No início de 2015 a situação na companhia estava péssima. Talvez tenha sido um dos piores momentos em toda história da companhia no Brasil, que eu tenha vivenciado. Nesta situação o remédio é sempre amargo.

Ganhamos um novo presidente (Sr. David Powels) muito experiente com situações de catástrofe financeira e com muita vivência neste aspecto. Eu já tinha trabalhado com ele aqui no Brasil, onde ele já tinha sido vice-presidente de Finanças, tendo também como experiência o comando da Operação da Volkswagen da China.

Foi contratada uma equipe da Porsche Consultoria para fazer uma análise e  diagnóstico, assim como uma proposta de ações para reparar, e principalmente diminuir, tanto o pessoal da linha de montagem quanto das áreas “administrativas”, na qual, absurdamente se encaixa a área de Engenharia.

O racional é que todas áreas que não são de produção são administrativas. Na realidade, a rixa esta no fato de que o trabalho da Engenharia, não faz “lucro”, isto é, não “produz” automóveis. A Engenharia, junto com o Design, são grandes gastadores de dinheiro, com seus técnicos de salários altos, seus testes e protótipos que custam milhões. Não importa que sem a Engenharia não exista o produto. A visão é dura e seca: não dá dinheiro, é administrativa.

Nesta altura do campeonato, a VWB estava fazendo prejuízo alto, já que o mercado estava completamente inerte. Em 2014 a VWAG já havia injetado algumas centenas de milhões de euros e em 2015, teria que continuar “sustentando” a filha pobre no Brasil, mas não sem sacrifício.

Foi decretado pela área de Finanças, baseado no estudo da Porsche, uma redução de pessoal de 25% para todas áreas da companhia, além de rearranjos e extinção em departamentos e no pessoal executivo. Uma demissão mesmo que com pagamento de direitos e pacotes de compensação sempre são muito traumáticos.

Todos os aposentados ou funcionários que já estivessem em condições de se aposentar deveriam ser desligados, o que no no nosso caso foi uma catástrofe.

Tínhamos especialistas que começaram, assim como eu, a trabalhar com 14 anos, e portanto ainda jovens já estariam aptos a requerer aposentadoria, o que muitos fizeram, inclusive eu.

Executivos com uma graduação mais alta não entram nestas “normas”, mas alguns dos meus melhores homens tiveram que sair da companhia simplesmente porque estavam dentro das diretrizes.

A área administrativa tinha que ser reduzida e se você tem só dois, ficará com um. Mas a maior perda foi com meu gerente executivo, que foi considerado pela Porsche como dispensável. Não adiantou gritar e explicar que tínhamos dois estúdios a serem tocados e que cada especialista que se vai é know-how, conhecimento importante que se perde.

Os programas novos também estavam travados oficialmente, mas na realidade, não podíamos perder os timing dos programas, portanto tínhamos muito mais trabalho do que capacidade física para executá-los.

Viagens foram cortadas assim como tudo que poderia ser reduzido. Recebemos metas inatingíveis para vários indicadores, que no fim iam refletir nos bônus dos empregados e executivos, isso é, se o bônus também não fosse extinto.

No meio desta crise toda, as atividades não paravam. Eu acompanhava lançamentos e eventos de marketing, dava palestras, viajava para algum evento na Alemanha semana sim, semana não, ia aos salões de automóveis, controlava os modelos do Brasil e Alemanha, tínhamos nossa apresentações mensais de Design aqui e lá, e ia a uma avalanche de reuniões ligadas ao produto, administrativas e estratégicas.

O Polo e principalmente seus derivados eram nossos programas principais. Esta nova tentativa do Polo no Brasil vejo com olhos positivos e como parte da inovação dos modelos, pois com ele recebemos uma nova plataforma mundial, o que nos permite mais elasticidade e opções de ações, já que com uma plataforma nova, você tem acesso a novas tecnologias, sejam elas na arquitetura eletrônica, variação de modelos e implementação de veículos com nível de segurança, dentro dos novos parâmetros da Matriz.

Com a saída do Walter De Silva, o contato com as outras marcas reduziu-se muito, acabaram para nós os encontros em Barcelona e as reuniões do Design Group, e a não ser o Klaus Bischoff, Designer-chefe da marca VW, ninguém se lembrava mais de nós. Uma estrutura completamente nova foi montada em Wolfsburg com a saída do Dr. Martin Winterkorn.

Nesta nova estrutura da VWAG, as reuniões sobre de produtos foi enormemente reduzida, com acesso muito restrito, e nós não estávamos incluídos. O novo número 1 chegou a declarar que até 2020 a Volkswagen só produziria carros elétricos, e nós nos perguntando o que seria do Brasil dentro desta nova filosofia.

Além disso uma série de programas em que vínhamos trabalhando foram sumariamente cancelados.

No início de 2016 eu estava trabalhando durante o fim de semana no jardim em minha casa de Peruíbe , quando depois de algum esforço puxando galhos de uma árvore caída, senti uma forte dor do lado direito do meu abdômen.

Eu sempre vivi sob o risco de cólicas renais, que me atacaram, sempre de surpresa, em várias situações e lugares. A princípio pensei que fosse mais uma delas, porém a dor era um pouco diferente, não tão forte e em ondas, mas contínua.

Pela madrugada resolvi subir para um hospital, pois temia que a dor ficasse muito forte e algo tinha que ser feito. Depois do exame o médico me disse que minhas pedras no rim estavam no lugar, mas que algo estava errado com meu fígado! De cara já imaginei que agora teria que pagar todos meus excessos com o álcool durante os anos de solidão na Alemanha (na realidade o problema não foi o álcool em si, mas os efeitos colaterais de uma hepatite C que me pegou quando eu era ainda criança.

Depois de um exame mais acurado, veio a má notícia: câncer!

Posso dizer que ninguém está preparado para esta notícia, mas, junto com minha mulher,decidimos encarar o problema imediatamente.

Fui encaminhado para o Hospital Albert Einstein, e depois de uma bateria de exames e juntas médicas, encaminhado a um especialista em transplante de fígado da equipe do Einstein. Dei entrada no hospital numa segunda-feira, e internado sumariamente.

A equipe já tinha preparado tudo, e na terça de manhã levantei da minha cama para me deitar na maca que iria me encaminhar para a sala de operação.

Antes de tomar o primeiro anestésico, prometi para mim mesmo que se eu escapasse desta eu pediria a conta da companhia, pois, afinal, eu já estava farto de tanta pressão e não tinha mais a paixão que sempre me moveu desde um aprendiz de modelador a diretor de Design da maior companhia automobilística do planeta.

A operação durou 10 horas, e quando eu acordei na UTI, percebi que ainda estava vivo! Isso pode parecer uma piada, mas a primeira coisa que eu perguntei para a enfermeira que veio ver se estava tudo OK comigo foi: — Onde estão meu caderno de desenho e minha caneta, pois eu queria desenhar!

O primeiro desenho foi de um automóvel que confesso não saiu lá essas coisas, mas para os enfermeiros e a equipe da UTI era uma obra de arte.

Desenhei também as enfermeiras e terapeutas.

Tive uma recuperação excepcional, e no quinto dia meu anjo da guarda Dr. Marcelo (o meu cirurgião) me tirou do hospital para terminar minha recuperação em casa.

A recuperação foi ótima e quando já podia andar com firmeza voltei para o estúdio para pedir a conta.

Eu estava com 63 anos e meio e em dois anos eu deveria me aposentar de qualquer maneira. Por isso, fiz as contas e decidir aproveitar o tempo de vida restante fazendo aquilo que eu mais gosto: desenhar, tocar, escrever, fotografar automóveis e aprender um pouco mais sobre esta arte que está sempre em movimento.

As despedidas no Brasil e na Alemanha foram muito emotivas, mas consegui segurar o choro, deixando tanta gente com quem se convive anos a fios, trabalhando como equipe, conhecendo pessoas maravilhosas, não só os gênios, cientistas e técnicos mas também pessoas simples e genuínas que fazem parte do nosso dia a dia.

Foram 41 anos só no Grupo VW, e mais nove na General Motors.

Não preciso nem dizer que os 41 anos não foram somente no grupo Volkswagen, mas também na General Motors, Chrysler, Volkswagen Caminhões, a Firma Volke, Ford americana e europeia, Volkswagen Future Design Potsdam, Ghia Design, Giorgetto Giugiaro, Italdesign, centenas de fornecedores e entidades foram perfeitos, a escola ideal.

Estou apenas fechando esta ordem cronológica de histórias para entrar em temas diversos e histórias isoladas, sempre ligadas ao automóvel.

Na imagem abaixo um resumo dos principais projetos que trabalhei desde meu primeiro trabalho como Designer de Automóveis na Chrysler do Brasil até minha despedida do grupo VW em 2016.

Trabalhar com esse time do AUTOentusiastas é uma grande honra e um prazer enorme também aprender com eles.

Mas, fechando esta série de Histórias de Vida eu gostaria de agradecer a todos leitores que me escreveram, e me desculpar com aqueles a quem não respondi.

Estou numa vida de nômade e mesmo a pintura, a música e os desenhos estão em atraso. Deixar a vida me levar é um bom sentimento, principalmente se tiver um bom automóvel por perto.

LV

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