Este trabalho eu preparei em 2017 para colecionadores de SP2 em um encontro em Barra Bonita. Embora eu não tenha participado do desenvolvimento de SP2, trabalhei alguns anos com o Márcio Piancastelli, que foi meu chefe direto quando voltei para a Volkswagen já como Designer, e um grande mestre que muito me ensinou. O Márcio foi um dos criadores diretos do carro que hoje eu diria ser um dos mais desejados clássicos da marca.

O trabalho é uma visão minha do conceito do carro e tenta descrever a essência da sua forma. Na vista lateral (sempre a mais importante para uma analise) pode-se tirar algumas conclusões.

O “Body Style” é completamente estranho para um VW, podendo talvez somente ser comparado ao Porsche 924, pela frente longa e cabine jogada mais para a traseira do carro.

O trabalho seria muita mais simples se seguíssemos o Body Style do 911, mas com certeza esta variante seria descartada pela diretoria na Alemanha, já que uma imitação de Porsche barato e produzida no Brasil não cairia nada bem para a imagem de uma das mais respeitadas marcas esportivas no mundo, fora a dificuldade de argumentação com os diretores da Porsche, que nunca aceitariam um “primo pobre” neste contexto.

Comparando as silhuetas entre o SP2 e o 911, e usando o centro do eixo traseiro como base, vê-se que a distância entre eixos foi aumentada, sendo eixo dianteiro jogado a frente uns bons 30 cm, a cabine está praticamente no mesmo lugar, com o ponto H bem aproximo do Porsche e com balanço traseiro muito similar, já que o Porsche também tinha (e ainda tem) um motor boxer traseiro na época.

Este “Body Style” é típico de carros esportivos ingleses com motor central-dianteiro, e o mais famoso da época era o Jaguar E-type, que levou este estilo de carroceria ao extremo.

Se colocarmos os dois carros com as mesmas posições dos eixos dianteiro e traseiro, vemos como a silhueta se aproxima, sendo que o Jaguar tem o para-brisa ainda mais para trás, o que deixou um acesso à cabine bem “apertadinha”, criando assim um dos mais longos e belos capôs da história do automóvel.

A plataforma que serviu de base para o SP2 foi a da Variant 1, que tinha a mesma distância entre eixos que o Fusca, e foi criado uma posição de motorista muito parecida com a do Porsche, baixando e jogando o banco para trás, e reposicionando a coluna de direção, pedais e alavanca de câmbio.

Em termos de tratamento e elementos da superfície externa do carro, os designers brasileiros usaram o típico “approach” de Design Volkswagen: simplicidade. Só vemos uma linha horizontal que corta a lateral, dos faróis à lanterna traseira, criando assim uma quebra de luz entre a parte superior (mais iluminada) e inferior da lateral.

O desenho dos vidros laterais são dinâmicos e também muito simples e orgânicos, criando uma forte coluna “C” que se integra à parte traseira do carro.

Na lateral foi criado um grande friso lateral, que tinha um acabamento refletivo na cor laranja, que servia como “side mark” e paralelo a este um friso protetor de borracha. O friso tinha também continuidade na dianteira e traseira como elemento de proteção da carroceria, substituindo os para-choques.

Outro elemento muito importante são as entradas de ar para arrefecimento do motor, estampadas nas laterais, região da coluna “C”.

Gosto muito da solução purista, sem peças extras aplicadas.

 

A frente do SP2 acompanha a simplicidade do tema, usando a “cara da VWB na época.
Um grande elemento retangular, sem grades, com as molduras de faróis bem dinâmicas e o logo VW ao centro.

O para-choque dianteiro é formado pelo friso lateral que entra pela dianteira do veiculo, onde os piscas dianteiros estão encaixados.

 

A traseira é definitivamente o ponto forte do carro, com a caída do teto para a tampa traseira, claramente um tema da Porsche, muito bem elaborado.

As lanternas horizontais completam o tema, perfeitamente harmonizadas com as faixas laterais, assim como o para-choque também uma extensão do friso lateral de borracha.

Agora, o interior do carro era, para a época, e levando-se em conta o pequeno volume de produção, um espetáculo.

Revestido em couro e com design “driver-oriented”, ou orientado para o motorista, seis instrumentos individuais, um volante exclusivo e muito esportivo e bancos em couro, com descansa cabeça integrado, o carro dava um show de design.

Com 25 anos comprei o meu SP2, um prata completo e muito lindo.

 

O carro tinha dois defeitos que me incomodavam: era muito barulhento, (só podia ser, com o motor praticamente dentro da cabine) e saía muito de frente em curvas mais rápidas e fechadas.

Ele sai de frente em consequência do seu design extremo, com todo o peso do carro na traseira, a frente ficava flutuando. Mas estes eram detalhes que não chegavam, nem de longe, a ofuscar a presença espetacular do carro.

Foram várias minhas tentativas de reviver o SP, mas eu era só um designer sonhador, contra todos os engenheiros, financeiros e, aqui entre nós, contra a realidade de mercado.

Mas este é sempre o dilema em uma superpotência como o grupo Volkswagen, hoje o maior grupo produtor de automóveis do mundo.

O cálculo é sempre: dinheiro investido x lucros pela venda, que está ligado ao VOLUME de produção.

Mesmo o VW Scirocco, não voou, nunca deu lucro, mesmo sendo um ótimo carro esporte.

Abaixo, uma das minhas investidas na Alemanha para tentar um programa SP#, mas ninguém teve coragem de apresentar os números do programa em níveis de decisão mais altos.

Vejo o SP2 como o carro clássico mais importante do Brasil, 100% criado, desenhado e construído aqui.

Ele foi o único 100% esportivo, dois lugares, com uma carroceria de aço estampado e soldado, com projeto, acabamento e cuidados de uma linha de montagem profissional, fabricado o Brasil.

Foram produzidas somente 10.400 unidades (600 para a Alemanha).

Nota: os desenhos da matéria são puramente ilustrativos, não podendo ser considerados como um documento de construção. Trata-se de uma analise subjetiva e pessoal.

LV

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