Na teoria, meu inferno astral deveria ter sido em abril, pois faço aniversário em maio. Mas por uma série de fatalidades parece que este ano foi em agosto. Quero me desculpar com meus caríssimos leitores por não ter escrito minha coluna na semana retrasada, mas resumo aqui os acontecimentos que me impediram de fazê-lo.

Era para ser uma viagem de presente de aniversário para minha mãe. Em vez da clássica passagem para Buenos Aires de todos os anos, neste quis levá-la ao Uruguai, onde costumávamos ir na minha infância, na época em que meus pais tinham um barco e cruzávamos com muita frequência o rio da Prata. A segunda parte seria, claro, a estadia em Buenos Aires para rever a família e os amigos. Mas íamos juntas e só nós duas.

A ideia foi ótima e atualmente acho que foi uma das melhores coisas que fiz em toda minha vida. Minha mãe e eu dividimos quartos de hotel, passeamos por Montevidéu, fomos passar um dia em Punta del Este (na verdade, até José Ignacio) com muitíssimas e lindas paradas pelo caminho para ir à Piriápolis que tanto íamos, Atlántida — enfim, relembrar roteiros da minha infância. Fizemos uma visita a uma maravilhosa vinícola onde minha mãe, química, fez um zilhão de perguntas e curtiu muitíssimo o dia. E, obviamente, dois dias em Colonia del Sacramento para ver o magnífico pôr-do-sol daquela linda cidade. Tudo regado com ótimos vinhos e excelente comida. Depois a travessia para Buenos Aires no charmoso Buquebús.

Apenas um par de dias antes de embarcar meu sobrinho me telefona para avisar que minha irmã havia infartado. Glup! Como assim? Ela é um ano mais nova do que eu! Minha decisão foi não contar nada à minha mãe, pois não adiantaria ela se preocupar já que minha irmã estava no hospital e havia recebido dois stents, mas passava bem e em poucos dias nós chegaríamos lá. Contei somente quando chegamos a Buenos Aires e fomos ao hospital para uma visita. Minha irmã passava bem e o encontro foi ótimo. Ela teria de colocar mais dois stents, mas novamente optei por não contar à minha mãe. Por sorte, a nova cirurgia também correu bem e minha mãe nunca soube da nova angioplastia.

Toda a viagem foi linda. Passear pelos lugares onde minha mãe não ia há décadas, poder rever a família e alguns dos amigos foi tudo muito, muito bom. Hoje me parece que era uma despedida com hora marcada. Minha mãe infartou no avião, em algum momento no final da viagem. Saiu do avião numa ambulância mas no hospital ela recuperou a consciência. Ainda sem saber o que tinha acontecido exatamente, conversamos e ela reclamou que queria ir para a casa dela. Assim que estabilizou, levei-a para um hospital particular do convênio dela, onde morreu três dias depois. Foi-se (a ênclise da semana) como viveu: lúcida até último momento, sem dar nenhum trabalho e, para meu consolo, sem dor.

Boas ciclovias em Montevidéu, porém com pouco uso

Como eu me sentia muito mal de saúde acabei indo ao pronto-socorro para descobrir que estava com pneumonia. Nunca havia tido e agora sei como é penoso e quanto demora para sarar. Em fim, agora é juntar os cacos, pois minha mãe faz muita falta.

Mas vamos ao que ia contar desde o início. Fazia uns três anos que não ia ao Uruguai e me surpreendi com a quantidade de moradores de rua — aumentou muitíssimo. Usei muito Uber, já que a capital toda é wi-fi e funciona superbem. Para minha felicidade, faixa de pedestres é muito respeitada lá. Os carros param mesmo e ninguém fica acelerando e forçando o pedestre a correr.

A qualidade do asfalto também merece elogios. Sim, alguém dirá que é um país pequeno, com pouco volume de carros e mesmo de caminhões para estragar as ruas ou estradas, mas lembro que justamente por isso é um país com poucos recursos financeiros. No dia que fomos a Punta del Este fizemos parte pela costa e parte por estrada “no interior”, um total de 500 quilômetros. Adorei ver as estradas com curvas ligeiramente peraltadas (e para o lado certo!) e em boas condições. A exceção foram alguns trechos pelo litoral, onde havia partes totalmente cobertas pela areia e muitos buracos – mas me disseram que os próprios habitantes não querem que sejam feitos os consertos pois isso atrairia mais gente e o que os moradores (regulares ou esporádicos) mais prezam é a privacidade.

Curvas de estrada sempre com superelevação (peralte em espanhol)

Também chama a atenção o respeito às normas de trânsito no geral. Seta nas conversões é praxe assim como transitar pela direita na estrada, deixando a pista da esquerda para quem vem mais rápido. Sei que deveria ser o normal, mas confesso que me emociono quando vejo motoristas civilizados.

De acordo com as observações empíricas realizadas pelo DataNora, motoristas de Uber pareceram mais respeitosos das regras de trânsito do que motoristas de táxi. Minha teoria é que como os motoristas recebem avaliação dos clientes eles se esmeram mais por seguir a legislação. Como disse, é totalmente pessoal esta impressão assim como as razões para isto.

Gosto também da sinalização de ruas em Montevidéu. Simples, completa e ainda inclui um merchandising. Discreto, diga-se de passagem, e algo que não agride e sequer atrapalha as indicações, como vemos muitas vezes no Brasil. A placa tem o nome da rua, a numeração das esquinas, o sentido da rua e uma pequena propaganda — vi de pneus, restaurante, marca de erva-mate.

Sinalização com merchandising discreto não agride e nem prejudica a informação,e provê receita para a prefeitura

Encontrei algumas ciclovias também, embora bastante vazias (foto 4). A maioria opta por pedalar nas “ramblas”, aqueles lindos calçadões que beiram o rio da Prata e que são ponto de encontro dos uruguaios. Aliás, nada mais uruguaio do que sentar numa rambla e tomar um chimarrão conversando e olhando o rio. Também me chamou a atenção a gentileza dos ciclistas. Não vi nenhum correndo, cortando trânsito ou apertando pedestre. Sim, sei que a população do Uruguai é maiormente de adultos, em especial da terceira idade, mas ainda assim aqueles que pedalam tem paciência e respeito pelo pedestre, mas também pelo carro.

Semana que vem escrevo sobre Buenos Aires. Encontrei muita novidade em termos de trânsito e outras nem tanto — já conto aqui que vi dois Torinos e um (único) Falcon.

Mudando de assunto: infelizmente, andei de ambulância nestes últimos tempos. E constatei estarrecida como poucas pessoas dão passagem a um veículo em emergência. Dois motoqueiros inclusive chegaram a cortar a frente da ambulância, tentando aproveitar uma fresta de caminho que se abriu adiante, graças à boa vontade de alguns motoristas. Quase inacreditável.

NG

A coluna “Visão feminina” é de responsabilidade exclusiva de sua autora.
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