Esta matéria, como várias outras, começou a partir de uma foto que vi no Facebook, no caso uma mensagem desejando um bom dia e um belo início de semana. Quem a postou foi o José Luis Illanes, meu contato para assuntos de Fusca na Bolívia.

Mensagem de bom dia e desejo de um bom início de semana, que deflagrou a minha curiosidade

A foto que me intrigou e eu comecei a questionar o José Luis e das informações iniciais eu logo vi que dava para “garimpar” assunto para um matéria: três Fuscas sendo transportados por uma embarcação simples de madeira em água calmas, que indicavam poder ser um rio ou um lago. A tal mensagem com fotografia é a seguinte está ao lado e a foto original, sem os dizeres, é a foto de abertura esta matéria.

As coisas foram aparecendo, a foto foi feita no contexto da décima-primeira edição anual do “RALLY TURÍSTICO A COPACABANA” que o “Club de Petas La Paz Bolívia”, que é liderado pelo José Luis, realiza e a intrigante foto foi tirada no Estreito de Tiquina; espera aí, estreito na Bolívia? Pois é, temos muitas coisas para explicar de maneira a entender o que realmente aconteceu por lá na Bolívia.

Vamos começar com o nome da agremiação: “Club de Petas La Paz Bolivia”. O Fusca tem centenas de apelidos pelo mundo, a maioria deles é a tradução da palavra Besouro para o idioma local, o que não se aplica ao caso da Bolívia, onde, em sua parte oriental, ainda se fala o idioma Guarani. E neste idioma, “petaa” que dizer tartaruga. Portanto Fusca na Bolívia é Peta, perdeu um dos “a” finais e se refere a uma tartaruga; sim, cuja forma também lembra um Fusca.

Mapa do percurso do rali a Copacabana; a linha poligonal que passa à esquerda de Copacabana é a fronteira com o Peru; detalhe para a altitude que pode ultrapassar os 4.000 metros! (Fonte Google Maps)

O ponto de encontro deste evento, que durou dois dias, 8 e 9 de setembro de 2018, foi num posto de pedágio na Ruta Nacional 2, que é uma rodovia pavimentada de 155 km na Bolívia, no oeste do departamento (divisão administrativa) de La Paz, entre as cidades de Kasani, na fronteira com o Peru, e La Paz (Bolívia). Este posto de pedágio fica na localidade de Tranca de Corapata; acessível a todos os participantes do evento.

As Petas vão chegando ao ponto de encontro na localidade de Tranca de Corapata que fica na Ruta Nacional 2

Antes de iniciar a viagem, é feita uma oração coletiva para que tudo corra bem durante o fim de semana; e a organização também faz uma preleção transmitindo as recomendações de segurança para todos os participantes.

O José Luis comentou: “A cada ano levamos os participantes para conhecer um pouco mais das ruínas Incas da região de Copacabana. E nestes lugares há pequenos povoados com entre trinta e cinquenta famílias; para onde eu viajo com umas duas semanas de antecedência. Isto para coordenar a visita do clube com os membros da comunidade e para fazer um pequeno censo das crianças; para poder levar uma quantidade adequada de material escolar para ser distribuída lá…”

De tempos em tempos, os carros que iam na frente do comboio davam uma parada para esperar a chegada do último Fusca que vinha com o carro de apoio mecânico; completando o esquema de apoio aos participantes um médico fazia parte do grupo. Em 2018 participaram 19 carros, e o recorde de participação foi em 2014 com 54 — o que deu mais trabalho para os organizadores que também vão controlando a velocidade para que os 100 km/h não sejam ultrapassados, uma das normas de segurança deste evento.

Parada para acomodar o comboio na localidade de Huarina, na Ruta Nacional 2

 

Os carros aproveitando a Ruta Nacional 2 que é uma estrada asfaltada em bom estado de conservação

Ainda falando de segurança do comboio, os carros são identificados com cartazinhos afixados nas janelas laterais traseiras dos Fuscas, e que já são conhecidos até da polícia rodoviária que não para os carros assim identificados para controle; isto acaba economizando tempo de estrada.

Detalhe dos cartazinhos de identificação dos carros (seta vermelha) que fazem parte do comboio. Outra identificação que a maioria dos carros adota é uma fita com as cores da Bolívia, lançada em “V” sobre o capô dianteiro (seta amarela)

A uma certa altura, quando a estrada se aproximou  do Lago Titicaca, o comboio enveredou por estradinhas de terra que acompanham a orla do lago para mostrar esta paisagem para quem ainda não a tinha visto:

Também foi feita uma parada para chegar perto das águas do Lago Titicaca em uma de suas praias:

Acho que agora chegou a vez de falar do tal “Estreito de Tiquina”. Este estreito tem 850 metros em seu ponto mais estreito. Ele liga o lago superior, ou lago Chicuito, ao lago inferior que é menor, o lago Pequeno. O lago inteiro é chamado Lago Titicaca e é o maior lago, em volume, na América do Sul. Está situado na fronteira da Bolívia e do Peru.

Detalhe do estreito de Tiquina onde a Ruta nacional 2 atravessa o lago com balsas. Há o projeto da construção de uma ponte no futuro

Para evitar a volta ao redor do Lago Pequeno, ônibus e carros cruzam o estreito em barcaças ou canoas. Os passageiros geralmente não cruzam o estreito nas mesmas barcaças que levam os veículos mais pesados como os ônibus, por motivo de segurança. A travessia ocorre entre as localidades de San Pablo de Tiquina (ao norte do estreito) e San Pedro de Tiquina (ao sul).

O imenso lago Titicaca cujo espelho d’água fica a 3,812 m de altitude, com suas águas salobras, dividido entre a Bolívia e o Peru; um lago envolto na mística da região andina (Fonte Google Maps)

O comboio de Petas parou em San Pablo de Tiquina para compactar e esperar o embarque nas balsas de madeira para cruzar o estreito:

Prontos para o embarque

Adiante os carros foram sendo embarcados e o piso das balsas de madeira exige cuidado durante este procedimento:

 

As acomodações para os carros, sobre pranchas, e para os passageiros parecem bastante espartanas

Uma das barcaças em plena travessia levando as Petas para San Pedro de Tiquina:

A bordo de uma das balsas de madeira, da esquerda para a direita José Luis Illanes – o nosso contato na Bolívia, Freddy Aldana e ao lado seu filho Fabricio Aldana e Marcos Guzmán

Os carros que iam chegando à outra margem, em San Pedro de Tiquina,  estacionavam em grupo para esperar que todos fizessem a travessia:

 

As Petas esperando as que ainda não completaram a travessia do Estreito de Tiquina

Saindo de Tiquina a estrada vira uma forte subida até um local chamado La Cumbre, aí os carros foram sendo aglutinados para subir em comboio compacto. Notei que na foto todos os Fuscas estavam com as tampas do motor aberta e perguntei o motivo, e o José Luis esclareceu que era para esfriar os motores preparando para a subida, lembrando que eles estavam a mais de 3.500 metros de altitude e subindo (na verdade o que se esfria neste caso é o ambiente do motor que aquece quando o motor quente da estrada é desligado e o arrefecimento da ventoinha é interrompido – com isto também se esfria a bomba de gasolina que, caso contrário, pode dar pane devido ao aquecimento):

 

Os Fuscas que já chegaram a este ponto se preparando para continuar na estrada em altitude elevada

O caminho leva a um lugar alto de onde se tem uma linda vista para o Lago Titicaca e lá os carros estacionaram para apreciar a paisagem:

 

Deste local se tem uma linda vista do Lago Titicaca

Nas margens do Lago Titicaca existem ilhas flutuantes que são usadas para turismo, também há estações de piscicultura de trutas:

A caminho de Copacabana foi feita uma parada no portal que marca a fronteira rodoviária com o Peru para uma foto e para que os novatos pudessem conhecer o local:

 

Posto de fronteira entre o Peru e a Bolívia, na localidade de Tinicachi, onde o comboio fez uma parada

 

Visita ao sítio arqueológico “Asientos del Inca

Um dos pontos que foi explorado no evento de 2018 foi um sítio arqueológico que é uma formação de rochas esculpidas, chamado de “Assentos do Inca” ou “Intinkala” (que significa “pedras onde o sol se senta”). Este sítio está localizado a 5 minutos da igreja principal, em frente ao cemitério e é uma das atrações turísticas da região, mas para os locais é um local sagrado.

Um grupo de rochas esculpidas que formam o sítio arqueológico “Assentos do Inca” na localidade Intinkala em Copacabana

Mais alguns detalhes destas formações rochosas esculpidas com assentos:

 

Há um lugar que promete sorte. Conforme contou o José Luis: “Este é um costume que os locais perpetuam; eles dizem que aqueles que passarem por esta abertura estreita, e não ficarem encalhados, é porque terão uma vida longa… (risos)”

O próprio José Luis participando da tradição local e passando pela tal abertura entre as rochas

O pessoal do clube explorou o sítio arqueológico de Intinkala, aqui algumas fotos desta prazerosa atividade:

A comunidade cujas crianças iriam receber o material escolar fica ao lado deste sítio arqueológico, em Intinkala, recebeu o pessoal do clube com uma tradição local que se chama “Aptapi” que consiste em receber os visitantes com um almoço; as comidas são colocadas sobre mantas esticadas no chão. É um ritual para compartilhar o aconchego com os visitantes, é assim que eles dão as boas-vindas; mesmo sendo uma comunidade pobre, é muito hospitaleira. Os locais se apresentaram em seus trajes típicos.

 

Entrega do material escolar para as crianças de Intinkala

Para fazer esta entrega o comboio se apresentou e estacionou numa praça de Intinkala, onde tudo foi preparado para a entrega do material escolar:

Uma linda foto dos carros do comboio estacionados em frente a uma mesa e uma fileira de cadeiras, preparados para a entrega do material escolar para as crianças da comunidade

O material escolar foi colocado sobre as mesas, preparando a sua distribuição, e as crianças foram se aproximando:

Mesa cheia com o material empilhado cuidadosamente e as crianças se aproximando para serem os primeiros a ganhar o material

 

As crianças chega próximo à mesa curiosas e desejando logo receber o seu material escolar

 

A foto do menino com o seu uniforme escolar recebendo um lápis e um caderno é realmente emocionante e traduz bem o que este clube faz como atividade comunitária, pelo que eles merecem os parabéns!

 

Visita à Basílica Nossa Senhora de Copacabana

A Basílica Nossa Senhora de Copacabana está situada na cidade de Copacabana. É onde se encontra a imagem de Nossa Senhora de Copacabana, a padroeira da Bolívia. A igreja foi construída no ano de 1550 em estilo renascentista e foi reconstruída entre 1610 e 1651.

Quando perguntei ao José Luis sobre a visita à basílica ele disse que quando eles chegam lá seu grupo é aplaudido pela população, e sobre a parte religiosa ele informou: “Sim, lá recebemos a bênção dos carros, o que é um costume quando nós visitamos este local sagrado.”

 

Chá de confraternização no Mercado de Copacabana

À tardinha todos se reuniram no Mercado de Copacabana para um chá de confraternização e para a troca de impressões sobre aquele dia cheio de atividades e emoções:

 

Encerro este artigo com a foto abaixo, em San Pablo de Tiquina, já do caminho de volta para La Paz, depois de um fim e semana cheio e que, certamente, deixara ótimas lembranças para todos que participaram deste evento.

Comboio em San Pablo de Tiquina aguardando o restante dos carros atravessarem o estreito para rumarem, novamente em comboio, de volta para La Paz encerrando o evento


 

Sempre que eu faço uma matéria sobre um evento fora do Brasil surge a oportunidade de aprender um pouco sobre o pais do evento. Isto é assim desde os tempos que eu redigia o boletim interno do Fusca Clube do Brasil, só que naqueles tempos não havia a internet e os dados sobre os países eram obtidos de um guia geográfico emitido anualmente pela Editora Abril. Nesta matéria conhecemos alguns aspectos de nosso vizinho Bolívia e do movimento Fuscamaníaco de lá, juntamente com algumas informações sobre a região de Copacabana e da porção boliviana do Lago Titicaca. Certamente, há muito a ser explorado por aquela região.

AG

Eu agradeço ao José Luis Illanes pela colaboração muito produtiva na elaboração deste trabalho. Para mim foi mais um desafio difícil, o de escrever sobre um evento sem ter estado lá. A comunicação com o José Luis foi feita usando as redes sociais, o Facebook e o WhatsApp. O trabalho começou com um questionário que fiz com perguntas gerais, mas depois do recebimento das fotos a coisa complicou. Fiz um questionário com perguntas para cada uma das fotos que foram recebidas, mas aí eu observei que as fotos não estavam em ordem cronológica e foi necessário pedir o ordenamento das fotos. Estudei a Ruta 2 para ir conhecendo os pontos citados nos esclarecimentos das fotos. Aprendi sobre o Estreito de Tiquina, a cidade e Copacabana, o “Assentos do Inca”, a Basílica de Copacabana e vários outros aspectos correlatos, isto para poder compor a ambientação da matéria. Mais um trabalho que começou com o encontrar uma pontinha, interagir e pesquisar bastante até “descobrir” o quadro todo para poder apresentar para você, caro leitor e cara leitora.
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A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.
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