo e emissões. Ou será que a fábrica mantém o custo de um componente desnecessário?

O dono do carro com motor a gasolina reclama que seu custo sobe sem parar no posto e pensa em trocá-lo por um flex para abastecer com álcool — ou etanol, como a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) resolveu há quase dez anos renomeá-lo. O mecânico tem pronta na gaveta uma opção muito mais em conta: um chip que “converte” o motor para álcool. Minutos depois o carro sai para abastecer com o produto oriundo da cana-de-açúcar. E o motor funciona sem problemas, pois o chip “engana” a central eletrônica. Mas não engana o sistema de alimentação, que vai se corroer e enferrujar, pois não foi projetado para receber água contida no álcool hidratado, muito menos o agressivo combustível. E o motor terá baixa eficiência energética, pois a taxa de compressão não foi alterada para aproveitar a elevada resistência do álcool à detonação.

Fiz há tempos uma pesquisa sobre o comportamento de oficinas especializadas em alinhamento de rodas. Um carro apesar de novo (frota de fábrica), foi levado a uma concessionária para conferir os ângulos das rodas, que estavam corretos. E correu, então, dez oficinas, escolhidas aleatoriamente, para orçar um eventual serviço. Três delas não orçaram, pois “o alinhamento estava correto”. Outras seis emitiram orçamento, pois julgaram necessário o procedimento. Entre estas, a matriz de uma rede de oficinas. O carro foi levado também a uma de suas filiais que orçou um valor quase o triplo da matriz, alegando “eixo traseiro empenado”…

A troca da correia dentada revela quem é quem, pois muitos mecânicos defendem a troca simultânea do seu tensionador, que tem um rolamento. Esta troca não é prevista em nenhum manual de fábrica, à exceção dos Renault que têm esse sistema de acionamento do comando de válvulas (motores SCe de 1 e 1,6-L são por corrente). Exceto se o rolamento apresentar um envelhecimento precoce, fácil de ser diagnosticado por um mecânico competente e honesto. Ou se o “especialista” for adepto da empurroterapia…

Só que se esse e muitos “especialistas” desconsideram o fato de os incontáveis rolamentos dos carros durarem incomparavelmente mais que os dos tensionadores e que os motores Ford tricilindro são isentos de manutenção da correia dentada, que é encapsulada e em banho de óleo, por toda a vida do motor.

Por falar em empurroterapia, este é um capítulo recheado tantas as práticas discutíveis nas oficinas. Entre as mais cotadas no ranking, a limpeza de bicos, sonda lambda e até o tanque de combustível. Ou a lubrificação da suspensão e (acreditem…) das maçanetas e dobradiças das portas. Descarbonização do motor que não está carbonizado é outra bem posicionada no ranking. E várias outras, de acordo com a criatividade e “esperteza” do brasileiro. Uma inacreditável: concessionária cobrou pela troca do fluido da direção hidráulica de um carro… com direção eletroassistida!

Faturar desnecessariamente é um mal que aflige indistintamente diversos setores da economia. A ética nem sempre impera.

Mas, ainda pior é a oficina que cobra pelo serviço não executado. São inúmeras as possibilidades, mas algumas podem ser classificadas como criminosas. Já vi anúncio de reparação de airbag deflagrado, absolutamente impossível de se fazer. O mecânico simplesmente cobre o espaço (vazio) dele com a tampa original. E inventa um sisteminha elétrico para fazer a luz de alerta do airbag no painel se acender e apagar para enganar o motorista. Pode?

BF

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.

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Sobre o Autor

Boris Feldman
Coluna: Opinião de Boris Feldman

Boris Feldman é formado em Engenharia e Comunicação. Foi engenheiro da Metal Leve (fábrica de peças para motores) por 20 anos e editor de diversos cadernos de automóveis. Criou e produziu o programa Vrum em rede nacional pelo SBT, foi piloto de competições e vice-diretor da CBA. É colecionador e diretor do Veteran Car-MG. Além do AUTOentusiastas, assina coluna em jornais e outros portais e tem o programa de rádio Auto Papo em quarenta rádios. Lançou em julho de 2017 e é publisher do portal autopapo.com.br.

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