Semana passada contei aqui minha experiência de dirigir sem as mãos e sem olhar para a frente a 160 km/h durante alguns quilômetros. Como disse, o mais difícil é lutar contra o instinto e o hábito, pois, lembrem-se caros leitores, de que além da velocidade, eu tinha à minha frente permanentemente uma curva e não “corrigir” o volante é algo totalmente antinatural. Enquanto escrevo isto, sentada ao meu computador, parece mais fácil do que era sentada atrás do volante. Agora penso: “ué, mas a reta infinita é isso mesmo. Não precisa esterçar”. Ah, tá. Vai dizer isso para meu cérebro, na hora do “vamos ver”. Garanto que não é fácil. Como reza o ditado popular, na prática, a teoria é outra.

E digo isso tranquilamente, pois tenho o hábito de fazer diversos testes enquanto dirijo. Ou seja, guiar tirando as mãos do volante por pouco tempo não é problema nem raro em si. Como disse, o problema era todo o resto. Como é muito comum estar sozinha no carro, e tenho mania de andar com ele perfeitíssimamente em ordem, sempre verifico coisas.

Aproveito minhas frequentes viagens nas estradas para checar o alinhamento do carro e a calibragem dos pneus (foto de abertura). Como faz meu leitor Fat Jack, aproveito trechos retos e de asfalto bom para tirar de leve as mãos do volante por pouco tempo — apenas o suficiente para ver se o carro puxa para algum lado. Mas, como o Bob Sharp lembrou, se a geometria de direção for de raio de rolagem negativo a direção irá puxar para o lado do pneu bom. Mas reconheço que fazer isso é cada vez mais difícil, pois achar um trecho de pista sem remendos, buracos ou mesmo liso que não jogue o carro para algum lado e distorça meu teste é cada vez mais difícil. Dentro da cidade diria que é absolutamente impossível.

Congestionamentos servem para checar faróis (Foto: pt.wikipedia;org)

Tem gente que quando anda de carro fica fazendo mentalmente contas com as placas dos carros. Minha tia fazia o “noves fora”. Já eu aproveito os veículos à minha frente para ver o reflexo dos faróis do meu próprio carro. Para as luzes traseiras, tanto pisca, freio quanto faróis propriamente ditos, uso as paredes dos estacionamentos — vale a do supermercado, a de casa, qualquer uma. Sei lá, deve ser minha mania de sempre fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo. Para mim é como assistir televisão. Raramente apenas assisto televisão. Aproveito para fazer alguma outra coisa — geralmente algo mecânico que não precise maior concentração. Ultimamente tenho numerado fotos nos meus álbuns, pois faz parte da minha catalogação. Afinal, é apenas escrever sequências: 1,2,3… O problema é que neste caso preciso de bastante iluminação e às vezes atrapalha a tela. Se não, faço crochê ou tricô, embora esteja meio afastada disto há algum tempo. Posso me orgulhar de não olhar para as agulhas enquanto tricoteio. A exceção, é claro, são corridas de carro e alguns esportes. Assisti a algumas partidas da Copa do Mundo sem fazer mais nada, mas teve jogo que entrou no modo multitarefa seja porque não me empolgou, seja porque realmente precisava fazer alguma outra coisa.

Não verifico itens que precise tirar os olhos do trânsito exceto os mais óbvios, como se acende a luz do painel da seta quando aciono a alavanca. E, claro, olho o painel para checar indicadores de nível de óleo, temperatura e outros esporadicamente. Trauma da vez que fiquei parada na saída de um túnel em São Paulo e quase derreti o motor do carro. Mas em minha defesa tenho que dizer que havia olhado pouquíssimos quilômetros antes o painel e estava tudo OK com a temperatura e que ela subiu quase instantaneamente.

Não tiro os olhos do trânsito, em primeiro lugar porque dirigir em São Paulo exige prestar atenção por mim e pelos outros — parto do princípio que além de mim, poucos sabem realmente fazer isso e já espero alguma barbeiragem, assim me surpreendo positivamente quando isso não acontece mas nunca sou pega desprevenida. E em segundo lugar porque minha capacidade multitarefas tem algumas limitações não muito claras. Por algum motivo tem coisas que consigo combinar e outras que não. Parece que o Tico e o Teco nem sempre se entendem. É como pedalar na bicicleta ergométrica e ler. Não consigo nem que seja uma tira de quadrinhos. Volto várias vezes ao mesmo ponto e nada. Tem gente que consegue. Eu não estou nessa lista.

Uso parede para ver luz de freio (Foto: roofyingbrooklyn.net)

Mas sou capaz de saber exatamente quantos e que tipo de veículo tem à minha volta, onde eles estão e se posso, ou não, mudar de faixa e quando o tempo todo, ainda que esteja fazendo outra coisa como conversar, ouvir música ou cantando como uma doida como faço algumas vezes quando estou sozinha.

Lembro perfeitamente das características dos motoristas à minha volta e mantenho distância daqueles que não me agradam — como os que freiam sem motivo o tempo todo, os que mudam de faixa sem olhar nem avisar, os que dirigem digitando no celular, e por aí vai.

Quando estou numa garagem vazia às vezes testo os freios, apenas para ver se a altura do pedal está OK, já que tenho o hábito de dirigir suavemente e é raro ter de pisar subitamente. Toda vez que chove presto atenção nas palhetas do limpador de para-brisa. Me incomoda profundamente quando elas estão gastas e fazem barulho ou quando arranham o vidro. E principalmente quando não funcionam como deveriam. Sou daquelas que gostam de visibilidade máxima. Não ando com vidros sujos nem embaçados nem por um minuto. O resto do carro pode não estar lá brilhando de limpo, embora esteja sempre em ordem  — não deixo objetos nem prolongo demais o intervalo entre as lavagens. A carroceria pode estar empoeirada ou mesmo ligeiramente enlameada, mas vidros, faróis e lanternas traseiras estão totalmente desobstruídos de qualquer coisa. Limpo com o rodinho do posto mesmo, ainda que a água daquele balde não seja assim exatamente potável.

Testo palhetas com a menor chuva (Foto: papodelas.com.br)

Relendo tudo o que escrevi percebi que sempre disse que sou uma pessoa organizada, mas sem exageros, e que meu TOC limita-se aos meus álbuns de fotos, mas acho que não. Talvez seja algo mais profundo. Sei lá. Mas tenho certeza que outros autoentusiastas me entenderão, não? Vocês acham que é grave?

Mudando de assunto: assistir programação esportiva na televisão é algo quase tão extenuante para o telespectador quanto para o próprio atleta. A televisão aberta, mesmo tendo exclusividade para a transmissão de alguns eventos, cancela ou trucida treinos de Fórmula 1 ou mesmo as provas. Nos canais fechados não é diferente. No final de semana do GP da Inglaterra, a SporTV havia anunciado o treino oficial num de seus canais para o sábado às 10h. Detalhe: os canais já são pagos e fazem parte de alguns pacotes específicos. Na hora, sumiu da grade. Foi parar num outro SporTV, o 4, pago à parte dentro de um pacote ainda mais caro. Ou seja, você paga um determinado número de canais porque tem uma determinada programação que te agrada e, na hora, ela vai parar num outro canal para o qual tem de se pagar outra taxa extra. É brincadeira? Isso porque no horário previsto foi transmitida uma mesa redonda de comentaristas pré-jogo – ou seja, blá, blá, blá para encher o horário até o jogo de futebol da Copa. E, claro, sem nenhum aviso sequer no menu do canal. Descobri no perfil do Facebook de um jornalista da área. Mesma coisa na Fox Sports no domingo quando estava agendada a Fórmula E. Vou assistir e o que é que encontro? Reprise de um dos jogos da Copa que, por sinal, havia terminado horas antes. Algum aviso? Claro que não. Uma total falta de respeito com o assinante. Na hora de vender assinatura eles não param de nos contatar e divulgam em todo lugar telefones até mesmo sem custo para a ligação, mas vá achar algum contato para reclamar. Dou um doce para quem descobrir o caminho das pedras.

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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