Cheguei ao AE pela primeira vez no dia 30 de novembro de 2010. Me lembro exatamente do dia porque a matéria que me trouxe até aqui para mim é inesquecível: André Dantas falando da obsolescência dos componentes eletrônicos como ameaça à existência dos carros dos anos 80-90 a médio prazo. Fiquei encantado com a profundidade das informações contidas naquele texto: na minha solidão de autoentusiasta não imaginava existir mais alguém interessado em ler conteúdo detalhado. Estava afoito para terminar a leitura, mas ao mesmo tempo com pena de ler rápido e “desperdiçar” uma raridade como aquela: haveria outros textos assim naquele então desconhecido site-blog? Como fiquei surpreso ao rolar a tela e encontrar outras preciosidades no mesmo nível, sob vários assuntos ligados a estas obras de artes chamadas veículos automotores!

Tudo isso era muito para um jovem de 28 anos recém-formado que começava sua história motorizada há pouco. Até então amargava uma solidão imensa no assunto. Em 2010 carro já começara a ser imoral, pecado, assassino de ursos polares. O assunto não interessava nenhum colega com profundidade. Meu primeiro carro, um Marea 2,4-L ano 2002 (não é o da foto, um Linea T-Jet que comprei em 2013) adquirido com os meus primeiros salários dois anos antes era motivo de espanto a qualquer conhecido. Ninguém entendia por que comprar aquilo se podia comprar um 1,0 novo. E não adianta mencionar cinco cilindros para quem nem mesmo o que era um cilindro. Falar em ronco de motor, subchassi ou curva de potência devia soar como aramaico nos ouvidos dos não iniciados e não interessados.

Rolando a página — nos tempos de blog era o único recurso disponível além da busca — me deparei com outros assuntos tão interessantes quanto, e tratados com o mesmo aprofundamento técnico. Isso sim, acho que só se encontra aqui: a prosa flui com uma mistura de arte e técnica que os torna fluidos e poéticos como um artigo científico para engenheiros jamais seria, ao mesmo tempo sem a frugalidade e superficialidade dos textos não técnicos. Mas cada editor tem sua medida, tanto que não me é difícil saber quem escreveu determinada avaliação ou postagem quando me escapa o autor ao iniciar a leitura.

Com os frequentes comentários e resposta nos sentimos cada vez mais “de casa” aqui. Certa vez uma sugestão minha rendeu um texto do Bob descrevendo uma volta inteira no circuito antigo de Interlagos! Sempre gostei de escrever, e após uma viagem em 2011 em que conheci algumas joias sobre rodas de uma importante coleção resolvi escrever eu mesmo um texto e enviar ao Bob Sharp. Ainda não havia espaço para texto dos leitores no blog, mas a partir daí começamos a conversar sobre a possibilidade de um espaço aos leitores, o que acabou acontecendo. Alguns anos depois esse texto acabou sendo minha primeira e humilde contribuição e um dos primeiros textos de leitores publicados.

Outras histórias vieram depois: meu primeiro contato com as motos, a descoberta de uma estrada sensacional bem perto de minha Belo Horizonte, que se tornou a minha Estrada dos Romeiros, minha relação com meu carro e moto, histórias que já contei aqui. Certamente muitas outras virão em breve. Não podia deixar de mencionar o texto sobre a perda de minha avó, que compartilhei com Bob apenas por amizade e que foi publicado aqui, uma homenagem das mais honrosas.

Trabalhando no sul de MG, em Perdões, minha cidade natal, tenho o privilégio de poder degustar 200 quilômetros, ida e volta, chegando sempre com as energias renovadas. MAO, certamente o maior poeta do AE, certa vez ensinou como é um privilégio ter um motivo para pegar estrada. Quando estou cansado me lembro que seria muito pior ser do grupo dos imóveis, ou pior ainda, amarrado a uma cadeira de um ônibus qualquer, renunciando o protagonismo da viagem em troca de alguns cochilos mal-acomodados entre um sacolejar e outro.

Arnaldo me ensinou a domar os carros: ter a finesse de entender o que aquele conjunto tem a oferecer e a partir daí saber extrair aquilo que tem de melhor, como se faz em um cavalo. Assim fica fácil dirigir o que aparecer e perder uns bons minutos aprendendo as minúcias de cada conjunto mecânico: limitações se tornam peculiaridades e abrem um leque de possibilidades para contorná-las.

Com as nossas maltratadas vias públicas, o mesmo: lombadas se tornam área de treinamento de punta-tacco, buracos e ondulações são verdadeiras pistas de teste para freios, suspensões e comportamento dinâmico. Impossível ser feliz dirigindo por aqui sem fazer o jogo do contente. A busca pelo icônico e intangível “dirigir macio” me motiva.

Com o que aprendi aqui fiz escolhas na manutenção e na troca de meu primeiro carro, me iniciei no mundo das motos. Sabendo da minha condição humanamente limitada sei que me torno um motorista menos imperfeito todos os dias. Afinal de contas só não aprende aquele que acha que sabe de tudo. Graças a essas páginas carros e motos se tornaram instrumento de prazer, deixando de ser um meio para ser um fim por si só.

Obrigado a todos vocês!

Marcos Alvarenga
Belo Horizonte – MG

 

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