No ano de 2003 resolvi aprender a usar softwares para desenho 3D, técnica que eu ainda não dominava. Escolhi o programa chamado “Rinoceros”, que é um programa muito intuitivo, e comecei sozinho a aprender como criar superfícies matemáticas no espaço virtual.

As superfícies matemáticas são criadas a partir de linhas, controladas por “control points”, ou pontos de controle da linha, que servem de “bordas” que determinam a superfície, que nascem sobre a influência das mesmas.

Dentro da própria superfície existem mais pontos de controle com os quais você pode manipulá-la, torná-la mais curva ou menos curva. O grande segredo é observar como a luz se comporta nessas superfícies, criando “high lights” ou linhas de luz, que devem ser fluidas e sem “acidentes”.

Existes várias ferramentas de controle, que simulam a luz, vinda de um ponto determinado, que nos ajudam a analisar a qualidade da superfície. Entre uma superfície e outra, normalmente temos as passagens, que são superfícies formadas por raios ou curvas, que fazem a união de uma superfície para outra.

E assim, você vai criando os vários planos que no final formam a superfície completa do automóvel. A superfície de um carro é composta então de centenas de “retalhos” de superfícies, que chamamos de “patches”.

Um trabalho que exige muita paciência e conhecimento, realizada por profissionais que chamamos de alisadores de superfície, extremamente procurados e muito valorizados pela indústria. O salário de um bom alisador nos dias de hoje pode chegar a € 90 (perto de R$ 400) POR HORA!

Mas eu nunca tive a intenção de trabalhar como alisador, mas simplesmente aprender mais alguma técnica que me permitisse realizar “sketches” tridimensionais básicos, também para treinar o cérebro, e assim, evoluir como desenhista e ser humano.

Como o programa pode ser instalado em um bom notebook, a atividade me ajudava a passar o tempo nos longos e frequentes voos sobre o Atlântico. Desenhei muitos carros durante os voos, ou nos quartos de hotel, onde passei muitos anos de minha vida.

Justamente quando eu estava aprendendo esta nova disciplina, encontrei um chamado da revista americana Motor Trend para um concurso sobre carros do futuro, e resolvi fazer minha proposta e enviá-la, mais como um desafio do que com uma pretensão real de competir. Neste caso, o conceito, a ideia, seria mais importante do que a qualidade da superfície em si.

Então pus em prática uma ideia que há muito eu vinha ruminando na cabeça. Eu já vinha antevendo que os carros com motores elétricos seriam uma realidade em um futuro próximo, mas meu conceito não falava somente sobre motores elétricos, mas sobre muitas outras possibilidades.

Com o desenvolvimento do “drive by wire”, que era a substituição de sistemas mecânicos por elétricos, imaginei um carro que pudesse ser um simulador de carros, isto é, eu poderia escolher entre vários “pre-sets” reações e sensações de qualquer carro.

Por exemplo, numa sexta-feira à noite eu escolheria um Lamborghini e então, o carro assumiria reações típicas deste carro. O som do motor, que era gerado artificialmente no sistema pelo sistema de som do carro, imitaria um 12-cilindros de alta potência, com som estridente, e reações de acelerador muita rápidas e movimentos curtos. Toda a potência dos quatro motores elétricos seria acionada com força total no arranque, a suspensão eletro-hidráulica seria de ação curta e dura, e a atitude do veículo seria baixa. As vibrações da carroceria acompanhariam o som do motor, passando através dos bancos, que teriam sua densidade modificada para maior dureza, e o volante, sua vibração.

Para uma segunda-feira de ressaca eu optaria por um Cadillac, ou Bentley, com motor V-8, de som suave e abafado. Eliminaria todo tipo de vibração e teria um suspensão macia. Os comandos seriam mais suaves, com maior curso do pedal de acelerador, iluminação dos instrumentos azuis, que eram simulados pelas telas de LEDs com uma grande variedade de desenhos de instrumentos disponíveis para escolha.

Os bancos teriam a suas espumas infladas, passando uma impressão de poltronas confortáveis e, é claro, eu utilizaria a função de piloto automático (verdadeiro, não apenas o controle de velocidade) me deixando livre para ler meus e-mails, ou assistir ao noticiário do dia, ou checar minhas redes sociais.

Os vidros seriam escurecidos para maior privacidade, o que me permitiria tirar uma soneca até eu chegar ao escritório!

Os dois bancos dianteiros podiam ser girados para o interior do veículo, onde eu teria um lounge ou escritório com uma grande tela para assistir, TV, filmes ou conversar ao vivo com minha esposa em casa, enquanto eu via o que ela estava preparando para a café das crianças.

Faltava eu escolher que “body style”, ou forma de carroceria, eu escolheria para o veículo. Na realidade, para realizar o conceito eu precisaria de muito espaço interno, e por isso eu escolhi desenhar uma Kombi do futuro, mesmo porque este carro era e ainda é icônico nos Estados Unidos. Devo confessar que uma das razões por esta escolha era a simplicidade de forma da Kombi, praticamente uma caixa, que chamamos de “soft box”.

Devido à pressão de tempo, pois a entrega do trabalho era logo ali, passei uma semana
debruçado no projeto, trabalhando dia e noite.

Além de criar a superfície externa e interna, eu tinha que gerar “snap shots” ou imagens, para montar a apresentação, com toda parte descritiva do projeto, pois esta era na época a maneira usada e pedida pelos organizadores do projeto.

Pois terminei tudo na última hora e enviei, via e-mail, a apresentação para a Califórnia e praticamente esqueci do assunto, voltando aos problemas cotidianos do estúdio.

Qual não foi minha surpresa, depois de um mês, quando recebi uma carta do diretor da revista me convidando para ir à Califórnia, com todas despesas pagas, pois eu tinha sido selecionado entre os 10 finalistas. Meu chefe na época torceu o nariz, mas acabou me liberando por cinco dias para a viagem.

Era a primeira vez que eu ia à Califórnia, e fiquei espantado com a grandeza do evento, que seria realizada em uma grande ala, próxima aos estúdios da Walt Disney.

Pois na hora marcada lá estava eu, em frente a uma grande plateia de jornalistas e jovens designers para fazer minha apresentação com meu inglês macarrônico da época.

No dia seguinte nos reunimos novamente, e eu assisti, com grande expectativa a decisão dos juízes, que para fazer sofrer ainda mais decidiram começar do 5º colocado para o primeiro. Quando chegou o segundo colocado eu já havia perdido a esperança, mas para minha surpresa e espanto fui finalmente declarado como vencedor, em primeiro lugar!

Demorou para cair a ficha e subir no palco para receber meu troféu.

Tive ainda um fim de semana completo para fotografar alguns cemitérios de automóveis e belíssimos clássicos americanos estacionados no meio-fio em ruas transversais que acabou gerando imagens que transformei num calendário de pinturas eletrônico só para passar o tempo.

Mais uma vez, a iniciativa própria me mostrou que temos que acreditar no nosso taco, e nunca desanimar ou desistir de uma ideia.

A repercussão no Brasil foi mínima, todos mais preocupados com o Carnaval e a seleção brasileira.

Muitas das minhas ideias insinuadas no conceito de 2003 (15 anos atrás)  são hoje uma realidade, mas um carro como o que eu concebi não existe até hoje, embora tenha certeza de que em alguns anos ele vai existir, já que este tipo de híbrido, autônomo e manual com várias personalidades, poderá trazer de volta a emoção aos futuros e tediosos carros autônomos.

Uma das poucas reportagens sobre o prêmio no Diário de S. Paulo

LV

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