Pois é, mudei de especialidade. Depois de vários posts sobre chineses, agora chegou a vez de me especializar em Citroën, mais exatamente no Cactus. Pela terceira vez (andei nos protótipos e também no lançamento oficial) rodei com o Cactus: duas semanas e quase 1.900 km. Foram 14 dias com muitas viagens e desta quilometragem apenas cerca de 25% foram em trânsito urbano. Foram duas semanas com muita estrada.

Fomos de São Paulo para o Rio de Janeiro, duas vezes para o interior de São Paulo e, claro, a sagrada passada pela Estrada dos Romeiros, onde o Bob fez as fotos que ilustram esta matéria.

Quando peguei o Cactus achava que esta convivência mais longa não iria acrescentar muito ao que eu já sabia (e havia publicado) sobre este novo Citroën feito em Porto Real (RJ). Engano meu. Duas semanas usando um carro no dia a dia acrescentam bastante, tanto confirmando qualidades como apontando limitações que só aparecem em uma convivência mais intensa.

Além de muitas estrada, o Cactus fez a passagem obrigatória pelos Romeiros para ser fotografo depois de muito rodar

O Cactus cedido pela Citroën era o Shine Pack, topo de linha com o motor turbo THP 1.6 de 166/173 cv, com preço de tabela de quase R$ 100 mil (exatos R$ 98.990). Este motor turbo 16V com certeza é responsável por boa parte do prazer ao dirigir e até mesmo pelo consumo elogiável de combustível. Seu torque 24,5 m·kgf (com os dois combustíveis), que já aparece nas 1.400 rpm, permite rodar bem com o motor pouco acima da marcha lenta, principalmente usando o ótimo câmbio automático Aisin no modo Eco. As marchas são trocadas mais rapidamente e logo se está na sexta e última marcha, rodando a cerca de 60 km/h a apenas 1.000 rpm (a 100 km/h o motor gira a pouco mais de 1.500 rpm). Já o modo Sport apenas favorece arrancadas mais rápidas, mas incomoda pelo fato de o motor trabalhar em rotações bem mais elevadas, além de aumentar bastante o consumo. O terceiro modo do câmbio, o Normal, é sempre o padrão quando se liga o Cactus.

Com certeza as versões de entrada do Cactus com motor 1,6 aspirado de 115/122 cv (que começam nos R$ 68.990) não oferecem tanto prazer ao dirigir, mesmo as que trazem câmbio manual.

O painel principal digital é simples e traz muita informação. Pena que não mostre a temperatura do motor

Raramente foi usado o condicionador de ar, pois as duas semanas foram frias, e quase sempre o câmbio trabalhou no modo Eco. Assim, com gasolina as médias com bastante estrada foram sempre acima dos 13 km/l. Porém, por uma questão “de bolso” (o álcool está custando cerca de 60% do valor da gasolina no Estado de São Paulo) mais de 2/3 dos 1.900 km foram rodados com álcool. A média “com cana” foi de 10,5 km/litro, chegando aos 11 km/litro em trechos mais planos e tranquilos. E olha que a viagem de São Paulo ao Rio foi com três pessoas e bagagens. Dois passageiros eram “peso pesado”, e com a bagagem a carga somava quase 400 kg. O consumo com álcool só baixou de 10 km/litro em duas situações: em trânsito urbano e em uma abastecida azarada na Via Dutra, quando caiu para 9/9,5 km/litro. No trânsito urbano esta queda é esperada e pequena, mas na estrada foi álcool aguado mesmo.

Detesto abastecer na estrada, mas o posto era bonitinho, de marca, e bastou abastecer para o consumo despencar de quase 11 km/litro para 9,5 km/litro. Claro que o motor perdeu parte do brilho em retomadas e o vapor que saía do escapamento no primeiro funcionamento do dia seguinte confirmava a safadeza de colocar água no combustível.

O cambio Aisin permite três tipos de pilotagem: normal, Eco e Sport. Quase sempre optei pela posição “ecológica”

Como dica conto meu ritual quando vou ao Rio. Encho o tanque em um dos últimos postos no Estado de São Paulo e só volto a abastecer quando cruzo a divisa na volta. No Rio, além do combustível ser bem mais caro (devido aos impostos, dizem os cariocas) a diferença de preço entre gasolina e álcool não favorece o combustível vegetal.

Mesmo sendo um hatchzão com teto e frente altas, o Cactus gosta de curvas, sendo confortável em longas viagens e, o ponto alto, faz rápidas ultrapassagens graças ao turbo. Mesmo com o câmbio automático em Eco, basta pisar forte no acelerador que vem duas marchas para baixo, a frente levanta (sem passarinhar) e turbo fala alto. Além de ser uma manobra gostosa, se torna muito segura pela rapidez da aceleração.

Motor 1.6 THP turbo certamente é um pontos alto do Cactus. Permite desempenho ou economia, ao gosto do freguês

As marchas podem ser trocadas manualmente pela alavanca de câmbio, mas não existem as borboletas no volante (paddle shifters). Pessoalmente não faço questão dessa troca manual, já que o casamento eletrônico entre motor e câmbio está muito bem feito, sendo possível “chamar” a marcha desejada pelo próprio acelerador.

Existem todos os mimos eletrônicos que trazem mais segurança e status para um veículo desta categoria, inclusive um botão para melhor adequação da tração ao tipo de solo que se trafega. Confesso que não cheguei a usar nenhum destes recursos, nem mesmo o ABS. Mesmo trafegando com chuva intensa, o controle de tração também não chegou a atuar, já que os pneus Pirelli  P7 205/55R17V  escoam bem a água, sendo fácil manter a velocidade um pouco abaixo do limite de aquaplanagem. O único destes recursos eletrônicos que chegava a atuar era o assistente de partida em rampas, que mantém o freio por alguns segundos até que se pise no acelerador. Também não é indispensável, já que em carros automáticos é fácil manter o pé esquerdo no freio e deixar o direito livre para acelerar.

O “alerta de faixas” é bastante chatinho com seus apitos e nem sempre se dá seta para uma ultrapassagem, por exemplo, principalmente quando não existe nenhum outro carro na traseira (quando se liga a seta, o alerta é desativado). Já o “alerta de colisão” entrou em ação várias vezes, sobretudo no trânsito urbano, onde se dirige mais próximo do veículo da frente. Mas, em nenhum momento o Cactus freou por conta própria usando a eletrônica.

Mas a presença destes recursos de segurança são tranquilizadores para muitos motoristas e também existem razões mercadológicas para a existência destes equipamentos.

Tela central de 7 polegadas exibe a necessária imagem da câmera de ré. Há pouca visibilidade traseira

Chamei de hatchzão pois na Europa o Cactus é realmente um hatch compacto, com seus 4.170 mm de comprimento. Para o mercado brasileiro, além de ganhar nova suspensão e maior altura do solo (225 mm), vieram também os racks de teto para este hatch/crossover ganhar ares de suve, o modelo queridinho atualmente. Em todo o projeto desta segunda geração (a primeira não chegou ao Brasil), a engenharia brasileira atuou ativamente.

Mesmo mais alto por aqui, manteve boa estabilidade e agilidade direcional. Ou seja, mesmo com ares de suve, sua dirigibilidade está mais para a de um carro.

Quanto ao conforto e ergonomia, uma puxada de quase 800 km vindo do Rio para o interior de São Paulo demonstrou que posição para dirigir, silêncio a bordo e conforto dos bancos são exemplares.

O “senão” fica para o estofamento preto (só há esta opção), que até “esconde” as boas dimensões internas devido a sensação um pouco “claustrofóbica” da cor escura. A opção de forração mais clara (creme ou marrom avermelhado) seria bem-vinda para muitos consumidores.

Porta-malas permite boa acomodação de bagagens, mas a “parede” traseira atrapalha colocar a carga

Mesmo o porta-malas aparentemente não muito amplo (320 litros) se mostrou bastante adequado, principalmente por ser bastante fundo (789 mm). O que atrapalha é a “parede” acima do para-choque, que obriga a levantar mais os volumes para a acomodação. Um assoalho plano até o para-choque seria mais confortável. Além disso, como quase todo crossover/suve, a visão traseira é complicada pelo tamanho e altura do vidro. Não se vê uma moto estacionada atrás, por exemplo. Neste caso, a câmera de ré presente em quase todos os modelos, com imagem na tela central de 7’, ajuda e muito.

Faróis principais com lâmpadas halógenas poderiam ter melhor luminosidade

Nas viagens noturnas, os faróis se mostraram apenas adequados. Com refletores simples e tradicionais lâmpadas halógenas, a luminosidade deixa a desejar, principalmente em asfalto muito escuro. Com os faróis auxiliares de neblina a situação melhora, mas sempre é um incômodo para quem vem no sentido contrário. O Cactus merecia faróis mais eficientes, com duplo refletor ou pelo menos lâmpadas mais atuais, de xenônio ou LED.

Outra ausência sentida pelos passageiros mais velhos ou mais “fofos” foi a falta de alças de apoio para entrar e sair do Cactus. Segundo a engenharia da Citroën, esta ausência não se deve a economia de custos, mas a requisitos de segurança: por serem salientes e rígidas, acabam tirando pontos em testes de impacto (crash tests).

Foto clássica do Bob: eu atrás de mim mesmo. Bom espaço para quem vai no banco traseiro

Rodar com um carro recém-lançado é sempre pedir para virar atração nas ruas. Chovem perguntas e comentários. De modo geral, sua estética agrada, principalmente as mulheres, que o acham “liinnndo”. Os homens também gostam e não faltam analises mais “técnicas”: alguns veem alguma semelhança com o MINI (“parece um Minizão”, talvez pelo teto claro contrastando com o restante da carroceria) e não faltou quem achasse sua frente alta parecida com o dao Fiat Toro. Isto dito em tom de elogio.

Poucos se surpreenderam com seu preço, já que está na média entre os suves mais compactos e luxuosos. Muitos, principalmente quem já tem um carro dessa categoria, confessaram que o Cactus estaria na lista do seu próximo carro. E alguns, mais sinceros, só lamentavam que “pena que é um Citroën”.

Exatamente aí que mora o perigo. O fabricante de origem francesa tem em mãos um ótimo produto, provavelmente o melhor Citroën já feito no Brasil, mas existe uma grande restrição com a marca, revendedores e desvalorização na hora de revender.

Outra clássica: tudo aberto na Estrada dos Romeiros, um dos muitos destinos do Cactus em 14 dias

Todo um plano foi elaborado pelo fabricante para “seduzir” o proprietário do novo Cactus, principalmente durante os três anos de garantia. Serviços gratuitos, revisões mais ágeis e baratas, seguro mais acessível… são dezenas de medidas que pretendem mudar o relacionamento com o cliente. Se tudo der certo, o Cactus poderá até atingir suas metas de vendas, de cerca de 2.000 unidades/mês a partir do próximo ano.

JS

 

FICHA TÉCNICA CITROËN C4 CACTUS 1.6 THP SHINE PACK AUTO 2019
MOTOR
Denominação 1,6 Turbo THP flex
Descrição 4 cil. em linha, transveral, bloco e cabeçote de alumínio, duplo comando de válvulas, corrente, variador de fase na admissão e escapamento, 4 válvulas por cilindro, atuação indireta por alavanca-dedo roletada com fulcrum hidráulico, turbocompressor de dupla voluta com interresfriador, injeção direta
Diâmetro e curso (mm) 77 x 85,8
Cilindrada (cm³) 1.598
Taxa de compressão (:1) 10,2
Potência (cv/rpm, G/A) 166/173/6.000
Torque (m·kgf/rpm, G//A) 24.5/24,5/1.400
TRANSMISSÃO
Câmbio Transeixo automático epicíclico Aisin EAT6 de 6 marchas com trocas manuais sequenciais + ré, tração dianteira
Relações das marchas (:1) 1ª 4,044; 2ª 2,371; 3ª 1,556; 4ª 1,159; 5ª 0,852; 6ª 0,672; ré 2,193
Relação do diferencial (:1) 3,683
SUSPENSÃO
Dianteira Independente, McPherson, braço transversal, mola helicoidal, amortecedor pressurizado e barra estabilizadora
Traseira Eixo de torção, mola helicoidal, amortecedor pressurizado e barra estabilizadora integrada ao eixo
DIREÇÃO
Tipo Pinhão e cremalheira, eletroassistida indexada à velocidade
Diâmetro mín. de curva (m) n.d.
Voltas entre batentes n.d
FREIOS
Dianteiros (Ø mm) Disco ventilado/n.d.
Traseiros (Ø mm) Disco/n.d.
Controle ABS (obrigatório), distribuição eletrônica das forças de frenagem, auxílio à frenagem
Circuito hidráulico Duplo em diagonal
RODAS E PNEUS
Rodas Liga de alumínio 6j x17 diamantada
Pneus 205/55R17V (Pirelli Cinturato P7 ou Goodyear Efficient Grip)
Estepe Temporário de 80 km/h, roda de aço, pneu 185/60R15H
CONSTRUÇÃO
Tipo Monobloco em aço, suve, 4-portas, 5 lugares, subchassi dianteiro
AERODINÂMICA
Coeficiente de arrasto (Cx) n.d.
Área frontal (calculada, m²) 2.143
Área frontal corrigida (m²) n.d.
DIMENSÕES (mm)
Comprimento 4.170
Largura (sem/com espelhos) 1.714/1.979
Altura 1.563
Distância entre eixos 2.600
Distância mínima do solo 225
CAPACIDADES (L)
Porta-malas 320 (1.170 com encostos do banco traseiro 40:60 rebatidos
Tanque de combustível 55
PESO (kg)
Em ordem de marcha 1.214
Carga útil 350
DESEMPENHO
Aceleração 0-100 km/h (s, G/A) 7,5/7,3
Velocidade máxima (km/h, G/A) 212/212
CONSUMO INMETRO/PBVE
Cidade (km/l, G/A) n.d
Estrada (km/l, G/A) n.d.
CÁLCULOS DE CÂMBIO
v/1000 em última marcha, 6ª (km/h) 48,3
rpm a 120 km/h em 6ª 2.500
rpm à vel. máxima em 5ª 5.600

 

EQUIPAMENTOS CITROËN C4 CACTUS 1,6 THP SHINE PACK AUTO 2019
AUXÍLIO À CONDUÇÃO
Acesso mãos livres e partida por botão
Alerta de atenção do motorista
Alerta de colisão
Alerta de saída de faixa de rolamento
Assistente de partida em aclives
Câmera de ré
Controlador e limitador de velocidade
Controle de aderência (grip control)
Indicador de sugestão de parada para café
Luz de curva pelos faróis de neblina
Monitor de pressão dos pneus
Sistema de frenagem automática
SEGURANÇA
Acionamento dos pisca-alertas traseiros em freadas de emergência
Alarme perimétrico
Alarme volumétrico
Alerta de cinto de segurança do motorista desatado
Apoios de cabeça dianteiros e traseiros com ajuste
Bolsas infláveis frontais (obrigatórias), laterais e de cortina
Cintos de segurança dianteiros e traseiros com limitador de esforço
Controle de estabilidade e tração
Engates Isofix com fixação superior para dois bancos infantis
Faróis de neblina
Faróis halógenos
Lanternas traseiras com efeito 3D
Luzes de rodagem diurna (DRL) em LED
Retrovisor interno eletrocrômico
Retrovisores externos com ajuste elétrico
Travamento automático de portas e porta-malas ao iniciar movimento
CONFORTO
Acendimento automático dos faróis
Acionamento elétrico dos vidros, todos um-toque
Ar-condicionado digital automático com função A/C Máx.
Computador de bordo com função termômetro do ar externo
Econômetro
Sensor de chuva
Tomada 12 V
Volante de direção com ajuste de altura e distância
ÁUDIO E MULTIMÍDIA
Alto-falantes (4) e tweeters (2)
Android Auto e Apple CarPlay
Bluetooth e entrada auxiliar USB
Citroën Connect Radio – central multimídia, tela tátil de 7 pol
Comandos no volante
BANCOS E REVESTIMENTOS
Bancos revestidos em couro tipo ZINA e outros materiais
Bancos traseiros rebatíveis 60:40
Porta-objetos entre os bancos dianteiros
Regulagem manual de altura, inclinação e distância dos bancos dianteiros
Volante revestido em couro
ACABAMENTO E ESTÉTICA
Acabamento interno do painel cinza, toque macio
Barras de teto longitudinais e integradas ao teto tipo “flutuante”
Carcaças dos retrovisores em preto brilhante
Maçanetas das portas com pintura brilhante
Protetores laterais de portas (Airbump®)
Quadro de instrumentos digital com indicação de velocidade digital
RODAS
Rodas de liga de alumínio 17 pol – tipo ROBY ONE diamantada com detalhes em preto brilhante
CORES
Branco Nacré, cinza Aluminium, cinza Grafito, preto Perla Nera, azul Esmeralda, teto bitom
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