Um Renault a toda prova: o Gordini que rodou sem parar por mais de 51.000 km em 22 dias.

No dia 27 de outubro, ontem, sábado, completaram-se exatos 54 anos do início de uma das mais longas e duras provas imposta a um carro nacional de grande produção. Um marco importante de nossa indústria automobilística, que mostrou ao mercado o valor do carro nacional produzido por nossa então jovem e valorosa indústria nacional de veículos.

A ideia do projeto iniciou-se no segundo semestre de 1964. Para acabar de uma vez com os comentários de que o Renault Gordini não era um carro muito resistente, seu fabricante, sob licença, a Willys-Overland do Brasil, por sugestão do publicitário Mauro Sslles, titular da agência de publicidade que tinha a conta da Willys e também uma espécie de conselheiro do presidente William Max Pearce, resolveu realizar um teste extremo: colocar um Renault Gordini de linha para rodar por 50 mil quilômetros, sem parar num tentativa de recorde internacional oficial fiscalizada pela FIA (Federação Internacional do Automóvel).

As paradas básicas seriam apenas para a troca do piloto, reabastecimento, verificação/troca do óleo do motor, água do radiador e pneus. Com tudo verificado, o Renault partia novamente para a maratona, realizada no anel externo do circuito de Interlagos.

O Renault Gordini era absolutamente original e foi escolhido ao acaso no pátio onde ficavam estocados os carros que saíam da linha de montagem. Teve sua carroceria autografada pelos pilotos da equipe Willys que dirigiriam o carro ao longo dessa extenuante prova de 50.000 km — Wilsinho Fittipaldi, José Carlos Pace, Bird Clemente, Chiquinho Lameirão, Carol Figueiredo, Luiz Pereira Bueno, Geraldo Meirelles, e mais três pilotos convidados, Vitório Andreatta, Danilo de Lemos e Wladimir Costa.

A largada do início do evento ocorreu exatamente na data que havia sido marcada no ano de 1964. E se realizaria em sua totalidade apenas dentro do circuito de Interlagos, para que se tivesse o total controle de onde o carro rodava e sem a possibilidade de troca do veículo no transcorrer do teste.

Como o anel externo de Interlagos é uma pista de alta velocidade, o teste obrigava o Renault Gordini e seu pequeno motor de 845 cm³ e 40 hp/32 cv trabalhar quase que ininterruptamente perto de sua rotação de potência e velocidade máximas, uma exigência mecânica que poucos carros da época resistiriam de maneira tão brilhante. É bom salientar que o carro era dirigido por pilotos experientes que tiravam do Renault Gordini o seu máximo desempenho.

Mas, como se sabe, uma prova com essa longevidade e altíssima rodagem está sujeita a todo tipo de imprevistos. E as coisas muitas vezes não acontecem como foram planejadas.

Quatro dias depois da largada, mais precisamente no dia 31 de outubro, o Gordini estava sob a tocada do competente piloto Bird Clemente. Por causa da chuva que havia caído nos dias anteriores, o asfalto estava sujo com pedriscos. Bird, ao passar sobre eles na Curva 3, final da grande reta, perdeu o controle do carro, que bateu no barranco que margeava a pista (ainda não havia guard-rail) e capotou. Já haviam feito mais de 3.200 voltas pelo anel externo de Interlagos e a prova não poderia ser suspensa.

Como a prova estava sob supervisão da FIA, todas as regras das tentativas de recorde teriam de ser observadas, uma delas a de que em caso de capotagem o carro não poderia ser desvirado com auxílio externo. Mas o Gordini ficou com as quatro rodas no chão e, assim, pôde continuar.

Bird levou o carro ao boxes por meios próprios e, examinado pela engenharia da Willys, o Renault mostrou que sua mecânica intacta: apenas a lataria havia sido amassada, além do para-brisa e vidro traseiro quebrados. Depois de analisarem o carro, os técnicos concluíram que o teste poderia prosseguir. E assim foi feito.

Mesmo com a lataria toda danificada, teto bem amassado (foto de abertura), o teste foi reiniciado e o valente Renault Gordini prosseguiu sua maratona. Imediatamente o carro foi batizado por aqueles que participavam do teste como Teimoso, pois não era uma batida com capotagem que conseguiria pará-lo.

O Renault Gordini prosseguiu firme e forte por mais 18 dias nesse ritmo alucinante de teste. É difícil supor que um carro de produção normal destinado ao uso comum de famílias, tirado ao acaso da linha de montagem e lacrado pelo comissário da FIA, Paul Pierre Marcel Massonet, pudesse resistir tão bravamente a um teste de características tão destrutivas.

Totalizando 22 dias de duros testes, o Renault havia atingido a meta de 50.000 km, chegando a 51.233 km com a média horária global, isto é, sem descontar as paradas, de 97,15 km/h. Uma média expressiva para um carro de 118 km/h de velocidade máxima. Um sucesso absoluto! A prova foi completada no dia 17 de novembro de 1964.

Se não fosse o acidente, o valente Renault teria completado a prova perfeitamente, sem nenhum dano, como iniciou o teste. Mas o acidente serviu para mostrar também que o Renault Gordini era muito mais valoroso do que o mercado faria supor.

O interessante é que a teimosia do Renault Gordini em terminar o teste acabou por definir o nome da versão popular do Gordini que seria lançada logo em seguida: o Renault Teimoso. É importante ressaltar que depois desse teste, o Gordini acabou colhendo o sucesso de sua ousadia: foram nada menos que 133 recordes totais, sendo 54 locais, 54 nacionais e 25 internacionais. Um sucesso absoluto, tanto na prova de resistência quanto na sustentação das vendas.

DM

A coluna “Perfume de carro” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.
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