Sua história descrita em painéis

Se existe um assunto do qual eu trato com muito carinho e respeito este é a herança que Márcio Lima Piancastelli deixou principalmente no design automobilístico brasileiro. Da minha amizade com a sua filha primogênita, Alessandra Iha Piancastelli Lóss e seu marido Marcelo Lóss, já surgiu uma matéria que foi publicada nesta coluna,  e com mais esta dou sequência a este trabalho.

Começamos a matéria com a apresentação de uma interessante série de painéis que a Alessandra e o Marcelo prepararam, com base em suas recordações do convívio com seu pai e sogro, respectivamente, para contar de uma maneira visual como foi a trajetória dele. É uma espécie de biografia compacta e um documento precioso; com ele vamos passar a descrever quem foi ele e o que fez.

Apresentação dos painéis no Encontro Internacional de VW SP2 em Barra Bonita, SP (Fonte: Site Maxicar)

Painel 01

Márcio Lima Piancastelli era conhecido como um brilhante designer de automóveis brasileiro, nasceu em 7 de setembro de 1936 em Belo Horizonte, Minas Gerais. Sua personalidade especialmente agradável parecia fascinar a todos que o conheceram, e sua arte encantou a todos nós.

Design sempre foi sua paixão

Ele desenhou desde criança, mesmo durante as aulas, em vez de prestar atenção aos professores.

Seus caminhos o levariam a estudar arquitetura, mas um concurso de design de carros em 1962, para o qual ele se inscreveu secretamente (pois o seu pai era contrário à ideia dele ser um designer automobilístico), o recompensou com um estágio no estúdio italiano Ghia, em Turim. Aquele estúdio o revelaria e o traria de volta ao Brasil para trabalhar no já bem estabelecido estúdio de design da filial brasileira da Willys-Overland na cidade de São Bernardo do Campo, SP.

Em 1967 ele foi convidado a integrar a equipe do recém-inaugurado departamento de Interiores da Volkswagen do Brasil, estimulado pelo fato de ser uma área de trabalho totalmente nova.

Apesar do Piancastelli estar liderando uma equipe inovadora, o presidente da Volkswagen do Brasil não esperava que novas coisas fossem criadas e desenvolvidas por eles. Em vez disso, o presidente assumiu que o trabalho que a equipe de Piancastelli tinha que fazer era testar o que já havia sido concebido na Alemanha.

No entanto, a equipe estava determinada a criar e inovar, de modo que eles costumavam operar de maneira secreta, escondendo e cobrindo seus desenhos quando qualquer chefe estava por perto.

Durante os anos 80, Piancastelli foi responsável pelo departamento de Color & Trim da VW, trabalhando nos famosos projetos GOL GT, GTS e GTI.

Com a criação da Autolatina (Joint Venture entre a Volkswagen do Brasil e a Ford do Brasil, que vigiu de 1987 a 1996), foi aberto um canal de trabalho entre a Volkswagen e a Ford. Este canal permitiu que Piancastelli reencontrasse alguns colegas do período Willys-Overland que permaneceram lá (pois a Ford assumiu os negócios da Willys-Overland no Brasil).

Lá ele foi designado para a difícil tarefa de ser o elo entre “alemães e americanos” em projetos como VW Santana/Ford Versailles, VW Santana Quantum/Ford Royale, Ford Verona /VW Apollo (projetos mistos em que o mesmo carro era entregue por cada empresa com pequenas diferenças e nomes diferentes).

Ele também participou do desenvolvimento do Gol Geração II, que foi lançado após sua aposentadoria.

Em 1992, ele se aposentou da Volkswagen do Brasil, onde liderou lançamentos de sucesso como: VW SP2, Brasília, Gol, incluindo também Saveiro e Parati.

Como aposentado, ele estendeu sua criatividade ao design de eletrodomésticos e revisões de suas próprias criações de carros e se divertiu estudando esquemas de cores com pinturas e desenhos de animais.

Ele manteve um olhar criativo até o final e nunca deixando sua serenidade de lado, ele morreu em junho de 2015.

Painel 01

Painel 02

Itapuã – Concurso Lúcio Meira 1962

Lúcio Martins Meira ou simplesmente Lúcio Meira foi um militar, engenheiro, político e sobretudo, foi um destacado executivo do governo brasileiro. Ele impulsionou a criação da indústria automobilística brasileira nos anos 50, entre outras conquistas igualmente importantes. Sendo assim seu nome foi escolhido para este importante concurso.

Conforme estabelecido pelas regras deste, Márcio organizou os desenhos, vistas frontal e de trás de sua criação — um carro chamado Itapuã, e preparou furtivamente um modelo de madeira na empresa de móveis de seu pai sem o seu consentimento, já que seu pai não era a favor de que Piancastelli seguisse uma carreira de designer automobilístico. Mas o Piancastelli teve total apoio de seus amigos.

Uma caixa contendo esses desenhos e o modelo em madeira foi enviada de Belo Horizonte para São Paulo (a uma distância de cerca de 600 km) com a ajuda do motorista de uma empresa de ônibus, Cometa, que prometeu entregá-la no endereço indicado.

Sem ter recebido a confirmação se a modelo e os desenhos haviam chegado ao seu destino final, ele ficou surpreso quando alguns meses depois alguns repórteres de jornais conhecidos tocaram a campainha para avisá-lo de que havia ganho o segundo prêmio do concurso, e eles não perderam a chance de entrevistá-lo.

O respeitado designer italiano Luigi Segre, líder do Studio Ghia, de Turim, Itália, foi um dos jurados do concurso e o modelo do Piancastelli, o Itapuã, foi o que ele mais gostou, por isso ofereceu ao Piancastelli a oportunidade de estagiar na Carrozzeria Ghia.

Depois de alguns meses de troca de cartas e até de um encontro com a Karmann Ghia do Brasil, foi finalmente decidido que o Piancastelli iria para a Itália seguindo as recomendações de Luigi para o vencedor do “segundo lugar”.

Em fevereiro de 1963, Piancastelli embarcou em um navio para a Itália em uma viagem cheia de jantares extravagantes com música de piano ao vivo.

Painel 02

 

Painel 03

Estúdio Ghia

Assim que o Piancastelli chegou à Itália, ele teve uma notícia inesperada: Luigi Segre tinha morrido de repente e no estúdio Ghia ninguém sabia sobre o “brasileiro” que foi enviado para estudar lá e o que ele deveria fazer.

Felizmente, a vida seguiu seu rumo e Piancastelli permaneceu lá por um ano, onde conheceu um tempo de aprendizado e desenvolvimento de seus talentos, criando algumas propostas para os clientes da Ghia, participando de reuniões com a Ford, Jaguar, Borgward, Renault e Lamborghini — incluindo uma reunião com a presença do próprio Ferruccio Lamborghini para a avaliação de uma proposta de um carro esportivo.

Depois de um período próspero, a Itália enfrentou uma crise que obrigou Piancastelli a voltar ao Brasil no final de 1964, mas antes de voltar para casa decidiu conhecer um pouco mais a Europa, pois ele tinha uma irmã que morava perto, em Milão, e que serviu de base para ele.

Painel 03

Painel 04

Concursos e Prêmios

Piancastelli trabalhou em propostas conceituais para outras edições do Prêmio Lúcio Meira de Desenho Automotivo, como segue:

1966 – O projeto de um táxi chamado “Brucutu” no qual sua equipe conquistou o 2º lugar. A equipe participante foi: Márcio Lima Piancastelli, José M. Ramis e Adolfo Carmona

1972 – Dois projetos, Batrack e Acampo, em que sua equipe foi distinguida com menções honrosas. Neste caso, a equipe participante foi: José Vicente Martins, Márcio Lima Piancastelli, George Yamashita Oba e Camilo de Vasconcelos Machado.

Painel 04

Painel 05

O carro esportivo VW SP2

Conta a lenda que por volta de 1968, durante a cerimônia de lançamento do Puma — carro esportivo brasileiro com componentes mecânicos da Volkswagen — o diretor executivo da Puma conversou com Rudolph Leiding, recém-chegado da Alemanha para assumir como presidente da Volkswagen do Brasil: “A Volkswagen não tem carro assim! “, e Leiding respondeu: ” …Mas nós vamos ter!”.

Em 1970, o Karmann Ghia TC foi lançado, mas ele não conseguiu vencer o Puma, então o desafio continuou.

Assim Leiding assumiu o próximo passo do desafio, solicitando à equipe de estilistas Márcio Lima Piancastelli, José Vicente Novita Martins (Jota) e George Yamashita Oba a criação de um carro esportivo inspirado no protótipo Corvair Testudo apresentado no Salão de Genebra em 1963.

 

O VW SP2 nasceu

Foram feitas várias alternativas, na verdade centenas de desenhos, mas trabalhar com modelagem foi intenso e difícil, já que a técnica de modelagem com clay ainda não estava disponível no Brasil naquela época, então eles tiveram que lidar com diferentes materiais como o gesso, o que resultou em um trabalho duro.

Depois de alguns modelos em escala, até mesmo uma escala de 1:1 e uma técnica feita de arame, eles finalmente chegaram ao protótipo final para a apresentação de aprovação.

Painel 05

Painel 06

“Vamos cortar esse “narigão”!”

Feito de acordo com todas as diretrizes da diretoria, o modelo preparado para a apresentação final incomodou Piancastelli por causa de sua projeção frontal, cerca de 10 cm maior do que o carro que conhecemos atualmente.

Por outro lado, o diretor executivo de engenharia sentiu-se satisfeito com o resultado com um “narigão” e ordenou que cobrisse o modelo até a aprovação que seria no dia seguinte.

Piancastelli reuniu sua equipe e disse: “Esse carro não pode ser assim, vamos cortar!”. E assim fizeram, trabalharam escondidos a noite inteira remodelando a frente do carro; finalmente, o carro foi coberto novamente.

No dia seguinte, o carro foi descoberto, mas ninguém notou as mudanças feitas e este foi o modelo que foi aprovado e se tornou tão bem-sucedido e fez tantos fãs.

O VW SP3

O VW SP3 seria a renovação do VW SP2, com motor 1800-cm³ arrefecido a água, que nunca passou do estágio de protótipo por desinteresse da Fábrica em continuar a fabricação de um veículo tão exclusivo.

Painel 06

Painel 07

VW Brasília – O carro da família

Desta vez Piancastelli e sua equipe foram desafiados a serem muito engenhosos e construir um carro espaçoso usando o chassi do Fusca, um modelo quadrado que deveria ter o maior espaço interno possível no menor comprimento, de modo que causasse a impressão de um veículo grande, evitando repetir as reclamações do Fusca que indicavam que era muito fechado e muito pequeno.

Um conceito moderno para a época

Pensou-se em uma área envidraçada bem grande o que consequentemente rebaixou o painel, a frente já definida da família Volkswagen continuou e o chassi já utilizado no Karmann Ghia, que era mais largo, foi aproveitado para proporcionar maior espaço interno para os ocupantes.

Desde o início foram feitos vários estudos para incluir um para-choque envolvente, tecnologia ainda não disponível no Brasil naquele momento.

O VW Brasília era o projeto preferido de Piancastelli. Ele, pessoalmente, teve cerca de seis ou sete VW Brasílias para seu uso pessoal ao longo de 15 anos e adorava dirigi-los.

Painel 07

Painel 08

O VW GOL

Inúmeras propostas para continuar a evolução da Brasília foram feitas pela equipe de design brasileira, incluindo o uso do motor dianteiro arrefecido a água. Protótipos dessa alternativa foram feitos mostrando que ela seria excelente.

Em vez de atualizar a Brasília, a casa matriz da Volkswagen tinha definitivamente outros planos que inicialmente apontavam para um projeto global. Quando a equipe de design brasileira foi convocada para a Alemanha, eles ficaram chateados por causa da decisão de descontinuar a evolução do Brasília, que era seu amado “bebê”. Em vez de um projeto global, principalmente porque o mercado brasileiro continuava fechado para a importação de carros, o Gol, que acabou sendo uma nova “exclusividade” brasileira, foi introduzido.

Alemanha 1976

Em Ingolstadt, no Estúdio da VW Audi, a equipe de Design liderada por Piancastelli participou da disputa interna com um protótipo projetado por brasileiros, mas o projeto vencedor foi o proposto pela equipe alemã.

Painel 08

Painel 09

A família Gol cresceu

Após a definição do modelo Gol na Alemanha, a equipe de design brasileira continuou o trabalho para aumentar a família Gol, introduzindo a Parati, o Voyage e a Saveiro.

Cores e Acabamentos

Piancastelli também trabalhou na criação das célebres séries GT, GTS e GTi e seus famosos bancos Recaro.

Painel 09

Painel 10

O carro compacto que a Volkswagen não produziu

No início da década de 80, após desenvolver o Gol, Piancastelli e a equipe local da Volkswagen trabalharam intensamente na criação de um carro compacto com características urbanas. O conselho diretor da Volkswagen rejeitou o desenho inovador mesmo após a construção de alguns protótipos iniciais.

Painel 10

Painel 11

A visita ilustre e uma ideia brilhante: O Pian GT

Em setembro de 2014, o 78º aniversário de Piancastelli foi comemorado com a presença ilustre do Clube VW SP2, em uma reunião especial em sua casa em Araçoiaba da Serra – SP.

Eu estive lá e, depois de ver alguns desenhos impressionantes no escritório do Piancastelli, tive a ideia de presenteá-lo com uma de suas criações transformadas em modelo digital. Para tanto eu convidei o Dan Palatnik, um respeitado artista gráfico e modelador 3D, para criar uma imagem digital e renderizar um modelo de uma das criações do Piancastelli. Dentre seus modelos Piancastelli selecionou um GT inédito projetado em 1963 enquanto estagiava no estúdio Ghia e que foi atualizado em 1998.

Os detalhes iniciais puderam ser extraídos de um desenho de vista lateral e todos os outros aspectos como a forma da frente, vidro traseiro bipartido, ausência das colunas dianteiras, luzes traseiras retangulares, até mesmo um emblema na forma da bandeira do estado natal do Piancastelli, Minas Gerais, foram cuidadosamente encaminhados para o Dan Palatnik com a ajuda do genro Marcelo, que também trabalha na indústria automobilística, para garantir a representação de um modelo fiel como foi o que foi criado na época em que o Piancastelli esteve na Ghia.

O Piancastelli, apesar do estágio avançado da doença que acabou por levá-lo, acompanhou e revisou cada detalhe com muito carinho e, pela primeira vez em sua vida, viu uma de suas criações, que nunca foi produzida, sob a forma de um modelo digital 3D. Só neste momento este carro recebeu um nome: Pian GT.

Esse foi o último trabalho de Márcio Piancastelli, pois ele faleceu alguns meses depois.

Esta parte da história que foi registrada neste painel pelo Marcelo e pela Alessandra  no Painel 11, também aparece em detalhes e com fotografias na minha matéria: PIAN GT em 3D, homenagem a um gênio do design brasileiro .

Painel 11

Painel 12

Apresenta uma coletânea de fotos com o Piancastelli, se bem que cada uma delas tem a sua própria história.

Painel 12

 


Na Parte 2 vamos para uma imersão na visão da filha sobre o pai em alguns aspectos da vida deste grande brasileiro.

AG

Apesar de  poder ser difícil de entender para alguns de vocês, mas a impressão da pessoa do Márcio Piancastelli, que eu conheci pessoalmente já muito doente e fragilizado, potencializou o respeito e a grande admiração que eu já tinha por ele. Agora com esta matéria em duas partes eu, com a inestimável e importante ajuda da Alessandra Iha Piancastelli Lóss e do Marcelo Lóss — filha e genro, a quem agradeço muito, apresento o Piancastelli como homem e como grande criador.
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