Sempre se questionou por que diabos o Brasil tem a Embraer, mas nenhuma fábrica brasileira de automóveis. A resposta veio no ano passado.

 

Entrevistei o Dr. Carlos Alberto de Oliveira Andrade em abril de 2012 e publiquei artigo que tinha como título “O sonho do Dr. Caoa”. O texto começava assim: “Nenhum empresário do setor de automóveis no Brasil desperta tanta controvérsia como o Dr Caoa”.

E terminava assim:

“Além de importar e comercializar automóveis, o grupo Caoa foi muito além e investiu pesado para instalar uma fábrica em Anápolis (GO). Tem licença da própria Hyundai para fabricar os caminhõezinhos HR e HD 78. Monta também a antiga versão do Tucson e se prepara para produzir a nova (ix35) nos próximos meses.

E tem um sonho: fabricar um automóvel nacional. “Como assim, Dr. Caoa?”.  Resposta na ponta da língua: “Já tem um escritório de design na Itália elaborando uma nova e moderna carroceria para a plataforma do Tucson. Estou negociando com a Fiat (que já lhe fornece os motores Diesel para o HD 78) um motor nacional para equipar o novo carro. Faço com os coreanos o mesmo que eles fizeram com os japoneses: começaram fabricando e copiando seus produtos, depois desenvolveram seus próprios automóveis”. Será que o Dr. Caoa é o João Gurgel que vai dar certo?

Deu. Ele não copiou os coreanos mas foi muito além: assumiu no ano passado o controle da operação da Chery no Brasil, manteve os chineses como sócios e continua fabricando seus modelos em Jacareí (SP) e Anápolis (GO), onde ainda produz também modelos da Hyundai. Golpe de mestre: o que era encrenca para os chineses virou sopa no mel para o grupo Caoa. O consumidor, até então desconfiado da marca e da precária rede de concessionárias, foi conquistado pela credibilidade e know-how do grupo no mercado.

O Dr. Caoa está reescrevendo a história da nossa indústria automobilística, que jamais teve uma grande fábrica nacional, mas apenas tentativas fracassadas como as do Eike Batista (jipes JPX em MG), João Gurgel (jipes e compactos em SP), Mário Araripe (Troller no Ceará), Puma (esportivos em São Paulo) e algumas outras já fechadas ou em ritmo cambaleante.

Não me esqueço do João Gurgel contando que, durante seu curso de engenharia, um professor pediu que cada aluno desenvolvesse um projeto. João levou o de um automóvel e foi repreendido: “Automóvel não se produz, compra-se”. Desafiou o professor, chegou a produzir dezenas de milhares de jipes e carros compactos, mas deu no que deu.

O desafio do Dr. Caoa é muito  mais consistente, pois assumiu uma fábrica em funcionamento,  compartilha seu know-how e tem futuro arquitetado com vários lançamentos definidos a curto e longo prazo. Não se trata de mais um aventureiro, pois tem sólida experiência no setor, desde a linha de montagem até o desenvolvimento de uma rede de concessionários, na logística de distribuição, marketing, pós-venda e peças de reposição. Representou marcas importantes como a Renault (antes de os franceses estabelecerem fábrica no país), Ford (está entre os maiores concessionários da marca no mundo), a coreana Hyundai e a japonesa Subaru.

Quando a Hyundai ainda construía sua fábrica em Piracicaba, visitei a empresa na Coreia do Sul. Numa entrevista com seus diretores, comentei sobre seu importador no Brasil. De como um médico na Paraíba tornou-se o maior empresário do setor automobilístico no país. E, para provocá-los, as controvérsias levantadas por seus exageros publicitários. As brigas com a imprensa (inclusive comigo) e com o órgão de ética da propaganda, o Conar. Os coreanos fingiram que me ouviam com muito interesse e, ao final, só comentaram — pragmaticamente — que o “doutor” fazia o melhor trabalho de marketing institucional da marca no mundo…

A imprensa sempre questionou por que diabos existe no Brasil a Embraer, detentora da mais complexa tecnologia aeronáutica, muito mais sofisticada que a automobilística, e nenhuma empresa genuinamente brasileira entre as nossas dezenas de fábricas de automóveis.

Quem deu a resposta foi o Dr. Caoa…

BF

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

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