A ANP faz de conta se preocupar com o consumidor mas, no momento,  quer evitar a distribuição direta do álcool

 

Nossa gasolina sempre foi uma encrenca. Houve época em que os carros importados da Europa e Estados Unidos eram  “tropicalizados”: tinham sua taxa de compressão reduzida para se adequar à nossa pobre gasolina, de pouca octanagem e muito enxofre. O motor perdia desempenho e o consumo aumentava. Só nossa gasolina especial com mais octanagem e chamada de “azul” dava conta do recado, mas era mais cara.

Fim do chumbo

Motores e combustíveis evoluíram. Nossa gasolina poderia hoje estar entre as melhores do mundo, pois eliminou o chumbo tetraetila e, recentemente, em 2014, reduziu drasticamente o teor de enxofre, de 800 para 50 partes por milhão. O chumbo é tão tóxico que contamina o organismo de forma permanente. A turma “da graxa” no passado ainda é vítima dele: exames detectaram resíduos de chumbo até hoje no meu corpo.

No Brasil, a solução — correta — para eliminar o chumbo foi a adição de álcool. Solução técnica que acabou descambando para a política: usineiros pressionaram e o governo permitiu o acréscimo de seu teor que, dos 12% iniciais em 1982, atingiu  22%, depois 25%, e hoje está em impensáveis 27%. É o motorista lesado com a conivência do governo, pois paga por gasolina, mas recebe mais de um quarto de álcool, de poder calorífico cerca de 40% inferior.

Picaretagens

Não bastasse, o dono do carro é vítima, ao abastecer, de toda a sorte de picaretagens. No posto desonesto, está sujeito a pagar pela gasolina “superbatizada” com teor de álcool superior aos 27% permitidos. Não é raro chegar a 50%. O carro flex não reclama, pois tem motor projetado para receber qualquer mistura dos dois combustíveis. Mas o excesso de consumo pesa no bolso. Se o motor é a gasolina, pior ainda, pois terá funcionamento irregular e ainda poderá ser danificado pois o álcool “extra” não é anidro, mas hidratado, que contem água. Outra manobra desonesta é da bomba “programável”. Um chip controlado remotamente do escritório do posto programa uma entrega de combustível inferior à registrada no visor. Se o motorista ou um fiscal pede para conferir, o controle é acionado e a bomba volta imediatamente a marcar o volume correto.

Aditivação

Na maioria dos países toda a gasolina é aditivada, para evitar depósitos carboníferos nos injetores e válvulas de admissão que interferem na formação da mistura ar-combustível, aumentando consumo e, consequentemente, emissão de gases. No Brasil, a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), encarregada de normatizar a aditivação, foi incapaz de enfrentar a poderosa Petrobrás, que produz toda a gasolina no país, que alega não ter condições de efetuar a aditivação nas suas refinarias. Assim, gasolina aditivada é cada uma de um jeito, pois a distribuidora apenas notifica a ANP sua formulação e estamos conversados. Se a fiscalização da gasolina comum já e deficiente, a da aditivação sequer existe. O motorista pode estar pagando pela aditivada e recebendo a comum.

Distribuição

A ANP faz de conta proteger o consumidor mas, nesta semana por exemplo, manifestou preocupação com a entrega direta do álcool pelas usinas aos postos, que reduziria seu preço na bomba. Mas prejudicaria as grandes distribuidoras.

Aliás, o álcool também não está livre de maracutaia. O vendido na bomba contém oficialmente um pequeno percentual de água (7%) e por isso é chamado de hidratado. Mas o posto desonesto não perde esta chance de enganar o freguês e “bota mais água no feijão”. Alguns, no litoral, chegam ao cúmulo de misturar água do mar: vi uma vez, no laboratório da Bosch, o sistema de injeção de um carro flex completamente danificado. O álcool, analisado, revelou presença de elementos característicos do mar, como sal e iodo.

O combustível brasileiro é problemático há muitas décadas. Ainda hoje exige projetos específicos para nossos automóveis. Encarece o custo do quilômetro rodado. É impunemente adulterado. Prejudica o desempenho de carros importados. E ainda dificulta a circulação de nossos modelos em países vizinhos e vice-versa.

BF

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

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