Quem me conhece sabe que não sou, assim, exatamente muda. Pelo contrário, reconheço que falo bastante — mas em minha defesa conto aqui que já melhorei. Procuro dizer coisas relevantes ou pelo menos divertidas e ouço muito. Também há anos parei de falar dormindo, o que é um alívio não apenas para minha cara-metade, mas para qualquer um que divida quarto comigo.

Provavelmente o pior momento das minhas conversas noturnas tenha sido quando era pequena. Na estreia do filme “O Exorcista”, de 1973, aquela versão deveras assustadora com a Linda Blair, minha mãe foi ao cinema na sessão da meia-noite com meus tios. Claro que agora penso que não tinha como dar certo: filme de suspense/terror, sessão da meia-noite… Mas, como naqueles produtos vendidos pela televisão: espere, tem mais, bla-bla-bla, ligue já. Quando ela chegou em casa fez como sempre, foi checar se as filhinhas dormiam e se estavam bem. Pois é. Nossas camas eram iguais às da Linda Blair no filme. Juro. Com as mesmas coluninhas e tudo. Fazia calor e eu estava meio suada, franjinha de cabelo grudada no rosto… igualzinho ao filme. Claro que minha mãe ficou meio assustada e foi para o quarto dela. Sem poder dormir, ainda lembrando do filme, começou a ler um livro. Não é que eu começo a falar dormindo? Imaginem o susto!

Bem, hoje só falo acordada e geralmente com outras pessoas. Jamais falei com plantas, embora adore cuidar delas. Sei lá, me sinto meio idiota fazendo isso e não vejo que elas fiquem menos viçosas pela falta de conversa. Vai ver que é o contrário, ficam enfastiadas com meu papo. Mas tem um lugar onde falo sozinha: no meu carro.

É incrível, mas faço isso. Geralmente reclamo de outro motorista ou de alguma manobra besta — mas também ralho comigo mesma quando erro um caminho, quando não acredito no Waze e fico parada no trânsito ou apenas quando passo reto pela rua onde deveria ter virado. Se tiver mais alguém no carro, então… Vixi! Comento quase cada manobra. Digo quase pois tenho me policiado para não ser chata, mas é mais forte do que eu. E caso alguém tenha curiosidade, geralmente falo em português — mas às vezes sai algum comentário em espanhol. Talvez pela fartura de palavrões e afins que existem naquele idioma… Mas como boa “oriunda” às vezes apelo para o imbatível italiano. Deve ser o melhor idioma para expressar surpresa e indignação. Certamente, o melhor idioma para interjeições. De longe.

Por isso o título que dei à coluna de hoje, que significa “Mas….o que está fazendo? Imbecil!”

Não sou eu, mas bem que poderia (Foto: carprousa.com)

Recentemente estive em Buenos Aires e percebi que uma das minhas primas, jornalista como eu, faz a mesma coisa. Será que é característica de jornalista argentina? Diria que não, mas vendo a Mariana dirigir parecia que eu estava olhando num espelho. Reclama, gesticula com ela mesma, comenta cada manobra… “Mas para que botar farol, não vê que estou ultrapassando?”, “Buzinar para quê? Não está vendo que estamos todos parados porque houve um acidente?”, “Tá com pressa? Então passa..” e por aí vai.

Ela, assim como eu, anda a maior parte do tempo com o vidro fechado e não se dirige aos outros motoristas. É mais como se fosse um desabafo. Eu faço a mesma coisa. Não espero que me respondam — só faltava isso! Aí sim seria diagnosticada como louca, mas por enquanto acho que passo se não com louvor, pelo menos com o mínimo. Acho que é apenas para externar uma insatisfação.

Minhas companhias mais frequentes no carro já sabem dessa mania que tenho. Alguns não dizem nada, resignados que estão, outros comentam e concordam comigo. Deve ter quem se incomode, mas até agora ninguém se manifestou nesse sentido. Como boa descendente de italianos, todos os comentários são acompanhados por gestos. Aliás, se me amarrarem as mãos ficarei muda. Se estou numa festa com um copo na mão e preciso falar, deixo o copo para usar as duas mãos. Parece que sou mais clara nas minhas explicações quando as acompanho com gestos. Obviamente no carro me policio para não tirar as mãos da direção, mas é uma luta constante. O instinto fala mais alto.

 Eu fico assim: “Mas como o sujeito faz uma coisa dessas?” (Foto: ayblaw.co.uk)

Acho engraçado quando vejo corridas, especialmente as de Fórmula 1 com suas câmeras dentro dos carros. Se pilotos profissionais gesticulam e falam no rádio reclamando de outros, por que eu, reles mortal e obviamente não profissional do volante, não posso me incomodar com as barbeiragens cometidas pelos que me circundam? Na Stock Car, onde também tem câmeras nos cockpits, é mais difícil ver gesticulações, mas são frequentes os comentários no rádio. Claro que muitos pilotos falam apenas para que fique registrado algo em especial e que um concorrente seja punido, eventualmente. Mas acredito que ainda que não houvesse rádio eles falariam assim mesmo. Sei lá, talvez eu queira achar meu comportamento normal e por isso acho que outros fariam o mesmo que eu. Acho que gosto de me iludir me achando normal…

Mudando de assunto: estive semana retrasada alguns dias em Campinas. Gosto muito de lá e especialmente dos meus amigos que me receberam na casa deles, mas… vixi! como tem radares naquela cidade. É uma verdadeira tortura. Velocidades máximas muitas vezes incompatíveis com a via (lentas demais) e uma profusão de câmeras e radares. Ainda assim, em várias avenidas as velocidades permitidas são superiores às de vias semelhantes em São Paulo.

NG

A coluna “Visão feminina” é de exclusiva responsabilidade da sua autora.
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