Durante a realização do 1º Käfer Treffen de Ribeirão Preto houve a distribuição do “Prêmio Alexander Gromow”, criado pelos organizadores do evento, em várias categorias, entre elas Fusca Mais Antigo, Fusca Destaque e Fusca Mais Distante.

As placas para os premiados e homenageados cuidadosamente preparadas para a entrega (Foto: Ighor Toth)

A história do Fusca Destaque, que chamou a minha atenção, segue abaixo, tanto nas palavras de seu dono, Ricardo Franco, quanto no relato de seu dono anterior, Fernando Fuhrken.

 

Relato do Ricardo Franco

“Como prometi, vou contar em mais detalhes a história de como adquiri esse Fusca de um engenheiro da VW, Fernando Fuhrken, uma pessoa admirável e também apaixonada por Fuscas e outros carros.

Foto da assinatura dos certificados de participação do evento, no caso o certificado do Ricardo Franco, que está segurando o seu prêmio (Foto: Ricardo Franco)

Minha família (avós, tios, pai, etc.) sempre teve Fuscas e eu sempre fui apaixonado por carros em geral. Mas foi em 1996 que a paixão por Fuscas se concretizou, quando adquiri um “Itamar” 93/94 prata a álcool, que na época estava com 38 mil km rodados. Eu o utilizava diariamente para trabalhar e ele nunca me deixou na mão. Em 1999 me casei e acabei vendendo-o barato (R$ 4.500,00) pelo fato de ele ser a álcool e ninguém querer carro a esse combustível naquela época; muitos até convertiam os veículos para gasolina. Uma pena, pois sempre gostei de carro a álcool e especialmente o Fusca “Itamar”, cujo motor boxer 1600 produz 5 cv a mais do que a versão a gasolina (58 x 53 cv), devido principalmente à alta taxa de compressão do motor a álcool, 11,0:1 ante 7,5:1.

Desde então me arrependi da venda e comecei a procurar outro em bom estado e original, mas defini que deveria ser um a álcool e na cor azul Saturno, uma das mais bonitas e raras dos Fuscas “Itamar”, fabricados de 1993 a 1996. Foi então que no início de 2018, durante uma pesquisa na internet, vi o anúncio dessa relíquia, em São Bernardo do Campo. Liguei imediatamente para o telefone do anúncio e o proprietário disse estar no trabalho e só poderia me atender após o expediente.

Fiquei contanto as horas para ligar mais tarde, à noite, e finalmente consegui falar com ele, o engenheiro da Volkswagen Fernando Fuhrken, carioca e que trabalha e mora em São Bernardo do Campo. Ele contou ter comprado o carro do primeiro dono, em 2012, e que havia sido paixão à primeira vista também, pois, como eu, ele também gosta muito dessa cor e da versão a álcool.

Conversamos bastante sobre o carro e ao final da conversa eu disse que iria a São Bernardo do Campo já na madrugada do dia seguinte para não haver risco de ele recuar na venda. Ele relutou um pouco e então eu disse que eu estava indo para ver o carro e se eu gostasse (tinha certeza que iria gostar pelas fotos e relatos dele) compraria o carro e já viria rodando com ele para Ribeirão Preto; caso contrário, voltaria de ônibus.

Chegando lá, o carro era realmente o que eu imaginava, com o hodômetro mostrando os seus 60 mil quilômetros originais, e prontamente fechei negócio. Percebi que o Fernando ficou um pouco triste, pois ele o estava vendendo somente porque estava um pouco cansado de carros antigos, pois sabemos que dão trabalho e sai caro mantê-los. Foi então que ele me disse que se eu resolvesse vender o carro algum dia ele o compraria de volta.

Após a feliz compra, fiz uma revisão geral no carro, pois sou extremamente detalhista e quis deixar tudo 100%, inclusive comprando algumas (caras) peças originais na internet, como aro do farol, cinzeiro traseiro (faltava), luz interna de cortesia, entre outros itens. Depois disso, comprei um kit de injeção da Kombi a álcool original com a intenção de instalá-lo no Fusca, mas até agora tem-me faltado coragem para executar esta adaptação, devido à originalidade do carro.

Mas após conversar com o Alexander Gromow me animei, ao perguntá-lo se ele instalaria injeção eletrônica se tivesse um Fusca Itamar, pois ele prontamente me respondeu que sim, pois melhora bastante o funcionamento do motor. Só me falta agora coragem para instalar, já que a originalidade do carro será afetada.

Conheça o Ricardo Franco: ele é brasileiro, 50 anos, nascido e criado em Sales Oliveira, SP, região metropolitana de Ribeirão Preto. Engenheiro agrônomo formado pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), trabalha há 28 anos na multinacional chinesa LongPing High Tech, sucessora da Dow AgroSciences Sementes.  É apaixonado por carros, motos, aviões e máquinas em geral.

 

Relato do Fernando Fuhrken

“Desde que me entendo, sempre gostei muito de carros. Dentre as marcas “populares”, a minha predileção sempre foi pelos Volkswagen.

Coincidentemente, dirigi os primeiros Fuscas nos anos 90, ainda adolescente, modelos da década de 60. Eles eram carros de serviço de uma fazenda no norte do estado do Rio de Janeiro e eram do pai de um amigo meu. Era espetacular verificar a valentia dos Fuscas, que mesmo “trintões” e maltratados, tinham excelente desempenho nas péssimas estradas enlameadas da fazenda. Manutenção era algo que estes carros desconheciam e ainda por cima eram usados por diferentes funcionários. Para mim e meu amigo os Fuscas eram usados nas férias para pescar, procurar bambu e ir até a cidade próxima (eles ficavam estacionados no limite da fazenda, antes das vias públicas).

Numa ocasião, fomos de Fusca a uma cachoeira numa pirambeira. Estacionamos e descemos uma trilha. No retorno algumas horas depois, para nossa surpresa não encontramos o Fusca! Não achamos improvável que alguém o tivesse roubado, porque a chave de ignição era um dos “opcionais” que ele já não tinha mais. Quando, conformados, começamos a descer a pirambeira para uma caminhada de vários quilômetros, avistamos o Fusca “estacionado”. Aconteceu que, como a pirambeira era muito íngreme, o freio de estacionamento cedeu e o Fusca desceu sozinho uns 30 metros de ladeira em curva! Foi um único valente mourão que amparou o carro, senão ele teria caído num precipício.

Passados uns 20 anos dessa história e uns 30 carros depois, decidi-me em 2010 a comprar um Fusca. Acabei encontrando este que hoje pertence ao Ricardo.

Foto do carro do Fernando depois de adquirido em 2011 e  que viria a ser do Ricardo. A foto é num posto da via Dutra no caminho do Rio para Volta Redonda; a senhora é a mãe do Fernando (Foto: Fernando Fuhrken)

O carro atendia a todos os pré-requisitos que eu buscava: era um “Itamar” a álcool, com a carburação dupla original e em excelente estado. Fui defensor ferrenho do retorno da produção do Fusca em 1993 e, portanto, os “Itamar” são os meus prediletos. Esse Fusca havia sido tirado 0-km por um senhor idoso que havia tido muitos Fuscas “nos anos áureos”. Depois de algum tempo, este senhor se apercebeu de que o Fusca não dispunha dos confortos dos carros modernos.

Por fim, o Fusca acabou sendo relegado e ficou hibernando numa garagem por 15 anos. Uma curiosidade é  que a garagem onde o carro ficou guardado era escavada num terreno em declive e não exposto à luz solar e à umidade. Isso permitiu a manutenção da integridade do carro, que ficou nesses 15 anos de hibernação em plena Ilha do Governador, no Rio de Janeiro — local de maresia feroz!”

Vamos conhecer o Fernando Fuhrken: ele é engenheiro mecânico formado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC Rio). Trabalha no conglomerado VW há 18 anos. Tem 44 anos e é nascido e criado em Ipanema, no Rio de Janeiro, e morou um ano na África do Sul pela Volkswagen.

Fica aqui o registro das três etapas na existência deste Fusca “Itamar”, um carro que está fazendo história. Fica aqui também o meu agradecimento ao Ricardo e ao Fernando por terem participado deste trabalho.

AG

A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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