A necessidade de cumprir compromissos de minha fábrica me fez realizar a mais longa (e talvez insana) viagem praticamente ininterrupta estando ao volante.

Na verdade, parti de Garça (SP), onde moro, na terça-feira última (10/7) às 7h50 rumo ao município de Três Pontas (MG), chegando às 16h45 — 8h55min de viagem —, onde deveria dormir e retornar no dia seguinte com a encomenda que havia feito. Contudo, ao chegar ao destino, a mercadoria que eu necessitava com enorme urgência já se encontrava pronta.

Carreguei a Saveiro e tendo em vista que a mercadoria que havia ido buscar era crucial para a produção, e sem ela perderia praticamente a semana de trabalho e o mês de vendas, resolvi regressar imediatamente para chegar o quanto antes na empresa e retomar a produção.

Foi algo de estalo, sendo que coloquei na mente que caso me sentisse cansado e começasse a querer “pescar”, pararia na primeira cidade ou posto de combustíveis e dormiria nem que fosse algumas horas. Mas no final acabou não acontecendo.

Com tantas horas ao volante e sendo um autoentusiasta acima de tudo, é invariável que se comece a prestar atenção em detalhes e tecer observações que acabei reunindo e resolvi compartilhar com o leitor. Foram observações que foram vindo à mente durante o trajeto, ajudando e muito a me manter atento e até mesmo a matar o tempo e enganar o cansaço.

Como se trata de observações, algumas de caráter bastante subjetivo, é natural que muitos discordem e percebam os fatos de uma maneira distinta da minha, mas de todo jeito deixo-as registradas por aqui na forma de pequenas notas.

• Foram 14 horas e 50 minutos ao volante, 1.167 quilômetros percorridos, com aproximadamente 90,6 litros de combustível consumido, a uma média de 12,9 km/L de acordo com o computador de bordo. Saí exatamente às 7h50, chegando ao destino às 16h45, num total de 8h55min, tempo global incluindo as paradas. Se formos considerar apenas o tempo ao volante teremos 7h23min na ida. A volta, por sua vez, demandou mais tempo, 9h22′ e o tempo exclusivo no volante foi de 7h27min, praticamente o mesmo tempo, mantendo ritmo igual.

O Google Maps diz que o trecho tem 559 quilômetros cada perna. Então deveria ter rodado cerca de 1.118 km. Os 51 km a mais que rodei credito aos retornos que fiz para chegar a postos de combustíveis. Incluíram o caminho que fiz por dentro de Poços de Caldas, MG (mais longo que o indicado no Google Maps e que comentarei mais adiante), além do que rodei em Três Pontas e mesmo em Garça.

Se considerarmos que a diferença de tempo entre o tempo ida e o de volta foram insignificantes 5 minutos, podemos concluir que a velocidade média foi de 78 km/h, o que pode ser considerada alta.

• Já que o assunto é velocidade, graças a Deus cruzei com poucas “muriçocas” pelo caminho. Explicando o que são “muriçocas”, trata-se da série de caminhões Mercedes-Benz L-1113 e família (1313, 1513, 1516, etc.), apelido esse dado pelos próprios caminhoneiros. Projetados para rodarem com peso bruto total entre 11 e 22,5 toneladas conforme a versão, essa família de caminhões, por se tratar de veículos mais antigos, não têm motores lá muito potentes. O OM352 produz no máximo 167 cv nos modelos 1318/1518 e considerando que muitos desses veículos andam com sobrecarga, eles simplesmente entopem o trânsito. Atualmente até os pequenos caminhões para 8 toneladas de peso bruto total têm motores de 160 cv, subindo e descendo como um carro.

• Admirei o estado das estradas mineiras por onde passei. Comparado com a última vez que estive no estado, sete anos atrás, elas estão sem buracos e com um bom asfalto. Os “dejetos viários” (como diz nosso editor Bob Sharp), no entanto, continuam lá, firmes e fortes, de tamanhos diversos, desde os pequenos tipo uma costela até aqueles grandes. Todos devidamente mal sinalizados.

• Outra coisa que observei em Minas foi a quantidade de radares nas travessias de cidades. E programados para multar a 60 km/h ou a 40 km/h, dependendo da cidade. Apesar do baixo limite e do radar, eles são muito mais coerentes e naturais no tráfego do que os trechos de 80 km/h “por dentro de cidades” (entre aspas mesmo), como vemos nas rodovias paulistas, verdadeiras arapucas arrecadatórias. Na Rodovia SP-300 Marechal Rondon, em muitas cidades que ela margeia o limite é reduzido para 80 km/h e todo mundo andando devagarzinho, como se fosse uma carreata de político…

• Acho que pelo fato de terem muitas estradas de pista simples, os mineiros são muito educados com os faróis, comutando baixo/alto conforme se cruza com outros carros. Os paulistas, por sua vez não são lá muito preocupados com isso…

• A paisagem do trecho de serra do Sul de Minas é fabulosa. Um espetáculo à parte que por si só vale o passeio. Só tem que tomar cuidado para não olhar muito para as belas paisagens formadas pelo relevo, as pedras e o cafezal e se distrair da estrada.

• Sobre isso, uma belíssima paisagem digna de nota eu vi no trecho paulista, passando por Pirassununga: uma belíssima plantação de girassóis chamando a atenção de muitos que ali passavam com alguns parando para ver e fotografar.

• Falando sobre combustíveis: até no estado de São Paulo é necessário ter olhos bem atentos ao nível de combustível. Mesmo havendo diversos postos ao longo do caminho, alguns não tem boa aparência ou então estão localizados fora dos acessos fáceis. Como nem sempre temos aquilo que queremos, é só o combustível estar baixo que nenhum posto de gasolina “a mão” ou nas proximidades aparece… Já que estamos falando de combustíveis, os primeiros 200 quilômetros  foram feitos com E75 (75% de álcool e 25% de gasolina — sendo que considero até o álcool contido na gasolina para a proporção). Consegui fazer 11,7 km/L andando a 120 km/h, um consumo que achei muito bom. Os trechos restantes fiz com gasolina, tendo o cuidado de assegurar que entraria e sairia de Minas Gerais sem ter que abastecer: infelizmente a gasolina por lá custa R$ 4,99 e o álcool, R$3,09. No primeiro abastecimento com gasolina paguei R$4,27 e nos demais, um num posto de Águas da Prata, paguei R$4,14. O álcool nos dois lugares estava custando R$ 2,49.

• E falando em abastecimento, o primeiro posto que abasteci (aquele que paguei R$4,27/L) tem uma unidade de medida diferente: o “litro-combustivel”. Você chega lá e descobre que o litro deles vale cerca de 900 ml… Pelos indicadores de consumo e distância do painel, devidamente zerados a cada abastecimento completo que faço (e somente abasteço o tanque por completo), deveria ter gasto 39,5 L de combustível, devendo caber esse valor com um erro de 1 L para mais ou menos. E é assim que ocorre em todos os abastecimentos que faço (nos mesmos postos) em minha rotina diária. Entretanto neste posto, em vez de 39L a conta foi de 44!!!

• Já que o assunto são furtos, golpes, etc., Google Maps é muito útil mas requer um cuidado. Em Poços de Caldas, como conheço o trecho de outras viagens que fiz ao sul de Minas Gerais, tenho o hábito de cruzar a cidade “por dentro”. Nunca o fiz por fora e exatamente por isso não me incomodei muito com as instruções do Google. Na volta no entanto, como já era noite acabei ouvindo o Google Maps apenas porque havia deixado ligado. Mas chegando a Poços de Caldas vindo de Campestre, se fosse seguir as instruções do Google, passaria por uns locais ermos e sem iluminação, lugares esquisitos mesmo. Se isso aconteceu comigo em Minas, imagine as histórias que escutamos de GPS levando motoristas a locais inadequados…

• Ainda sobre segurança, uma coisa que senti falta desde minha última passagem em Águas da Prata foi do Fusca 1974 que ficava em exposição no posto de Polícia Rodoviária Federal. Era bonito de ver o Fusquinha repousando ao lado das viaturas mais novas. Espero que ele esteja bem guardado na garagem de alguém que saiba preservá-lo. Confesso que essa foi a minha grande e única preocupação quando não o vi.

A fábrica da famosa “Água Mineral Prata”

Em Águas da Prata, já com a Saveiro funcionando com gasolina, observei pela primeira vez, de forma palpável, a proteção contra detonação dos motores. Subindo a serra já quase chegando a Poços de Caldas, a mais de 1.000 metros de altitude, acelerei para ultrapassar um veículo mais lento na faixa da direita. Pisei fundo e a aceleração veio vigorosa (como de costume) até que comecei a ouvir um grilado e logo em seguida uma redução na intensidade da aceleração. Era o processo de atraso do ponto de ignição em ação. Apesar de termos que considerar o fator altitude, em que a tendência à detonação diminui consideravelmente, o fator “combustível” do posto de litro equivalendo a 900 ml me deixou desconfiado…

• Sempre gostei de dirigir à noite. Se estiver chovendo, melhor ainda! Aguça os meus sentidos, me deixa desperto e atento.  Por outro lado, se dirigir em estrada em um dia de sol, especialmente se eu CONHECER a estrada, sinto um sono terrível, a ponto de eu ter que parar em postos de combustíveis e cochilar. Entretanto, para dirigir à noite (e com chuva!), o veículo tem que ajudar. Um bom jogo de pneus (faz toda a diferença, em especial na chuva), um carro confiável, sem qualquer falha daquelas que na aviação o pessoal chama de “no-go” e no mundo do carro o pessoal chama de “tá ruim mas dá pra ir”, além de um bom conjunto de faróis.

• Manter o carro confiável é de suma importância para realizar, de maneira descansada, uma longa viagem. Arrumar componentes desgastados, fazer a manutenção corretiva dentro de toda técnica e manter o veículo com peças corretas e de primeira linha representa o primeiro passo para um carro confiável, apto a uma jornada como essa. Imagine você ter que dirigir e de quebra ainda se preocupar se o veiculo vai ou não ficar pelo caminho. No trajeto que realizei, há um trecho de aproximadamente 50 quilômetros entre Pirassununga  e Aguaí (que o Arnaldo Keller conhece bem, sua fazenda em Pirassununga fica nessa estrada), em que você está literalmente sozinho, especialmente à noite. Dependendo da operadora, nem celular pega. Aí mais do que nunca a confiabilidade faz toda a diferença.

• E falando em dirigir à noite, algo que descobri que me incomoda é a iluminação dos painéis de hoje em dia. Diferentemente da minha ex-Saveiro CLi 1997 cuja iluminação era verde escura, a Supersurf 2004 que tive e a atual 2014 têm o painel em azul com os ponteiros e os acessórios e iluminação do rádio e botoeiras iluminados em vermelho escuro. O vermelho até não incomoda mas o azul beirando o branco da 2014 cansa a vista e pela primeira vez tive que abaixar a iluminação para uma viagem noturna boa. Lembrei do Hyundai i30 que meu pai possuiu. Tinha até um botão (complementando o reostato) que reduzia a luminosidade do painel instantaneamente. Com luminosidade total o painel da Saveiro parecia uma árvore de Natal…

O painel da Saveiro

• Outra coisa que me incomoda em carros são os conjuntos óticos. A Saveiro atual, diferentemente das anteriores, ilumina bem o caminho. A pior das Saveiros que tive ainda foi a primeira, CLi 1997 (embora a 2004 não fosse muito melhor). A Ford Ranger que tive também tinha uma característica engraçada. Era de bom costume usar os faróis de neblina junto com o farol baixo, por mais impróprio que pareça. Devido à forma e à posição, os faróis da Ranger iluminam mais à frente do que a linha visível de solo a partir do capô, deixando um pedaço de chão escuro, que só pode ser iluminado pelos faróis de neblina no para-choque. De todos os veículos que possuí ainda o melhor deles ainda foi o Golf Mk3 GLX. Com conjunto baixo/alto, cada um com sua parábola, os faróis iluminavam muito bem caminho transmitindo-me muita segurança.

Passando por São João da Boa Vista fiz essa imagem. Faróis adequados para uma viagem noturna tranquila

• A chegada próximo a casa da gente é outra coisa curiosa: ao mesmo tempo em que você sabe que está perto, o tempo parece que passa mais lentamente, vagaroso. E é justamente ai que mora o perigo. Você tende a se distrair mais, se deixando vencer pelo cansaço e mesmo não tendo sono, o famoso “dormir de olho aberto” te pega. Quando falo dormir de olho aberto é aquela sensação que você tem ao ver tudo acontecendo em sua frente como um filme e você continuar impassível, sem reação. Suponho que deva ser essa a sensação de quem se vale de anfetaminas para dirigir por horas a fio.

• Também é perto de casa que parece que as bobagens e incidentes se tornam mais propícios a ocorrerem. No meu caso, foi uma quase colisão com uma capivara, pertinho de Jaú. Se tivesse colidido, provavelmente teria danos no veículo a ponto de encerrar a jornada.

• Foram esses pensamentos, além das questões inerentes à empresa e me levaram a empreender tal trajeto. Nunca imaginei conseguir realizar tal feito, ainda mais levando em conta que até algum tempo atrás, devido a um problema de saúde, estava com dificuldade de dirigir por duas horas seguidas; 15, então, nem na mais otimista das perspectivas. Entretanto, em nenhum momento senti que estava fazendo algo perigoso ou arriscado, uma vez que estava consciente daquilo que havia me proposto a fazer, colocando sempre a segurança em primeiro lugar, ainda mais sabendo da limitação que tinha até pouco tempo atrás. Não pretendo fazer isso novamente, mas se for imperativo…

A “tanajura”, firme e forte

DA

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