A coluna de hoje foge um pouco de seu tema, mas ela se reveste de aspectos muito interessantes que poderão ser bastante úteis para quem quer conservar ou já conserva suas raridades. Esta matéria inicia discorrendo sobre uma aplicação profissional do uso de desumidificadores de ar para a conservação de carros antigos. Em seguida falamos sobre sistemas privados de preservação de carros em ambientes confinados. O meu contato com esta tecnologia vem do início da década de 1990, quando eu estava estagiando pela segunda vez na Alemanha e esta tecnologia de preservação continua sendo usada e aperfeiçoada, trazendo resultados confiáveis. Eu também tinha entrado em contato com os princípios de estocagem de longo tempo durante a construção da Usina Itaipu Binacional, ocasião em que as reprogramações no cronograma obrigaram a trocar a embalagem até de componentes que já estavam na obra com uma embalagem inadequada para longos períodos de estocagem; é uma ciência à parte.

 

Preservação profissional de veículos antigos

Na verdade, quem de nós já não sonhou com a aquisição de um carro antigo zero-quilômetro? Tanto que as histórias de carros praticamente novos escondidos em garagens e celeiros sempre despertam a atenção, e por que não dizer a cobiça, de colecionadores. Mas, mesmo quando tais raridades são encontradas, quase sempre é necessário promover uma custosa recuperação do carro.

Será que é possível adquirir, por exemplo, um Fusca Cabriolé 1979 com somente 45 km rodados originais e em perfeito estado de conservação? Na Alemanha a resposta é sim. Pois uma empresa da cidade de Hannover desenvolveu uma tecnologia moderna para a conservação de automóveis; trata-se da Autokonservierung A.R.T.Z. (Conservação de Automóveis A.R.T.Z.).

O mais antigo automóvel em conservação em Hannover, um Ford Victoria A ano 1931, repousa em seu “sono de bela adormecida”, entre dois Mercedes

Esta empresa “adormece” carros antigos para um sono cuja duração é definida pelos próprios clientes. Dez, vinte, trinta ou mais anos são tecnicamente viáveis.

Os carros são conservados em invólucros plásticos ligados à uma tubulação que distribui ar cuja umidade é controlada por um higrômetro, que mantém a umidade relativa do ar, no interior dos invólucros, entre 35% e 45%. Quando a umidade tende a aumentar, um aparelho desumidificador de ar liga-se automaticamente e reduz a umidade ao valor desejado. Os invólucros de polietileno transparente confinam o ar em torno dos veículos, reduzindo o volume total de ar a ser desumidificado, e os mantém perfeitamente limpos. A umidade relativa do ar não pode cair abaixo de 35% para evitar que couros, borrachas e plásticos ressequem. O limite superior de 45% não deve ser ultrapassado para evitar que o processo de oxidação se inicie.

Para a conservação, por tempo prolongado, o invólucro plástico é conectado por um tubo a um sistema de ventilação equipado com desumidificador de ar incorporado. Um sistema de insuflamento opera em conjunto com um correspondente sistema de exaustão

O princípio de conservação empregado em Hannover, que utiliza a circulação de ar de umidade controlada, foi derivado do sistema de conservação militar, mas difere em sua execução. O sistema militar emprega invólucros hermeticamente fechados, o que implica na necessidade de uma supervisão constante, pois qualquer rasgo no invólucro é fatal para a conservação, já que permitiria a entrada de umidade. O mesmo não acontece no sistema de Hannover, onde se trabalha com a circulação de ar desumidificado em uma bolha de plástico que envolve o carro.

A troca de ar constante faz com que os carros resistam à passagem do tempo sem sofrerem danos

Quando os carros chegam para serem conservados é iniciado um verdadeiro ritual. Primeiramente, é feita urna cuidadosa lavagem completa. Juntamente com o registro dos danos do veículo é feito um minucioso levantamento das condições do carro. Os eventuais danos são protocolados e devem ser sanados antes de ser dado início ao processo de conservação. Em seguida são substituídos os óleos do carro por óleos especiais de conservação. A bateria é retirada e é feito um levantamento fotográfico do veículo.

Dentro do “saco plástico” todos são iguais; tanto o BMW 3.0 CSL, como o Ford Consul e o Chevrolet Impala são mantidos impecáveis graças a este excelente método de conservação

O carro é empurrado para a sua vaga, onde é posto sobre cavaletes, para poupar a suspensão, os pneus e os rolamentos. Então, o invólucro de plástico feito sob medida é selado. Finalmente o invólucro é conectado à tubulação de ar, e o carro antigo inicia o seu sono de conservação.

Passando o tempo de estocagem desejado de um carro preservado novo, o carro é “desmumificado”. É feita uma inspeção, os óleos e fluidos são trocados, é colocada uma bateria nova e o carro está pronto para ser licenciado e iniciar a vida ativa de um “carro antigo zero-quilômetro”!

Dado o valor dos carros, o local dos três galpões de estocagem é mantido em segredo. Não somente carros novos foram “mumificados”. O carro mais antigo é um Ford Vitoria A ano 1931. A área de estocagem e irmãmente dividida para Fuscas, Fords, Ro 8Os, Mercedes de várias idades, dois Ferrari BB 512, BMWs, um Chevrolet Impala, e muitos outros.

Vários motivos levam à mumificação de carros.  Muitos são guardados para fins especulativos. Como foi o caso de 50 Fuscas conversíveis novos que foram mumificados em 1979 pela própria empresa proprietária deste empreendimento de preservação. Todos já foram vendidos, e muitos deles continuam o seu sono nos galpões desta empresa. Outros carros são armazenados por motivos sentimentais.

Como é o caso de um industrial austríaco que comprou um Fusca conversível no dia do nascimento de sua filha. Em 1997, quando ambos completaram 18 anos ela ganhou o Fusca de presente. E o carro já era uma verdadeira raridade.

Outro carro, um Ford Capri, foi guardado por seu proprietário para fazer uma surpresa para sua esposa em 2001, quando o casal comemorou as suas bodas de prata. Sucede que foi exatamente neste carro que o namoro do casal começou…

Realmente os motivos são muitos, e certamente existem muitas histórias interessantes, mas a técnica de conservação é uma só. A contar pelos exemplares que já foram desmumificados com pleno sucesso, trata-se de uma técnica excelente.

 

Preservação privada de veículos antigos

Hoje em dia é perfeitamente possível aplicar uma estocagem privada em nível intermediário. Para tanto e necessário um invólucro de plástico provido de um zíper hermético que permita “libertar” o carro adormecido para que ele possa dar uma voltinha por aí. Neste caso não é necessário trocar os óleos dos carros.

Na Europa existem vários fabricantes de “tendas protetoras” ou “bolhas de estocagem”, por exemplo como a PermaBag alemã (J.F. Stanley & Co. de Hamburgo) ou a Carcoon inglesa (Carcoon Storage Systems International Ltd. de Salford).

Em alguns casos é necessário um desumidificador de ar que faz a circulação do ar dentro do invólucro, tirando a umidade ambiente dentro do invólucro; às vezes numa circulação em circuito fechado, mantendo uma sobrepressão em relação à pressão fora da bolha (o que evita a entrada de pó ou umidade em eventuais descontinuidades na bolha). Outros possuem insufladores de ar com acionamento elétrico providos de filtro, geralmente de carvão ativado, que mantém uma sobre pressão de ar dentro do invólucro e evitam a condensação.

Também há soluções mais simples, como o sistema da PermaBag, que usa contenedores com dessecantes que são colocados no interior da área a ser protegida, chamados PermaPack, confeccionados em aço inoxidável marítimo, que contém um dessecante natural e ecológico que previne mofo, fungos, umidade e odor a mofo, protege couro, madeira e estofamento. Há dois tamanhos de contenedores, o cilindro de 18 cm de altura para o interior do veículo, que pode recolher até 600 ml de água, e cilindro de 6 cm para o porta-malas, que pode recolher até 200 ml (dependendo da necessidade se pode combinar vários destes contenedores). Eles não são tóxicos e podem ser repetidamente secos em um forno doméstico normal.  Uma combinação de termômetro e higrômetro digital monitora a umidade no interior da proteção, mostrando o momento exato em que os cilindros devem ser regenerados.

À esquerda os dois tamanhos de PermaPack e à direita o termo-higrômetro embutido no invólucro protetor e visível do lado de fora, sem que seja necessário abrir a proteção

Ainda falando da PermaBag, além da proteção antiumidade, ela também tem produtos específicos, como capas de proteção de chuva, chuva e ultravioleta, ultravioleta reforçada, granizo, neve, etc.; o que demonstra o grau de sofisticação que este tipo de produtos alcançou.

 

Uma comparação interessante

O colecionador Richard Jacobs da cidade de Düren, na Alemanha, tem os dois sistemas, um PermaBag e um Carcoon e os usa todos os anos para proteger seus carros durante o inverno.

Foto da garagem do Richard com o PermaBag prateado em primeiro plano

O PermaBag é a proteção prateada das fotos e dá um bom trabalho para preparar o carro, um cabriolé, para a hibernação. A começar pelo uso de um forro aflanelado que protege a pintura. Ele também comentou que o carro fica com um cheiro ruim quando o Permabag é retirado – mas que isto logo passa; ele inspeciona o higrômetro uma vez por semana, se bem que ainda não foi necessário secar os dessecantes durante os três meses de hibernação.

Já para o BMW que fica dentro do Carcoon, a verificação é bem mais fácil, já que estando a bolha inflada isto quer dizer que tudo está bem; além de ser possível retirar o carro para dar uma voltinha num dia claro no qual não tenha sido espalhado sal nas estradas.

Agora é o Carcoon que está em primeiro plano

 

 

Contatei a Carcoon para saber como o equipamento deles controla a questão da umidade, já que ele não usa um desumidificador de ar. Recebi uma gentil resposta do George Page diretor da Carcoon Storage Systems International Ltd. uma empresa que já está há 25 anos no mercado e que informou que sua empresa foi a inventora do conceito de estocagem por bolha com sistema Airflow (fluxo de ar).

O princípio operacional Active Airflow da Carcoon também é aplicado para outros tipos de equipamento, desde motos até helicópteros, passando por turbinas de aviões, como as fotos abaixo, que foram enviadas pelo George Page, demonstram. Isto confirma a confiabilidade operacional deste sistema:

Aí vai a explicação de como o sistema da Carcoon funciona: o seu sistema patenteado é chamado de Active Airflow (fluxo de ar ativo), que cria um microssistema ambiental de proteção; sistema este que estabiliza a temperatura interna enquanto recircula o ar continuamente através de ventiladores compactos com filtros de carvão ativado. Esta circulação de ar interna isola o ambiente interno das flutuações de temperatura externa. Disto resulta que o veículo armazenado dentro da bolha fica protegido da condensação de umidade, o que é particularmente importante em ambientes frios e úmidos, como no Reino Unido, em ambientes quentes e úmidos, como o Brasil. Os custos de operação são baixos e equivalem a um ampère na tensão de 12 volts. Transformando este esclarecimento num fluxograma temos:

Fluxograma da operação do equipamento Carcoon – do site desta empresa. O conceito – miniambientes de estocagem como proteção para veículos que não são usados frequentemente

Isolate – isolar do meio ambiente com sua temperatura e umidade que variam constantemente

Stabilize – estabilizar removendo o excesso de umidade, vapores de óleo e combustível e outros contaminantes acumulados no interior do miniambiente

Ventilate – ventilar através do conceito patenteado de fluxo de ar ativo (Active Airflow Concept)

Circulate – circular o ar isolado no interior da bolha, usando os filtros de carvão ativado sob pressão

Segue um vídeo (0:14) da versão não estruturada do Carcoon, que se resume a uma bolha inflada – este é o modelo atual:

Para uma utilização menos prolongada e para permitir o uso do carro de vez em quando é conveniente usar um invólucro com uma abertura tipo porta, também com zíper hermético. Existem invólucros que ficam inflados devido à insuflação de ar e outros que possuem uma estrutura que mantém o invólucro armado mesmo sem a pressão de ar positiva atuando em seu interior, estas são as mais confortáveis para entrar e sair do ambiente protegido, pois tudo se passa como se existisse uma pequena garagem dentro da garagem.

Segue o vídeo (11:54) da versão estruturada com a demonstração completa da montagem da estrutura:

Vários aspectos devem ser observados ao escolher o invólucro a ser adotado, como, por exemplo, a acessibilidade do local onde o carro ficará armazenado, pois, se for um local que não seja alinhado com uma porta, então é possível que seja necessário o uso de um invólucro sem estrutura, que permita manobrar em diagonal até o carro ficar alinhado com o assoalho do invólucro; geralmente este tipo de invólucro permite abrir o zíper entre a base da bolha e sua parte superior nos quatro lados do invólucro.

 

Carcoon Outdoor

O Carcoon Outdoor é efetivamente “uma bolha dentro de uma bolha” e usa um material de base e uma cobertura superior similar ao modelo para interiores. No entanto, este modelo foi projetado para ajudar a proteger o veículo no ambiente externo, às vezes hostil. O Carcoon externo usa duas camadas de um material especial, revestido de liga, com uma camada vazia de isolamento entre cada camada. Esta configuração — juntamente com uma base espessa isolada e materiais especiais — fornece proteção suficiente contra a umidade e o frio, da mesma forma que protege contra os altos níveis de raios ultravioleta e infravermelho, que são encontrados em alguns dos climas mais extremos. Aí vai o vídeo (0:24) de apresentação desta versão:

 

Nos Estados Unidos também existem fabricantes de bolhas para a preservação de carros, como é o caso da “Car Capsule” (Cápsula para Carro), de Indianápolis, In, que utiliza um sistema semelhante ao usado pela Carcoon. O sistema de trabalho e os dados construtivos das bolhas da “Car Capsule” foram esquematizados no desenho abaixo:

Esquema do sistema da “Car Capsule”

Onde temos:

1 – E.S.S. EVAPORATIVE STORAGE SYSTEM (Sistema de armazenamento evaporativo)

O ar interno da cápsula é trocado de 3 a 4 vezes por hora. Isso mantém a temperatura interna consistente enquanto elimina a umidade da condensação em seu veículo.

2 – 2- PVC POLYMERIZED VINYL CHLORIDE (Policloreto de vinila)

Invólucro durável de PVC polido com 10 milímetros de espessura soldado com radiofrequência. Protege contra danos acidentais de bicicletas, vassouras, ancinhos, etc.

3 – BASEMAT (assoalho) em Herculite de 18 OZ – um tipo de PVC especial de uso marítimo

Material que é resistente ao mofo, abrasão e chamas. Também é impermeável ao óleo, gasolina e anticongelante.

4 – ZÍPER para uso pesado

O zíper de nylon 100% ajuda a evitar arranhões e mantém os roedores afastados.

5 – VENTILADOR DE ALTA PRESSÃO

Ventilador de alta pressão de 12 volts, de 150 pés cúbicos por minuto (4,25 m3/min), com filtro lavável. Custo elétrico aproximado de US$ 1,50 por mês.

A montagem da bolha da “Car Capsule” é semelhante às demais, como pode ser visto no vídeo (1:34) abaixo:

A “Car Capsule” também tem uma ampla gama de produtos que inclui uma versão para carros para exteriores.

No Brasil já existe a oferta de invólucros para este tipo de proteção prolongada de veículos antigos.

 

Proteção contra enchentes

Este é um tipo de proteção que ainda não é muito conhecido no Brasil, mas, em essência, é um enorme saco de plástico suficientemente forte, que tem um tamanho que permite que um carro seja colocado em seu interior. Aí o saco é fechado e o carro é amarrado para evitar que ele, no caso de o carro começar a boiar, fique batendo em obstáculos à sua volta. Sacos antienchente mais elaborados possuem ilhoses para a amarração dos carros.

Passada a enchente o carro é retirado do saco e está preservado tendo sobrevivido a enchente totalmente seco. Este tipo de proteção bem que poderia ser usado no Brasil também, é só ficar conectado na previsão do tempo e ter um saco no porta-malas. Em países onde as enchentes são inevitáveis, como a Indonésia, os carros são ensacados e assim ficam até as águas baixarem:

Abaixo um vídeo (1:28) de demonstração desta tecnologia apresentado pela “Texas Flood Bag” (Sacos de enchente do Texas), de Huston, Tx, que apresenta o produto EVP – Extreme Vehicle Protection (Proteção extrema de veículos):

 


 

Com as mudanças climáticas que estamos presenciando, quando a umidade relativa do ar cai abaixo dos 35% é bem capaz que tenhamos que incrementar o equipamento de conservação de carros por tempo prolongado com uma alternativa de umidificação controlada para preservar borrachas e couros de nossos carros de coleção; a ver como as coisas progridem na meteorologia.

AG

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Sobre o Autor

Alexander Gromow
Coluna: Falando de Fusca & Afins

Alemão, engenheiro eletricista. Ex-presidente do Fusca Clube do Brasil. Autor dos livros "Eu amo Fusca" e "Eu amo Fusca II". É autor de artigos sobre o assunto publicados em boletins de clubes e na imprensa nacional e internacional. Além da coluna Falando de Fusca & Afins no AE também tem a coluna “Volkswagen World” no Portal Maxicar. Mantém o site Arte & Fusca. É ativista na preservação de veículos históricos, em particular do VW Fusca, de sua história e das histórias em torno destes carros. Foi eleito “Antigomobilista do Ano de 2012” no concurso realizado pelo VI ABC Old Cars.

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