Cada um é autoentusiasta a seu modo, porém todos têm algo em comum: nasceram assim. A gente constata isso nas crianças. Uns, logo que se dão conta do mundo ao redor, já são atraídos por carrinhos e os esparramam no tapete de casa e nele fazem viagens imaginárias. Outros nem bola dão e outras coisas os atraem, e tudo bem.

Nós aqui, os sócios do AE, o Paulo, o Bob e eu, temos somado mais de um século e meio de ininterrupto autoentusiasmo, de profundo interesse e atração pelo automóvel, e isso não é algo desprezível. Falo, então, aqui por mim. Conto então um pouquinho do meu meio século de autoentusiasmo. O caro leitor autoentusiasta na certa achará semelhanças entre as minhas passagens com as suas. Achará em si os mesmos ímpetos.

Quando eu tinha meus dez anos, há exatos 51, meu irmão e eu ganhamos um minibugue Gurgel. Pois é, foi assim que a Gurgel começou, produzindo carrinhos para crianças felizardas. Pais, tios e avós se cotizaram numa vaquinha e debaixo da árvore de Natal lá estava o nosso reluzente “buguinho” vermelho. Bom, nunca mais ele ficou reluzente, pois em seguida foi levado para a fazenda e lá foi o melhor carro de aventuras que já tive na vida. Por fora levou arranhaduras do mato e por dentro das ferramentas tipo enxadão e picareta. Meteu a frente num mourão de cerca e vivia cheirando a bosta de cavalo e de vaca e cheio de pelos soltos de cachorro vira-lata. No assoalho rolavam soltas pedras arredondadas das boas para os bem calibrados e precisos estilingues. Isso é que é bugue e o resto é conversa.

Mas logo o motor 4-tempos Briggs & Stratton de 3 cv se mostrou impotente, o que foi resolvido juntando economias de famélicas mesadas e comprando outro Briggs com o dobro da potência. O pobre Gurgelzinho levou cortes de serrote na traseira para que o motorzão ali coubesse. Ficou um canhão dos bem perigosos e legais pra burro. Aquilo já acelerava legal e já dava pra morrer explodindo com aquilo. Não morremos.

Mais uns poucos anos se passaram e eu já com 16 e já correndo de kart em Interlagos fiquei alucinado ao ver um Jaguar XK120 (fotos na matéria) descendo a Rua Augusta numa noite quente. Pirei. O dono me deu a dica e no dia seguinte fui à oficina de um japonês grandão que parecia lutador de sumô rabugento e sujo de graxa. Comprei lá meu Jaguar XK120 pelo preço de duas motinhas usadas, pois ele custou 8 mil moedas e vendi minha Yamaha 100 surrada por 4 mil moedas e meu pai foi legal e me deu as outras 4 mil que faltavam. Pois é, um XK120 que hoje vale não sei quantos sacos de moedas de ouro custava esse pouco só aí e volta e meia a gente via alguns dando sopa cheios de folha podre debaixo duma árvore e pedindo um dono pelo amor de Deus, assim como Porsche 356 de alumínio a preço de banana e carrinho inglês tipo MG era coisa que ninguém queria, fora um ou outro maluco excêntrico aqui e ali que gostava de coisa esquisita.

E o XK, assim como antes acontecera ao Gurgelzinho, foi para a fazenda. E lá, depois de uma revisão nos freios a tambor, feita numa oficina de tratores, o Jaguar encarou aventuras diferentes do Gurgelzinho. Viajou escondido da polícia e dos meus pais, e viajou na lenha, cruzando a 160 km/h em noites frias e iluminadas por faróis de “milha” — assim eram chamados os faróis auxiliares de longo alcance — amarelos que iluminavam lá longe. Valente Jaguar! E essa conversa de que o sistema  elétrico Lucas é chamado de “O Príncipe das Trevas”, para mim é puro papo furado, que os meus, por dois anos, nunca me deixaram na mão. Isso é conversa de quem chegou depois e fica repetindo uma besteira antes dita por um mané espirituoso qualquer. Belo e valente Jaguar. Ralou Opalas pretos com motor 4100, o must da época, e ralou-os na estrada e nas arrancadas urbanas. Ralou-os sem dó. Enquanto eles ficavam soltando fumaça de pneus o meu XK partia feito um tiro. Enquanto na estrada aqueles Opala iam bem até uns 160 km/h, o meu XK gostava mesmo é daí pra cima e continuava ganhando velocidade e os despachando. Uma vergonha vergonhosa para aqueles tontos, caras coroas de vinte e tantos anos tomando ralo de um moleque de dezesseis pilotando um carro velho. Velho, sim, mas era ainda bonitão e passava dos 200 km/h, não de maneira muito fácil, mas passava sim senhor. Motor 6-cilindros em linha, duplo comando, dois carburadores SU, 160 cv, e torque de, esse estimo, quase uns 30 m·kgf.

E assim foi. Meu pai, um cara inteligente cujo olhar me amava, deve ter lançado um alea jacta est (a sorte está lançada) logo que viu que eu não tinha jeito — mas que por outro lado eu não era burro e sabia me cuidar, e só me dava uns toques firmes para que eu não me matasse à toa —, deixou rolar e não errou, pois acreditava que um homem para ser feliz tem que ser livre e responsável pelo que faz na vida. Esse era o jeito antigo de criar filho homem.

E assim foi e assim vai ser. Já avisei minha mulher que daqui sei lá quanto tempo, quando eu estiver numa cadeira de rodas, quero cartas de baralho presas com prendedores batendo nos raios e fazendo aquele tão gostoso som brrrr de motor acelerando forte e entusiasmante. O vidro de soro pendurado será meu tanque de gasolina da boa, e o resto é conversa.

Carro, para mim, é isso; é o que mata essa insaciável sede com a qual nasci. O AE é uma boa, clara e fresca fonte, que há dez anos brotou para amainar essa gostosa sede que só nós, os autoentusiastas, sentem, e que só de vez em quando é temporariamente aplacada. Dure o a AE o quanto dure, isso só Deus sabe, sei eu que dessa fonte só há de sair água pura. Assim foi e assim há de ser.

AK

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