Voltando no tempo 2

No dia 2 de outubro de 1972, com 19 anos, recebi minha carteira de trabalho com o título de ilustrador técnico, um ótimo emprego em todos os sentidos. Era perto de casa, dava para ir a pé. Eu estava trabalhando com automóveis e desenho! Não podia ser melhor. Era um emprego para sempre, até me aposentar. Aliás, foi o que aconteceu com a maioria dos meus colegas ilustradores.

O trabalho era delicioso, pois além do desafio de cada desenho, eu tive a chance de conhecer as entranhas de um automóvel, cada peça, cada detalhe, tudo através de desenhos ortogonais que era muitas vezes nossa única referência. De novo, nenhuma escola é capacitada a este ponto.

Esta era o que chamamos, escola da vida. Outro lado que eu comecei a reparar era o lado político das coisas. A hierarquia, as decisões, a parte financeira os limites dos materiais e processos, mas, principalmente, a política.

Empresas desse porte são verdadeiras nações, com suas leis e normas, e cada indivíduo faz parte da estrutura decisória. Já deu para perceber os embates entre os supervisores para mostrar serviço para o chefe, intrigas e fofocas. Sim, ele, o SER HUMANO, um elemento muito importante na sua carreira.

O tempo todo você está exposto a pessoas, que não são obrigatoriamente da família ou amigos, mas seu colegas profissionais. Na “escolinha do Sr. Leandro”, como chamávamos o layout do estúdio, tinha também a turminha do fundão. Os mais atrevidos, e com uma visão mais avançada, com outras experiências que não a indústria automobilística versus os mais tradicionais, com ideias de se estabelecer na rotina de uma grande fabricante.

O mais terrorista de todos era o Walter Saiani, que acabou se tornando um artista de corpo e alma, já que a estrutura de uma grande empresa era castradora demais para ele.

Alguns já tinham ilustrados aviões para a Embraer, ou traziam novidades tecnológicas de outras empresas, fornecedoras ou não da indústria automobilística. Eu sempre tentei manter a postura de meu pai, que era muito benquisto dentro da GM e fora dela. Tratar todos com respeito e atenção, e tentar aprender com todos alguma coisa positiva e útil para todos. Esta postura, este comportamento, me ajudou muito. Ninguém gosta de gente arrogante.

Através do grupo do fundão veio a notícia que a Volkswagen estava formando um grupo de ilustração técnica. A princípio a ideia de deixar a GM para trabalhar com um concorrente parecia um pouco imoral. Mas pessoas que eu respeitava muito me convenceram que na vida profissional tudo é “business”, e que não devemos nos confundir com aspectos emocionais. Portanto, resolvi encarar a oportunidade e dar um salto no meu salário e aprender coisas novas.

Portanto, durei exatamente um ano na segunda vez que trabalhei na GM (a primeira tinha sido no Senai). Sai de lá numa boa, de bem com todos colegas e confesso que fiquei triste por abandonar o Sr. Leandro, que confiou em mim, mas o mundo dá muitas voltas, e eu não podia imaginar que um ano e meio mais tarde voltaria a trabalhar com ele.

Na Volkswagen, o chefe era o Vargas, um cara com personalidade muito forte. Minha posição no grupo foi indo mais para o lado de um layout man, ou seja, eu fazia os layouts de como deveria ser a imagem final através de desenhos à mão livre. Também trabalhei desenhando peças para a “crede’, mas com o tempo ficou claro que meu perfil era mais liberal, mas também de maior responsabilidade.

A vida ia indo bem, eu ainda morava com meus pais, mas aparecia bem pouco em casa. As festas eram intensas e contínuas, o dinheiro fluía, mas a rotina começou a me incomodar. Lá no fundo eu estava querendo liberdade. Estávamos na era do rock’n’roll, Woodstock, amor livre, drogas, e eu ali, desenhando peças de metal dentro de uma prisão, mesmo que sendo pago para isso.

A gota d’água, foi o encontro com algumas amigas da Vila Barcelona, irmãs, que acabavam de chegar da Inglaterra, e traziam com elas uma mochila fantástica, com estrutura de alumínio e corpo de nylon. Aquela mochila despertou um monstro dentro de mim que queria se libertar da vidinha cotidiana.

Pois comprei a mochila e no dia seguinte pedi a conta para o Vargas. Ele ficou chocado, mas eu lhe expliquei meus planos. Sair andando de mochila pelas praias do litoral norte e viver em uma barraca, junto com os pescadores. Vendi meu Fusca e depositei o dinheiro no banco para emergências. Peguei um pequena quantia para viajar.

Eu tinha uma mochila com algumas poucas mudas de roupas, panelas, uma barraca para duas pessoas, meu violão, faca, bujão de gás, enfim, o básico para viver na praia. Um amigo e a Nanci me levaram até a balsa de Bertioga e ali me deixaram para uma das maiores experiências de minha vida.

Eu e meu amigo Sergio, caminhando pela encosta de Ubatuba. Seis meses de vida de vagabundo me deu grandes lições de vida

Depois de viver seis meses como vagabundo amador, voltei para a área de Ilustração Técnica na GM. Como eu disse, o chefe Leandro me recebeu de braços abertos.

Em termos profissionais, a não ser pelo salário que aumentou, muito graças a terrível inflação no Brasil daquela época, não houve grandes evoluções em termos de novas técnicas ou evolução daquilo que eu já dominava.

Porém, na vida pessoal, eu estava cada vez mais desvairado, andando com uma turma da pesada, e viajando quase todo fim de semana para o litoral norte.

Também me tornei um bom discípulo de uma arte marcial japonesa, o Karatê, onde alcancei a faixa vermelha, mesmo tendo quebrado a mão no meu teste/exame. Parei alguns meses depois, já que depois do acidente perdi muito da minha agressividade e coragem, pois com a mão esquerda quebrada eu não podia tocar meu violão. Porém os dois anos de prática mudaram muito o meu corpo para melhor e ajudou muito a formar a saúde que eu tenho até hoje.

Se por um lado eu fosse muito disciplinado para a luta e o trabalho, por outro eu não tinha medo de nada e estava disposto a encarar qualquer desafio, o que quase me custou a vida em algumas passagens. Muita cachaça, drogas, orgias, e uma festa sem fim… era o rock’n’roll me influenciando.

Passei quase dois anos na GM e mais uma vez tive uma proposta irrecusável para voltar, pela segunda vez, à VW, que aceitei sem constrangimento.

Porém a profissão de ilustrador já não me encantava como no início e eu me sentia estacionado, e levando uma vida sem brilho.

Eu já namorava  a Nanci há um bom tempo, mas a vida de solteiro era muito excitante. Nos nos encontrávamos somente nos fins de semana para namorar.

Então, acorreu um acidente que mexeu muito comigo.Eu e um amigo tínhamos alugado uma casa no Riacho Grande onde corria uma festa sem fim. Muitas vezes eu chegava em casa e a festa de ontem ainda estava rolando.

Nos gostávamos de cronometrar quanto tempo a gente levava para ir até à vila, tomar uma cachaça e voltar para o covil, numa corrida insana por uma estradinha cheia de curvas e muito perigosa.

Eu tinha um Passat dourado, com rodas tipo BBS e interior de couro, volante de madeira, eu tinha um toca fitas TDK que era top naquela época. Pois numa dessa corridas malucas eu calculei mal uma curva fechada perto de casa, perdi o controle e destruí meu carro. Meu amigo Juca, machucou a mão, mas comigo não houve nenhum ferimento.

Aquilo me abalou. Tive um mau pressentimento.

Algumas semanas depois, o mesmo Juca perdeu a vida em um acidente com sua Honda 750, depois de ter saído de um jantar, regado a vinho. Aquilo me gelou. Fiquei muito chocado. Interrompi o fluxo de festas e me fechei em meditação, com pensamentos sombrios. Eu tinha que mudar, tinha que parar com aquela vida sem rumo.

Eu e meu SP2 na primeira casa que eu tive alugada, ainda solteiro, na represa Billings. Festas sem fim e um final trágico

A Nanci me deu uma força vital naquele momento, e eu senti o quanto ela era importante para mim, e resolvemos nos casar. Foi uma das melhores decisões da minha vida. Me concentrei em arquitetar uma vida mais segura, com casa, filhos e responsabilidade. Um ano depois nasceu meu primeiro filho, o Demian.

Voltei desta maneira a frequentar a vida dos meus pais, me tornei mais sereno, larguei aos poucos minha turma da pesada e montamos nossa primeira casa que, claro, ela alugada.

E assim, a vida foi passando.

Em março de 1984 um colega ilustrador veio até a minha mesa com um recorte de jornal. Ele jogou o papel na minha frente e disse: “Isso aqui está com jeito de ser para você.” O recorte era uma oferta de emprego na Chrysler do Brasil. Estava escrito: procura-se Estilista de automóveis com experiência.

Fiquei olhando para aquele pedaço de jornal desanimado, pois percebi que seria sempre assim. As pouquíssimas oportunidades que surgissem para esta função, absolutamente rara no Brasil, sempre acolheria quem tivesse EXPERIÊNCIA!

Expliquei a ele minha frustração, mas ele não aceitou meu argumento: “Você tem que tentar! Não pode deixar passar esta oportunidade única!”

Me amaldiçoei por não ter preparado um portfólio adequado, já que nas horas vagas eu estava muito ocupado fazendo zoeira e perdendo amigos em corridas insanas.

Fiz um “catado” de desenhos, pinturas, diplomas e prêmios e mandei para o endereço indicado, do outro lado da Via Anchieta, bem em frente à Volkswagen.

Nos dias de espera pela resposta eu andava como um autômato, aflito e me amaldiçoando pelo tempo perdido com besteiras.

A carta solicitando minha presença na Chrysler chegou em casa, e passei a noite em claro de tanta ansiedade.

No dia seguinte tive minha entrevista com o Sr. Celso Lamas, estilista-chefe da Chrysler. O cara tinha quase dois metros de altura, muito alinhado e bem-humorado. Um homem com personalidade forte, esquentado, mas muito gentil com seus aliados na luta contra a turma do mal: os engenheiros, planejadores e chefes de produção, eternas pedras no sapato dos Estilistas.

O Celso, foi muito objetivo comigo: “Você tem um grande potencial, domina o desenho e a pintura, mas não tem experiência. Escolhemos o candidato da GM, que domina o assunto e faz bons sketches. Mas não desista por isso, continue tentando que um dia você chega lá.

Cheguei tarde e bêbado em casa. Tinha perdido minha grande chance por falta de foco e disciplina.

A Nanci tentou me consolar e disse: o que é do homem o lobo não come.

E assim voltei a minha rotina, minha prancheta de ilustrador, mais caído do que nunca. Três meses depois, quando já tinha praticamente esquecido e me conformado com o assunto, minha mulher ligou para o estúdio e me disse: “Mi, chegou uma carta da Chrysler pra você. Vem logo pra casa.”

O Celso estava me chamando para uma conversa!!! Que diabos quer esta criatura agora?

Ele foi curto e grosso: “Você ainda está disposto a largar seu emprego sólido por uma experiência de três meses comigo? O cara que eu contratei dorme no serviço e mandei ele embora.”

A resposta não demorou uma fração de segundo. “SIM, este é meu sonho e vale qualquer risco. Não perderia esta oportunidade por nada e te garanto, não vou te decepcionar.”

E lá fui eu ao encontro do meu destino no mundo do Design de automóveis.

 

LV

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