Na semana passada publiquei um causo que me foi enviado pelo meu amigo Jun Takahashi. Hoje quero compartilhar com o leitor o que foi esse japonês, como trabalhamos juntos sem sabermos que, ainda na aurora da internet e da computação pessoal no Brasil, estávamos dando um enorme passo ao futuro.

Lembrando da história: o meu amigo, ex-colega de Siemens, e pioneiro da internet no Brasil, Aleksandar Mandic, costumava reunir seus ex-clientes e amigos dos tempos do BBS (Bulletin Board System) e de seu famoso e-mail “@mandic.com.br” para jantar. Foi numa destas ocasiões que eu sentei à mesa em frente de um jovem japonês.

No início do jantar se fizeram as apresentações de praxe e eu me apresentei dizendo ‘Alexander Gromow, muito prazer’; o jovem japonês me olhou incrédulo dizendo: “Você é o Alexander Gromow?”. Respondi que sim e até mostrei o meu RNE (cédula de identidade de estrangeiros), de tão incrédulo que o jovem estava. Aí ele se apresentou: “Meu nome é Jun Takahashi e é um grande prazer conhecê-lo”.

O Jun Takahashi (21/11/68-12/04/17) usando um quimono japonês fazendo jus à sua origem

Tinha chegado a minha vez de ficar com “cara de vírgula”. Mas ele rapidamente disse: “Eu usei por muitos anos o seu editor de texto em português para computadores pessoais da linha Sinclair, e quando eu carregava o programa aparecia o seu nome que, de tanto ver, eu decorei. Seu programa me ajudou muito, como jovem advogado, a ter uma vantagem competitiva em relação a meus concorrentes. Eu ia gravando as partes de texto de tal maneira que eu rapidamente podia compor causas adaptando o que já tinha sido escrito antes — isto acelerava em muito o trabalho quando os outros escritórios ainda não trabalhavam com computador. Ganhei muito tempo e dinheiro com o seu programa, obrigado.”

Para os nerds que estão lendo esta publicação e que têm noção da precariedade que era o acesso à computadores pessoais e periféricos na segunda metade da década de 80, eu explico que o Jun, além de seu TK-95 (equivalente brasileiro do Sinclair Spectrum inglês), tinha um bom gravador de fita K7 — que era o meio onde os programas e arquivos eram gravados, e uma interface mecânica que conectava o pequeno computador à uma máquina de escrever IBM 82C, de esfera, que, obviamente, permitia uma “qualidade de carta” nos textos impressos assim produzidos.

Era coisa que não existia naquela época, as poucas impressoras disponíveis eram matriciais que, além de imprimirem em maiúsculas, tinham uma qualidade de impressão ruim, que não poderia ser apresentada num processo a dar entrada num Fórum de Justiça. Ele tinha montado um equipamento muito moderno e avançado para a época, e tinha um software adequado ao trabalho.

Pois bem, como foi que este editor de texto surgiu? Naquele tempo os proprietários deste tipo de computadores sofriam com a falta de software, nós fazíamos grupos de troca de software e comprávamos revistas inglesas que traziam o software impresso que podia ser programado no computador. Depois de rodar o programa e eliminar seus erros de digitação, os programas passavam para uma fita K7 e podiam ser carregados “facilmente” nas máquinas e distribuídos para outros usuários.

Não havia um editor de texto em português, em especial com a nossa acentuação. Naquele tempo eu era colaborador da revista Microhobby, editada pelo Bruno Toppel, proprietário da Microdigital que fabricava aqui computadores TK-90 e TK-95, da linha Sinclair, e eu já tinha colocado várias matérias à disposição dos leitores da revista.

Eu decidi fazer a adaptação de um editor de texto inglês para o português. A tradução do texto das instruções para os usuários foi a parte mais fácil da coisa; a coisa pegou nos caracteres especiais que eu tive que desenhar um a um, pixel por pixel, num trabalho que consumiu muitas e muitas horas, mas que acabou ficando muito bom. Foi na fase de adaptação que eu acabei colocando o meu nome na página de abertura do software.

Quando o texto do programa, em linguagem BASIC nativa da linha Sinclair, foi publicado, o sucesso foi grande, mas… eu não tinha recebido um feedback como o do Jun antes, e naquele jantar do Mandic eu fiquei superorgulhoso em saber que o meu trabalho tinha sido muito útil para ele, e, certamente, para muitas outras pessoas também.

Foto escaneada da revista Microhobby, mostrando eu e o meu equipamento, que era bem completo e avançado: o computador Sinclair Spetrum inglês (com o cristal gerador de imagem adaptado para PAL-M), interface para comandar microdrives (fitas nativas Sinclair com capacidade maior e acesso rápido), dois microdrives, gravador K7, joystick para jogos, impressora matricial dedicada e interface para a impressora. Como monitor eu usava um televisor colorido. Era o que havia de mais moderno na época

 

Uma curiosidade sobre o upgrade que fiz em minha máquina:

O meu computador veio com a memória de 16 K (é K sim, só isto, nada de mega e giga; tera, nem em sonho) e eu comprei um fantástico upgrade para 48 K, e eu fazia muita coisa com esta máquina, inclusive cenas animadas para as aberturas dos vídeos do grupo de teatro amador da Siemens!

O sistema bolado por Sir Clive Sinclair era absolutamente genial, ele pensava muito além de seu tempo. Ele popularizou a computação pessoal no mundo com seus dois computadores pessoais de baixo custo o ZX81 (com teclado de membrana), absolutamente básico — gerava imagens preto e branco, mas completamente funcional; e depois o Sinclair Spectrum (com teclado de teclinhas de borracha) que emitia imagens coloridas e gerava bips sonoros que reproduziam músicas.

Uma das coisas que sempre me encantou naqueles tempos era como esta máquina fazia com que eu rapidamente chegasse ao limite da minha incapacidade, e ai a batalha era vencer o desconhecimento até “desgrilar” e poder passar adiante na programação de uma dada tarefa que eu tinha decidido fazer. Não havia acesso à internet como temos hoje e as consultas eram a livros e revistas especializadas.

Como não havia muitos programas para esta máquina, o jeito era fazê-los na raça e na coragem em muitas noites em claro. Eu simplesmente inventava o que fazer para ir aprendendo, como foi o programinha para automaticamente calcular a conversão da URV (Unidade Real de Valor – instituída em 1º de janeiro de 1993 para corrigir a inflação, até à entrada do real em 1º de julho de 1994). A URV no seu início tinha valor de 13,01 cruzeiros (Cr$) e terminou em 30 de junho de 1994 valendo 2.750 cruzeiros reais (CR$), e isso perdendo três zeros em relação ao anterior cruzeiro. O cruzeiro real foi instituído em 1º de agosto de 1993 como transição para o Plano Real.

Naquele tempo éramos programadores e hoje somos usuários, lutando para entender as especificações e o modo de usar programas que, na maioria dos casos, oferecem muito mais do que realmente precisamos…

 

Daquela noite em diante o Jun e eu ficamos amigos e, depois, com o advento do Facebook, o contato ficou diário, tínhamos ideias e conceitos que se harmonizavam o que consolidou ainda mais nosso relacionamento. E, quando eu estava garimpando causos para o meu Livro II, eu consegui motivar o Jun para enviar o causo que foi publicado na semana passada.

O Jun, além de seu trabalho como advogado, participava de várias entidades internacionais, nas quais ele era muito respeitado e admirado. Seu desaparecimento precoce foi um golpe para todos que lhe eram próximos.


 

Algumas palavras sobre a foto de abertura da matéria:

Esta foto foi tirada num dos encontros do Mandic do início da década de 1990, talvez 1993. O local era uma pizzaria na av. Rebouças que não existe mais. A brincadeira era cantar usando um catálogo de músicas. Na foto, da esquerda para a direita: o Klaus Bach, o Jun Takahashi (antes da operação de miopia, ainda com óculos), o Aleksandar Mandic e a Pamela. Sem dúvida alguma uma bela recordação do grupo de amigos reunidos pelo Mandic.

AG

A coluna “Falando de Fusca” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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