Consegui de novo. Bem, quase. Semana passada, peguei estrada num dia de semana, sem tanto trânsito e sozinha. Não foi tão legal quanto da outra vez mas ainda assim valeu a pena. Também foi um percurso mais curto, de apenas 150 quilômetros, mas deu para abrir o teto solar, colocar meu pen drive de músicas super-selecionadas e ir e voltar cantando como só eu tenho coragem (e falta de senso do ridículo) de fazer.

Desta vez tive menos sorte e peguei alguns tranca-ruas – não aquela entidade da Umbanda, mas sim motoristas daqueles que empatam o trânsito. Confirmei minha teoria aqui exposta há algum tempo. No caso dos paulistanos, os motoristas estão ficando burros com tanto radar e perderam totalmente a noção de velocidade adequada e até mesmo de velocidade permitida. Parece que se não tem radar não adianta ter placa indicativa de máxima que não é respeitada. O irônico é que estou falando de velocidade máxima e de motoristas que passam muito abaixo dela por causa dos radares. Entenderam a dicotomia disto?

Ainda antes de entrar na estrada, em plena marginal Pinheiros, num longo trecho onde a máxima permitida é 90 km/h (foto de abertura) estava eu trafegando pela pista mais à esquerda quando tive de frear para permitir que um Jetta bem antigo com adesivo de um bar do interior cobrindo todo o vidro traseiro entrasse na minha frente, vindo de duas faixas à direita. Até aí, paciência. Era um trecho no qual não havia como ir para à esquerda, mas vá que o sujeito precisava ajudar alguém parado no acostamento? Sei lá, por isso, dou passagem. Talvez ele realmente precisasse entrar naquela pista. Como sempre, observei o jeito de dirigir: braço esquerdo pendurado pela janela, entrou sem sinalizar forçando minha freada. Acendeu uma luz amarela no meu cérebro. Mas, até aí, fiquei apenas mais atenta. O problema é que o sujeito andava devagar e abriu uma distância gigantesca dos carros à frente dele.

Sempre tento a técnica Bob Sharp de pedir passagem. Coloco o carro atrás dele o suficiente, teoricamente, para que ele me enxergue com a visão periférica e acabe me dando passagem. Mas como sempre acontece comigo… nada dele me dar passagem. Como eu já disse não sei se dou azar de pegar motoristas não dotados de visão periférica, se é que isto é possível, ou se eles me vem mas acham minha carinha muito meiga ou me acham incapaz de andar rápido. Aí tento a forma mais brasileira de pedir passagem: seta para a esquerda. Novamente, nada. Cansada e sem visibilidade para ir para a direita para fugir do tranca-ruas, apelo para o farol alto. Eis que o moçoilo continuou como dantes e uns metros adiante aponta com aquele braço que já estava pendurado porta afora um radar para mim. OK, na marginal tem muitos. Mas o trecho em questão era de máxima 90 km/h, com muitíssimas placas avisando isso. O marcador digital do meu carro indicava 65 km/h. Como eu estava acompanhando exatamente o carro à minha frente, ele estava pelo menos 25 km/h abaixo da máxima permitida e na pista mais a esquerda. E aí? Qual o problema de ter radar se você está tão abaixo do limite? Novamente, acho que o excesso de radares emburreceu os motoristas paulistanos. Ou vai ver que alguns já eram e agora apenas têm uma desculpa…

Carro fora do centro da pista atrapalha sobrepassagens (Foto: brasilturis.com.br)

Joguei meu carro um pouco para a direita, olhei o quanto pude, confiei na luz de ponto cego do carro e mudei de pista imediatamente torcendo para que São Cristovão ainda olhasse por mim apesar de alguns dias de atraso. Fiquei emparelhada com o sujeito mas, para minha felicidade, logo em seguida pude me adiantar e acelerar para seguir em frente. Mais adiante, voltei para a esquerda. Adivinhem o que o motorista fez? Claro!, foi para a direita, acelerou tudo o que não tinha acelerado nos últimos, sei lá, 5 quilômetros e veio atrás de mim. Entrou na pista da esquerda e colou em mim. Calmamente, mas por sorte em seguida, sinalizei e fui para a pista da direita, dando passagem ao agora apressado que obviamente gritou algo para mim que minhas lindas músicas e o vidro fechado não permitiram que eu ouvisse. É mole?

De memória, posso listar algumas violações o Código de Trânsito Brasileiro que o nada distinto motorista cometeu:

• Capítulo III – Artigo 29 – I – a circulação far-se-á pelo lado direito da via, admitindo-se as exceções devidamente sinalizadas

• Capítulo III – Artigo 29 – IV – quando uma pista de rolamento comportar várias faixas de circulação no mesmo sentido, são as da direita destinadas ao deslocamento dos veículos mais lentos e de maior porte, quando não houver faixa especial a eles destinada, e as da esquerda, destinadas à ultrapassagem e ao deslocamento dos veículos de maior velocidade;

• Capítulo III – Artigo 29 – IXa ultrapassagem de outro veículo em movimento deverá ser feita pela esquerda,

• Capitulo XV –Das infrações – Artigo 198

Deixar de dar passagem pela esquerda, quando solicitado.

Infração média

Penalidade: multa

• Capítulo XV – Das infrações – Artigo 192

Deixar de guardar distância de segurança lateral e frontal entre seu veículo e os demais, bem como em relação ao bordo da pista

Infração: grave

Penalidade: multa

(esta última por duas vezes, quando entrou na minha frente forçando-me a frear e quando colou em mim apenas porque eu pedi passagem)

Isso sem falar em ultrapassar pela direita, que foi o que ele fez e me obrigou a fazer (tecnicamente, minha manobra foi uma sobrepassagem, mas…)

Aí percebi outra coisa. Além de todos os erros cometidos pelo folgado motorista, eu não conseguia ir para a direita porque apesar dele andar pela pista da esquerda, circulava com o carro não pelo centro da faixa, mas muito mais pelo lado direito, impedindo que eu mudasse de pista pois me bloqueava o mínimo de visibilidade que ultrapassar pela direita permite. Numa das estradas de pista dupla que peguei naquele dia me aconteceu a mesma coisa. Custei a sobrepassar um carro lento pela faixa da esquerda pelo mesmo motivo.

Que visibilidade tem quem vem atrás do carro da faixa mais à esquerda? (Foto: carrobonito.com)

Numa cidade como São Paulo, na qual há literalmente milhões de motos que usam o corredor para circular entre os carros, mudar de pista não é coisa para amadores. Por óbvio, muito menos para quem não tem total visibilidade – logo, tentar essa manobra quando o carro à nossa frente em vez de andar no centro da pista o faz com as rodas sobre a linha à direita, pior ainda. Temos de colocar mais de meio carro para poder enxergar alguma coisa se não tivermos alguém no banco do carona que possa nos ajudar. Isso, claro, sem falar nessa mania de andar pela esquerda como se tivesse comprado a pista — como diz o Bob, com escritura de papel passado e tudo. (foto 4)

Mania de andar pela esquerda (Foto: Lucas Lacaz Ruiz/Estadão Conteúdo

Bom, mas fora esse início de jornada desagradável, que todos os que dirigimos muito encontramos em algum momento, foi uma viagem superagradável. Como em alguns dias ia receber a visita de uns amigos com os quais fui assistir o show do Bon Jovi em São Paulo aproveitei para relembrar algumas músicas. Mas também curti as antigas de Santana e a maravilhosa versão de Bill Withers de Ain’t no Sunshine. E muito Etta James. Ou seja, eclética, como sempre.

Durante vários quilômetros tive a agradável companhia de um Renault Captur. Aliás, essa é outra característica minha. Assim como fujo de motoristas que considero potencialmente perigosos — carros sem luz de freio, motoristas que digitam enquanto dirigem e coisas desse tipo — gosto de ficar perto daqueles que considero bons volantes. Foi o caso do rapaz do Renault. Talvez ele fizesse a mesma coisa, pois andamos juntos por muito tempo. Rápido e correto, dirigia muito parecido a como eu mesma dirijo. Engraçado que parece que muitos devem pensar como eu, pois é frequente acontecer isso na estrada.

Um tempo atrás, na Castello Branco e depois na Raposo Tavares fizemos mais de 80 quilômetros com outro carro, sempre juntos. Começou com um pedido de passagem, prontamente atendido pelo meu marido e depois “devolvido” pelo outro motorista. E daí por diante várias vezes, dada a diferença de potência dos motores e, claro, à guisa de brincadeira pois muitas vezes nem na faixa da esquerda estávamos. Quando o outro carro saiu da estrada para entrar numa cidade, deu dois toquinhos de buzina, à guisa de despedida, obviamente respondido pelo meu marido. Devo dizer que chegamos a nosso destino com um sorriso no rosto. Às vezes, dirigir pode ser um enorme prazer.

Mudando de assunto: que final de semana para quem gosta de automobilismo! Começo meus comentários pela Fórmula 1. Nunca havia visto um treino tão emocionante como este da Hungria. Incrível! Tanto que vi o videotape também. E a corrida, como sempre, fantástica. É um dos meus circuitos favoritos e claro que não canso de ver a ultrapassagem de Piquet sobre Senna em 1986. Tem pilotos especializados em largadas, outros em constância para marcar pontos, outros em velocidade. Ricciardo tem sido um espetáculo nas ultrapassagens. Perfeição define. Gasly merece palmas apesar do pouco que foi mostrado pelas câmeras, mas um novato ter conseguido terminar em sexto lugar numa corrida como esta é digno de nota. Gostei do desempenho do Bottas e acho que Vettel fechou demais a curva e por isso quebrou o bico do carro do finlandês, mas sempre leva a melhor e não é punido ou quando é, apenas de leve. Kimi, novamente, ótimo. Hamilton, impecável e Alonso simpático e carinhoso com a equipe pelo que ouvimos no rádio, também como sempre. Mas também vi as duas corridas da GP2, da Fórmula 3, o final da Fórmula Truck, o final da Indy, um pedaço da Nascar, a Porsche Endurance e parte da Motovelocidade. Esqueci alguma coisa? Certamente, mas também não fiz nada das coisas que tinha que fazer da minha vida pessoal. Destaco a lindíssima ultrapassagem do Tveter sobre o Illot na última volta da GP3. E para comentar o resto precisaria de um monte de espaço. Afinal, dormi menos de 8 horas em dois dias para ver tudo, imaginem para comentar…

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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