Pequeno, com capa pouco atraente, e apenas 84 páginas, é quase por milagre que se encontre esse livro numa prateleira de livraria. Ao folheá-lo, aquele prazer maravilhoso de ter encontrado algo diferente, não pelo título, mas pelo conteúdo.

Larry M. Galloway é formado em Matemática e Industrial Arts, um curso equivalente aos ministrados nos Liceus de Artes e Ofícios em nosso país, ou abrindo mais a explicação, um curso técnico de mecânica, algo que sempre será básico para que se entenda como funciona qualquer mecanismo.

Depois de lecionar algum tempo em faculdades, o autor foi trabalhar na General Motors, na fábrica de St. Louis, estado do Missouri, onde o Corvette era fabricado. Sua função inicial era na área de qualidade da fábrica, e isso o fez conhecer em detalhes toda a fabricação e o projeto desse carro. E é exatamente aí que mora a diferença desse livro. Não se trata de falar do carro, mas sim como o carro era feito, onde estavam os problemas, de onde eles surgiam, o que era problema de projeto ou de fabricação — seja de ferramental e moldes — ou vinha defeituoso de algum fornecedor.

(goodreads.com)

E Galloway mostra com algumas poucas fotos e desenhos aquilo que todo mundo que gosta de carros, sejam novos ou antigos, já percebeu. Há partes de carroceria que simplesmente não concordam umas com as outras, notado principalmente nas portas e tampas. O Corvette não era melhor nisso que a maioria dos carros da época, agravado pelo fato de ter as partes visíveis da carroceria feita em compósito de fibra de vidro. É impossível saber hoje, com certeza total, se havia alguma marca que produzia carros de forma industrial que tivesse uma boa qualidade de execução de superfícies das suas partes, e a concordância delas de maneira a não parecer tortas. O Corvette era um, com vários desalinhamentos.

Os pontos principais mostrados são as junções da curvatura superior das portas e do teto, as entradas de água no conversível e nos vidros traseiros do cupê, principalmente do mais valioso deles, o 1963, as vibrações do cardã e o mecanismo de abertura dos faróis.

O problema do teto está bem explicado no livro. O molde que formava o teto foi feito errado. A superfície que deveria ser a externa do teto do carro foi fabricada no lado do molde que formava a superfície da parte interna, resultando num erro de medida de 1 décimo de polegada (2,54 mm). O teto era mais baixo em 2,54 mm do que deveria ser. Quando isso foi descoberto, depois de mais de um ano de produção, era tarde e caro demais para ser corrigido, e se conviveu com o problema até o fim da vida dessa carroceria que foi de 1963 a 1967.

Para ficar mais complicado, uma boa parte da produção de carrocerias foi contratada da DowSmith, e o restante era feito dentro da GM. As brigas resultantes das comparações entre uma e outra estão brevemente descritas no livro, com algumas boas anedotas típicas de fábricas de carros.

Devido ao conhecimento acumulado em mais de  quatro anos nessa atividade e também como engenheiro de qualidade de fornecedor — função que visa garantir que os componentes comprados estejam de acordo com o projeto —  Galloway há vários anos é membro da NCRS (National Corvette Restorers Society, Sociedade Nacional dos Restauradores de Corvette), organização americana que visa, entre outros, divulgar informações e ajudar pessoas a não cometerem erros quando estão reformando qualquer Corvette.

Fica bem evidente que, antes de tudo, as pessoas são o maior valor de qualquer empresa, pois não importa quanto se gaste em equipamentos, se não se entende perfeitamente o que as máquinas fazem, como fazem e onde podem acontecer erros.

Também a relação dos funcionários com o Corvette é abordada, mostrando que havia um grande orgulho da maioria em produzir aquele que por muito tempo foi considerado o único carro esporte americano. Mesmo assim, conflitos e problemas causados por sabotagem de funcionários descontentes aconteciam, mas nesse ponto Galloway não entra em detalhes, visto que muitas dessas pessoas que podem ter criado problemas ainda estão vivas.

O assunto é vasto, e pelo livro ser bem pequeno, nota-se facilmente que deveria ter havido mais tempo dedicado a ampliar a obra. Quem gosta desse tipo de história e é ávido por detalhes fica um pouco decepcionado, mas de qualquer forma é um livro fora dos padrões de adoração incondicional a carros de outra época que, comparados aos atuais, são quase em sua totalidade nitidamente inferiores em qualquer aspecto técnico ou qualitativo. Não estou querendo dizer que um Duesenberg – apenas um exemplo – não tenha qualidade a olhos de hoje, mas o preço dele era fora dos padrões de carros construídos em grandes indústrias.

O livro pode ser encontrado na Amazon, apenas em inglês, tanto em formato digital quanto com capa brochura e capa dura, mas recomendo uma visita ao site do autor, que tem mais informações interessantes, e alguns vídeos sobre o Corvette, além de um em que Larry Galloway  faz uma apresentação sobre sua experiência na fábrica, explanando sobre vários detalhes do carro.

https://www.cartipsandbits.com/

JJ

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