Como havia comentado na minha matéria sobre os dez anos do AUTOentusiastas, visitei mais um lugar que planejava há muito tempo, e trago agora um pouco para nossos amigos e leitores.

Trata-se do  National Corvette Museum, localizado em Bowling Green, estado do Kentucky, Estados Unidos. É a mesma cidade onde o Corvette é fabricado desde 1981. O curioso dessa cidade é que há outra Bowling Green em Ohio, a menos de uma hora de Detroit. Pela minha lógica, seria mais óbvio que a fábrica da GM que produz o Corvette e o museu fossem nessa cidade, portanto, é preciso estar atento antes de planejar a visita.

O museu foi inaugurado em 1994 e fica bem perto da fábrica, e a cerca de 770 quilômetros de Detroit. Na imagem abaixo é possível ver a proximidade de ambos, e na hora de comprar o ingresso há um pacote que inclui uma visita à fábrica, mas que não está acontecendo atualmente. Deve voltar a ser oferecido  apenas em 2019, após a apresentação do novo Corvette que terá motor central-traseiro. Como a fase de implementação do novo carro na fábrica já deve ser a de corrida-piloto, não se poderia permitir que visitantes vissem o carro antes da apresentação.

Na direita a fábrica do Corvette, e abaixo, à esquerda, o museu (Google)

Será a maior mudança de arquitetura do Corvette em toda sua história, provocada também por um outro Chevrolet. A GM evoluiu demais o Camaro, e o desempenho desse nas versões mais potentes é muito próximo do Corvette. O resultado é que o time desse último está trabalhando na resposta, numa saudável competição interna que fará muitos autoentusiastas satisfeitos.

Além disso, Zora Arkus-Duntov, personagem importante da história do Corvette, sempre quis que o carro tivesse a configuração mais comum para os supercarros,  motor central-traseiro,  mas não viveu para ver seu sonho realizado. O projeto do Corvette C8 é batizado informalmente de Zora justamente por isso, mas fontes da mídia americana dizem que o nome oficial é outro, talvez Emperor (Imperador). Os primeiros anos do Corvette foram suaves, com o motor de seis cilindros em linha de 235 pol³ (3,9 litros), 150 hp (potência SAE bruta) e câmbio automático Powerglide, de duas marchas, que o faziam apenas andar um pouco melhor que modelos de uso normal por ser mais leve. Duntov foi o maestro da transformação para um carro verdadeiramente esportivo.

Mas vamos ao museu. De cara, na entrada uma área de entrega de carros novos. O comprador do Corvette pode pedir o opcional de retirar o carro novo no museu, com vários graus de adições, como certificados, placas, fotos, visita exclusiva à fábrica, e até o adicional de ajudar a montar o motor de seu carro, devidamente identificado pelo número, para que não haja dúvida que se colocou a mão em um motor que não fosse o seu.

Um fato curioso é o emblema do carro, que tem duas bandeiras cruzadas. Inicialmente, estas eram a quadriculada, simbolizando vitória, e a bandeira dos Estados Unidos. Assim estava feito o emblema no carro apresentado em 1953, na exposição Motorama. Mas um dia antes da abertura da exposição um advogado da GM notou que era proibido utilizar a bandeira americana em um produto comercial. Rapidamente modificou-se o Design em Warren, Michigan, trocando a bandeira americana por uma flor-de-lis, símbolo que aparece no brasão da família Chevrolet e o bow-tie, a gravata-borboleta, o logotipo Chevrolet. Hoje em dia a bandeira nacional pode e é usada em inúmeros produtos, mas o carro mantêm seu emblema como na origem, apenas sendo modernizado com o passar do tempo.

Emblema original do Corvette teve que ser alterado

A partir da entrada, vamos vendo vários carros de todos os anos, alguns de donos que decidiram doar seus carros para que eles fossem expostos, outros com alterações com uma história por trás, e ainda exemplares de personalidades de importância na história do modelo. Nessa última categoria, o carro com pintura em dois tons de azul que pertenceu a Zora Arkus-Duntov, o único que ele comprou, logo depois de se aposentar da GM. O carro está praticamente perfeito, e tem valor incalculável.

Alguns carros conceituais estão lá, um dos mais interessantes e na linha do Corvette com motor central que vem chegando é o Corvette Indy, apresentado em 1986. Foi o primeiro trabalho em conjunto com a Lotus, que foi entre 1986 e 1993 parte do grupo General Motors. Tem suspensão ativa, direção e tração nas quatro rodas, freios antibloqueio e vários sistemas eletrônicos que viriam a se tornar padrão depois de alguns anos, como o controle de tração. Outro mais antigo, o Astro-Vette, é de 1968, e tem as rodas traseiras cobertas e para-brisa bem baixo, não tendo teto. O interior é normal de produção do carro de 1968, o primeiro ano do Stingray, mas o volante é diferente.

Um dos modelos doados por entusiastas mais interessante é o 1963 com alterações de carroceria e atualizações mecânicas. O carro de Dick Coup tem inspiração no Gran Sport de corrida, que ele viu pela primeira vez em uma prova em Sebring, na Flórida, e decidiu fazer um para si. É mais um caso daqueles em que a pessoa se contenta com uma réplica, ao invés de procurar adquirir algo caro e impossível.  Uma ótima solução. Com mudanças para melhorar o fluxo de ar, motor e câmbio de seis marchas comprados novos em 1996, demorou oito anos para ser terminado de acordo com o gosto do dono. Esse é o carro da foto de abertura, e também abaixo.

Há também um mural contando a história dos Corvettes serem escolhidos como carros pessoais por vários astronautas, como contei nesse texto, sempre um assunto interessante.

Há também áreas dedicadas às associações e clubes em torno do carro, já que elas também ajudaram a arrecadar fundos para a construção do museu. Logo na entrada podem ser vistos os nomes de várias pessoas e empresas que fizeram doações para o museu. Há uma montagem fotográfica incrível, onde a imagem de um modelo 1953 é formada por centenas de fotos pequenas de carros, detalhes e seus donos e entusiastas, em diversas situações. Veja a galeria a seguir.

Uma das raridades presentes é o Guldstrand GS-90, uma extensa modificação de estilo e mecânica feita sobre um ZR-1 da geração C4. Tem cerca de 70 cv a mais que o ZR-1 original, e custava o dobro deste, quase 135 mil dólares. Por isso, dos planejados 100 a 150 exemplares, apenas seis foram vendidos.

Para quem gosta de carros de corrida, o museu é um bom lugar. Há até mesmo alguns carros com que competiu Louis Chevrolet, para dar um pouco mais de variedade ao acervo. Um Greenwood que correu em Le Mans chama muita atenção, com suas alterações no mínimo escandalosas. Maravilhoso é pouco. A empresa formada pelos irmãos Greenwood, John e Burt, modificava Corvettes para uso civil, tendo feito até algumas peruas, e resolveu nos anos 1970 correr em provas de longa duração, como Daytona, Sebring e Le Mans. O carro exposto foi um dos que correu na prova francesa em 1976, mas não terminou pois teve problemas no tanque de gasolina.  John Greenwood foi um dos pilotos.

Greenwood tem extensas alterações aerodinâmicas

Uma área onde um fato inusitado ocorreu é o átrio, ou nave central, do edifício. Alguns vão se lembrar das imagens das câmeras de segurança do museu, que , na madrugada de 12 de fevereiro de 2014 mostraram o piso afundando e levando com ele vários carros. O desabamento do solo sobre uma caverna que foi sendo aberta com o tempo é chamado de sinkhole em inglês, e se trata de uma erosão natural que ocorre também no leito dos oceanos. Hoje está tudo reconstruído, com grandes reforços instalados, e alguns carros que não puderam ser restaurados, expostos da forma que foram retirados do enorme buraco. Um tipo de exposição inédita, e que provoca um nó na garganta dos entusiastas do Corvette.

Assista o vídeo do colapso do solo:

Outro item curioso do acervo é o ZR-1 que, em 7 de junho de 2011 quebrou o recorde de volta em Nürburgring para carros de produção. Pilotado por um engenheiro da General Motors, Jim Mero, fechou o trajeto em 7 min 19 seg 63 centésimos, batendo o tempo do Nissan GT-R, Ferrari Enzo e Maserati MC-12, entre outros supercarros. Mas como todo recorde naquela pista, durou pouco.

Há muito para ver nesse museu, apesar de não ser muito grande. Cerca de três horas de visita é um tempo confortável para olhar com calma tudo que está exposto. E aprender mais sobre esse magnífico Chevrolet, um carro sem crises, sempre muito desejado.

Para finalizar, depois de retomar meu caminho na estrada, alcancei uma cegonha carregada de Corvettes zero-km, algo a que não se está acostumado. Muito legal mesmo.

Para o norte, para donos felizes

JJ

Galeria de fotos:

 

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