O que o Honda Civic VTi de 160 cv era capaz de fazer nas ruas e estradas impressionava.

O pequeno hatch da Honda era, sem sombra de dúvida, o terror de nossas ruas e estradas nos anos ’90. Muito rápido nas acelerações, diria rapidíssimo se considerarmos seu tempo, como ir de 0 a 100 km/h em 7,5 segundos e atingir uma velocidade máxima de 215 km/h (em 5ª marcha, a 7.400 rpm, 200 rpm abaixo da rotação do pico de potência).

Só para que o leitor ou leitora tenha uma referência, os nossos rápidos esportivos de então, como Kadett GSi e o Gol GTi, cumpriam a mesma prova na casa dos 9 segundos e em velocidade máxima chegavam à marca ao redor 190 km/h. Ou seja, se algum deles cruzassem o caminho de um Civic VTi, seriam literalmente massacrados, sem chance alguma de defesa.

O interessante é que apesar disso não houve, na época, um grande estardalhaço por parte da Honda no lançamento, em 1993, de seu pequeno hatch demoníaco. O carrinho não tinha faixas, rodas brilhantes, enormes asas traseiras ou aquele monte de faróis auxiliares que chamassem a atenção. Era absolutamente discreto. Um verdadeiro, esse sim, lobo em pele de cordeiro.

Belo visual, tudo à mão e com apoio para o pé esquerdo (Foto: quatrorodas.abril.com.br)

Todos os que dirigiram o pequeno hatch da Honda têm histórias dos feitos alucinantes do pequeno carro para contar. E olha que o carrinho, com suas expressivas marcas de desempenho, tripudiavam a quase totalidade dos carros vendidos em nosso mercado na primeira metade dos anos 90. Nem mesmo as motos deixavam de serem vítimas da ligeireza do Honda, que surpreendia muitos motociclistas nas arrancadas dos semáforos.

Eu mesmo tenho uma boa história para contar, a surpresa que fiz a dois motociclistas. Era uma época em que o trânsito corria mais frouxo e não havia, praticamente, radares controlando a velocidade e os abusos. Quase tudo era possível. Parado, aguardando a abertura de um sinal de pedestres, tinha à minha frente uma recém-inaugurada avenida na zona norte da cidade de São Paulo. Uma reta longa que não se via o final. Um convite à velocidade.

Nesse cenário, pararam de cada um dos lados do Honda duas motos: uma Honda XLX 350R e uma Yamaha RD 135 visivelmente mexida pelos escapamento e pelo som do seu motor de dois tempos. As duas já vinham se estranhando desde lá atrás. E, de repente, eu e o VTi estávamos no meio dessa encrenca.

As duas motos ficaram acelerando entre si, e o VTi no meio. O sinal abriu e ambos arrancaram forte. Não perdi a oportunidade e arranquei junto. Nos primeiros 100 metros as motos que iam lado a lado, já haviam aberto um carro de vantagem sobre o Honda. Mas eu sabia que tudo era uma questão de tempo, e o VTi faria virar esse resultado.

Na arrancada, fui com a primeira até perto de 8.000 rpm, a segunda até a casa dos 8.000 rpm. Já na terceira, a uma velocidade que beirava os 130 km/h, as motos pararam de abrir vantagens e foi o Honda que começou a recuperar terreno. Já com a terceira chegando 8.000 rpm, cerca de 140 km/h, para surpresa dos motociclistas eu já estava de novo entre as duas motos e passei entre os dois como um foguete.

Apesar de estarem com o rosto abaixado praticamente na altura do guidão para reduzir o arrasto aerodinâmico, os motociclistas tomaram um susto tamanha a velocidade com que passei entre eles. Nessa altura do campeonato já tinha engatado a quarta marcha e o Honda VTi, com sede de asfalto, queria andar mais. Era o verdadeiro Diabo da Tasmânia do desenho do Pernalonga.

Discrição também marcou o rápido Civic VTi (Foto: quatrorodas.abril.com.br)

Realmente um carro que dava muito prazer e satisfação. E pensar que ele era assim mesmo, totalmente original de fábrica. Aqueles dois motociclistas, se não conheciam o mundo do automóvel, devem estar até hoje pensando : “O que será que aquele cara fez no motor daquele Hondinha, para fazer com que ele andasse tanto”?

Uma outra história interessante teve como “vitima” um carro que me é tão querido: um Gol GTi. Ainda nessa época de trânsito frouxo, poucos radares e controles de velocidades. Em uma sexta-feira à noite viajava para Itatiba, a cerca de 80 quilômetros de São Paulo, pela Rodovia dos Bandeirantes. Desta vez não estava sozinho, mas com a família. Normalmente, viajava na faixa do meio, em velocidades que variavam entre 100 e 120 km/h, dependendo do tráfego.

Chegando perto do primeiro pedágio, passou por mim uma Quantum 2000, que vinha sendo massacrada por um Gol GTi. Resolvi colocar minha estrela de xerife e tomar as dores da Quantum que vinha sendo humilhada. Mirei o Gol GTi e fui atrás dele no mesmo caixa que ele parou para pagar o pedágio. Parei atrás, e disse: “ Vou dar um calor e uma liçãozinha nesse apressadinho”!

Ele pagou e saiu rápido com o GTi. Fiz o mesmo com o Honda VTi e logo fiquei a uma distância de cerca de um carro dele e nunca usei mais do que ¾ do acelerador. Acompanhava fácil o Gol do apressadinho. Fiquei cozinhando o cara que me espreitava a todo o tempo pelo retrovisor, sem saber exatamente o que era aquilo que ele não conseguia se afastar com seu potente GTi.

Esperei até “acabar” o que o GTi tinha para dar e quando estava próximo dos 190 km/h, sabia que o Gol GTi já estava na final. O Honda VTi? Estava com ¾ de acelerador e ainda em quarta marcha. Aos 190 km/h, pensei: Agora é a hora da lição e vou deixar o cara comendo poeira!

Me aproximei, dei um clique no farol pedindo passagem, o cara saiu para a direita e quando estava ao lado dele, o motorzinho do Honda girava a 7.800 rpm pedindo a quinta marcha. Atendi aos pedidos do Honda e fiz isso bem ao lado do motorista do GTi. O cara descobriu que eu ainda tinha uma marcha para engatar, enquanto ele não podia fazer mais nada.

Meus filhos, na época pequenos, estavam no banco traseiro e pedi a eles: “Faz tchau para o titio aí atrás, que estamos indo embora e não vamos esperar por ele”. Os dois meninos ficaram fazendo o aceno com a mão, enquanto o cara, muito bravo, piscava o farol alto. Fui até os 215 km/h que o VTi dava e só desacelerei quando o humilhado Gol GTi sumiu do meu retrovisor.

Sem dúvida, esse Honda Civic VTi é um carro do qual guardo as minhas melhores lembranças de direção e pilotagem nas ruas. Anos depois comprei um outro, também preto mas 1995, dois anos mais novo. Nesse instalei um turbocompressor que levou a sua potência máxima para brutais 327 cv, medidos no dinamômetro, que tornaram sua performance estúpida. Mas essa história eu deixo para contar depois.

DM

A coluna “Perfume de carro” é de exclusiva responsabilidade do seu autor.
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