Esta é a parte 2, final, da história do “salvamento ” deste Santana GLS 1992.

O nosso heroico Santana GLS 1992, que foi salvo das garras do tempo por Jeison Paim, um gaúcho de Farroupilha, já chegou em São Paulo e está recebendo nas dependências da oficina restauradora Auto90 os últimos carinhos e chamegos que, agora sim, o transformarão em um carro praticamente zero-km.

Um orgulho para todos aqueles que se dedicaram arduamente à recuperação desse belíssimo carro os últimos sete meses , tempo total levado por todos os profissionais que trabalharam em sua restauração para que o nosso Santana GLS voltasse ao glamour que um dia já gozou quando foi comprado novo na concessionaria Davox, em São Paulo, para integrar a frota de 60 mil km da revista Quatro Rodas.

Para quem não leu a primeira parte dessa belíssima história, um curto e breve resumo: Esse Santana foi adquirido pela Editora Abril para compor a frota de carros que fazem o teste de longa duração, de 60 mil km, e que no final da prova é desmontado para que os técnicos avaliem como foi o desgaste dos principais componentes do carro testado.

Jeison, nosso amigo gaúcho que na época do início dos testes estava com nove anos de idade, acompanhava pela revista o quase um ano e meio que durou o teste. Hoje, um apaixonado por carros de época, descobriu depois de muita pesquisa onde estava o carro nos dias atuais e, por força do destino, o carro foi encontrado em uma pequena cidade, Sananduva, no norte do Rio Grande do Sul perto da fronteira com Santa Catarina e bem próximo das margens do rio Uruguai.

O destemido apaixonado por carros de época saiu em busca desse precioso tesouro e o encontrou servindo ao proprietário de um pequeno sítio na área rural de Sananduva. Comprou o carro e o levou para Farroupilha onde, com a ajuda de seu amigo também apaixonado por carros de época Denivan Vargas de Araújo que dirige e trabalha na oficina Auto90, iniciou o processo de restauração dessa joia lá mesmo em Farroupilha. O resultado final? É essa maravilha que você, leitor, vê nas fotos que selecionamos.

Não foi um trabalho fácil e um carro com mais de 26 anos de vida útil estava bem castigado pelo tempo, principalmente se considerarmos que dos seus 26 anos de vida dura, pelo menos por 20 anos ele rodou por estradas vicinais e sem pavimento no interior do Rio Grande do Sul.

Ao contrário de nós seres humanos, que não podemos trocar peças para remoçar, os automóveis, qualquer que seja a sua idade, com um pouco de carinho e amor podem voltar a ser novos, como nos dias em que saíram de suas revendas de origem.

Tudo que estava ao alcance de nossos amigos restauradores, tanto Jeison em Farroupilha quanto Denivan aqui em São Paulo, foi feito. Muitos obstáculos foram enfrentados no caminho, afinal de contas carros com mais de 25 anos de vida apresentam problemas de algumas peças de reposição. Mas esse fato não assustou nossos intrépidos amigos.

A grande novidade desse Santana GLS, em 1992, foi o surgimento do ABS no sistema de freio, auxílio eletrônico que evita o travamento das rodas nas frenagens mais duras, melhorando sua eficiência. Tanto que essa novidade técnica lançada nesse Santana GLS, foi que motivou a compra desse carro pela Quatro Rodas para o teste de longa duração. O sistema desenvolvido pela Bosch, na época era quase todo importado. E fazia frente aos sistemas que equipavam os carros chegados do exterior.

Claro que o longo tempo de vida desse carro danificou o sistema, que deixou de funcionar. Na simplicidade dos mecânicos do interior do Rio Grande do Sul foi muito mais fácil desativar essa complicada parafernália eletrônica do ABS (isso, é claro, na cabeça dos mecânicos mais simples do interior) e deixar o sistema convencional do freio em operação. A luz que acendia no painel indicando falhas no ABS, foi simplesmente desligada.

O motor 2-litros pronto para nova carreira

Mas nossos heroicos restauradores descobriram o defeito nos sensores das rodas traseiras, colocaram tambores de freios novos e o sistema, como num passe de mágica, voltou a funcionar normalmente. O grande trabalho foi, na realidade, encontrar os tais tambores de freio do Santana 1992. Mas com muita pesquisa, as tais peças foram encontradas e substituídas, a luz do defeito do ABS religada e o sistema, revigorado, está funcionando com a mesmo precisão que tinha em 1992. A equipe está de parabéns!

O mesmo estava acontecendo com o sistema de injeção eletrônica. Do tipo LE-Jetronic, também produzido e fornecido à Volkswagen pela Bosch. Utilizando ainda um sistema analógico, essa injeção eletrônica foi uma das primeiras e muito populares utilizadas pelos grandes carros alemães no final dos anos 70 e início dos anos 80. Simples, robusto e confiável, o sistema já era antigo quando chegou ao nosso Santana substituindo o carburador em 1992.

Funcionando em conjunto com o sistema EZK de ignição mapeada, essa dupla de injeção e ignição fazia do motor 2-litros da Volkswagen uma das melhores unidades motrizes fabricadas no mercado nacional. Conseguia , ao mesmo tempo, ser suficientemente potente para a época e apresentando baixíssimos índices de consumo quando comparados aos carburados da época de mesma cilindrada. Um motorzaço que esbanjava torque desde as rotações mais baixas e tornava o dirigir um ato bem agradável.

Acontece que na época tínhamos outra composição de gasolina e a injeção LE-Jetronic, burra para os dias atuais, não tem a competência de adaptar o sistema à composição atual de nossa gasolina, com bem menos enxofre e com cerca de 28% de álcool anidro. Jeison descobriu na cidade de Rio Claro, SP, uma oficina especializada em injeção LE-Jetronic e que seu técnico responsável era um antigo trabalhador da Bosch nos anos 90 que conhece profundamente bem a velha injeção analógica.

Todo o sistema foi mandado para essa oficina especializada que a devolveu tinindo como nova e, o que é melhor, apta para funcionar bem com nossa gasolina atual com pouco enxofre e muito álcool. Segundo Jeison nos relatou, o carro assim calibrado melhorou da água para o vinho e aquele funcionamento quadrado e áspero que apresentava antes deu lugar ao um funcionamento liso, silencioso e com um rodar perfeito. Um achado!

Ainda não tive a oportunidade de andar no carro, mas estou muito curioso para sentir o Santana que tanto viajei entre 1992 e 1993 em testes pela revista. Agora em São Paulo e hospedado na oficina Auto90, nosso Santana está recebendo alguns mimos que nem precisava, mas que vão realçar ainda mais sua aparência de carro novo. O sistema de escapamento está sendo totalmente substituído por um novo para desaparecer aquele ar de ferrugem.

Assinaturas no para-sol esquerdo de amigos que vivenciaram o Santana GLS de uma forma ou de outra

Além disso, as borrachas das portas e da tampa do porta-malas, ainda originais de 1992, estão sendo trocadas por borrachas novas, melhorando ainda mais a vedação do habitáculo. E até as pestanas por onde correm os vidros, ainda as mesmas de 92, serão substituídas por originais novas encontradas que estão sendo instaladas pela Auto90.

Para ver essa maravilha ao vivo? Talvez você, leitor, tenha a oportunidade de estar perto dessa máquina no Salão do Automóvel em novembro e no Bubble Gun Treffen, exposição mais popularmente conhecida como BGT, onde os donos de Volkswagen expõem suas máquinas na Praça Adhemar de Barros em Águas de Lindoia.

Acho que não é por coincidência que a placa do nosso heroico Santana é BGT desde de 1992!

DM

Leia a Parte 1

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