Na matéria sobre o Reunião Anual de 2018 do “VW Air Cooled Club of Israel” um KG – Karmann Ghia em estilo Rat Look chamou a atenção de muitos, foi até motivo de comentários. E eu decidi ir atrás da história deste carro, já que é raro ver KG’s pertencendo a esta tribo.

Este carro pertence ao Shmulik Kitainik, um dos diretores do clube, e um de meus contatos na elaboração daquela matéria. Certamente a história que ele me contou valeu outra matéria, no decorrer da qual muitas das dúvidas que meus leitores e leitoras têm serão dirimidas. Para desenvolver o assunto a distância eu optei por fazer uma entrevista com ele, e é isto que passo a reproduzir abaixo:

AG – Como você decidiu ter um Karmann Ghia? Você tinha esse modelo como um desejo ou acabou sendo um KG por acaso?

Shmulik – Eu acho que a primeira vez que vi um KG foi aos 13 anos, eu me apaixonei por aquele carro, para mim ele era tão lindo, eu amei as suas curvas e proporções, e eu pensei comigo mesmo: “Eu vou ter esse carro algum dia “.

Quando fiz 40 anos, comprei um Fusca, esse foi meu primeiro projeto de restauração e fiquei dizendo a todos os meus amigos que amo o Fusca, mas meu sonho é um KG.

Este é o “Sun Bug” do Shmulik já restaurado. Um Fusca modelo especial “Sun Bug” sedan 1973, cor “Harvest gold” – dourado Colheita – L98C, versão standard de barras de torção dianteiras e motor 1300

Para mim, os KG mais bonitos são os de 61 a 67, eu não gosto dos mais antigos (Low Light – que eram os KG’s fabricados nos anos cinquenta, com entradas de ar menores e a posição mais baixa dos faróis); 67 é o ano perfeito para mim, é o primeiro ano com motor 1500 e freios a disco, mantendo as luzes traseiras pequenas, os pequenos para-choques, e que tem um painel único fabricado apenas naquele ano!

AG – Como é que você acabou participando de um leilão no eBay? Foi difícil ser o vencedor deste leilão (muitos proponentes)?

Shmulik – Em Israel existiam poucos KG, e os preços eram muito altos, então eu sempre ficava de olho no eBay e no Site Craigslist, procurando por KG’s à venda. Os preços eram altos para mim, mas um dia eu vi um leilão de um carro de 1967 (que é um dos meus anos favoritos) o carro era um carro para reformar, e eu amei a ideia de que eu poderia restaurá-lo, e eu disse à minha esposa que se eu não ganhar este leilão a esse preço provavelmente não poderia ter um KG, essa era a minha última chance … e eu ganhei por US$ 2.041,00. Era uma sexta-feira, e eu gritei pela casa inteira:  “Eu tenho um Ghia, eu tenho um GHIA !!!”

AG – Como foi o transporte de para Israel? A papelada foi muito complicada? Custos altos de transporte?

Shmulik – O carro foi comprado de uma pessoa no estado da Carolina do Sul nos Estados Unidos, (as placas de Alberta, que aparecem em algumas fotos, eu comprei, para fazer charme, em um mercado de pulgas em uma visita a Nova York). O carro foi transportado da Carolina do Sul para New Jersey e de lá para Israel. Os custos de transporte não são a parte cara, mas os impostos são. Israel é um país com taxa de impostos muito alta (117%), então o carro acabou me custando algo em torno de US$ 10.000,00 dólares no total (transporte, seguro, taxas portuárias e impostos).

Transporte da Carolina do Sul para New Jersey em caminhão-cegonha

 

Chegando a New Jersey o KG foi colocado num contêiner:

AG – Você recebeu o carro entregue em que porto? A papelada para obter o carro para Israel/desembaraço aduaneiro foi complicada? Carros de coleção podem ser trazidos para Israel?

Shmulik – O carro chegou no porto de Ashdod, felizmente a alfândega foi rápida e boa por causa do mau estado do carro.

Em Israel você pode importar carros de coleção, mas eles devem ter 30 anos ou mais, não podem ser Diesel, têm que ser para uso privado e ter volante no lado esquerdo.

O porto de Ashdod é um dos dois principais portos de carga de Israel. Ele está localizado na cidade de mesmo nome, cerca de 40 quilômetros ao sul de Tel-Aviv, adjacente à foz do rio de Laquis

Mas o momento do encontro com o KG foi registrado em vídeo, e as condições do carro não eram das melhores mesmo, mas a química funcionou e foi “amor à primeira vista”:

 

Algumas fotos de como o carro estava antes da sua “reforma”:

 

AG – Quem fez as diferentes tarefas em seu KG, você mesmo ou uma oficina?

Shmulik – Umas tarefas eu fiz sozinho, outras foram feitas com muita ajuda de amigos do “VW Aircooled Club of Israel” que é como uma grande família e também foram feitos serviços em oficinas.

 

Uma das primeiras coisas que o Shmulik fez foi trocar o volante original por um bem mais elegante; o original aparece no assoalho do carro. O estado ruim do painel acompanhava o estado do restante do carro

AG – Como foi feita a remoção da tinta externa e por quem?

Shmulik – Como eu te disse, o carro era um projeto de restauração e tinha muito trabalho de carroceria para fazer, mas como eu não tenho recursos para fazer uma restauração completa, decidi fazer primeiro o que é importante, a parte mecânica com vistas à segurança. Assim, as linhas de freio e de combustível foram substituídas, uma nova suspensão dianteira completa foi instalada, o interior do carro foi restaurado, a caixa de câmbio foi revisada, etc. Mas, como eu já disse, eu não tinha orçamento para fazer uma restauração adequada da carroceria.

Trabalhando na parte mecânica do carro

Fazendo uma análise da carroceria do carro se constatou que a sua situação era bastante crítica, como as fotos seguintes ilustram:

Alguns detalhes da reforma do interior do carro:

O carro chegou pintado só com tinta fundo, e com o passar dos meses eu notei que a ferrugem estava começando a aflorar por cima desta tinta fundo. Então, decidi remover a tinta até a chapa e aplicar uma camada de “clean cote” (tinta de acabamento transparente) para estancar o processo de corrosão. Eu levei o carro para uma oficina onde eu e o dono trabalhamos para remover a pintura do carro mecanicamente; nenhum produto químico foi usado. Quando removemos a tinta descobrimos as incríveis marcas de oxidação que estão no carro; foi um “amor à primeira vista” e decidi imediatamente somente remover a tinta e aplicar o “clean cote” no carro, preservando as manchas de oxidação. Começamos a trabalhar no carro às 7h e às 22h começamos a aplicação do “clean cote” no carro, e o resto é história.

Algumas fotos do trabalho de remoção mecânica da tinta:

Agora uma foto carismática que vai demandar um pouco de observação e abstração para sua interpretação:

A furação de fixação e a sombra do logotipo KG da tampa do motor

Agora alguns aspectos da aplicação do “clean coat”, que demandou a proteção do vidros e de outras partes do carro:

AG – O seu KG tem um apelido?

Shmulik – Sim é “Sweet Caroline” – Doce Carolina – em homenagem ao estado americano da Carolina do Sul onde o carro foi comprado.

AG – Qual é a reação das pessoas à aparência atual do seu carro? Você costuma ouvir reclamações sobre um carro nobre como Karmann Ghia sendo “transformado” em um Rat Look?

Shmulik – Bem, existem dois tipos de reação: aqueles que me dizem que devo pintá-lo e aqueles que dizem que eu nunca deveria pintá-lo. Mas a maioria das reações é positiva e eles realmente gostam de como o carros está agora. É um carro muito especial e cheio de personalidade.

Eu não vejo o meu carro como tendo sido transformado em Rat Look, é isto que o carro é na verdade, eu o vejo como uma extensão de mim mesmo: imperfeito, com todos os meus defeitos expostos, mas ainda assim muito especial 😉

Algumas fotos do carro “pronto”:

AG –  Por favor, conte um causo sobre o seu carro que você lembre

Shmulik – Um dia, quando eu estava dirigindo de casa para uma reunião, alguém começou a me seguir, e o continuou a fazer por vários quilômetros, em um momento eu parei em um posto de gasolina para abastecer, e o tal carro parou atrás de mim, um cara grande saiu, olhou o carro, deu um grande sorriso e perguntou se ele poderia tirar uma foto com o carro. Ele me disse que estava me seguindo porque gostou do carro e estava torcendo para que eu parasse …

AG – Qual é o motor que o carro tem agora (Original? Preparado? Dupla carburação?)

Shmulik – O motor original deste modelo seria um 1500, mas ele veio dos EUA com um motor 1600, de cabeçote entrada-dupla, com um só carburador.

AG – Eu vi uma foto de alguém trabalhando no rádio do KG, qual foi o problema?

Shmulik – Essa pessoa é meu pai! Ele é engenheiro eletrônico e pegou um rádio antigo dos anos 60, despojou o seu interior e instalou os componentes de um rádio moderno com leitor USB e um amplificador 50 W RMS. Tudo isso é controlado pelos botões originais do rádio.

Recentemente o Shmulik contratou o fotógrafo Yam Melamed para fazer um estudo fotográfico do “Sweet Caroline” e vamos conferir o resultado adiante.

O Yam Malamed em ação durante a seção de fotografias

Uma seleção das fotos que o Yam fez:

Agora vamos conhecer o Shmulik Kitainik:

Ele tem 44 anos de idade, é casado e tem dois filhos e um cachorro. Nasceu em Israel, e morou desde os 13 anos na Argentina, tendo voltado a Israel aos 27 anos. Trabalha em publicidade como chefe de estratégia da J Walter Thompson Israel. Ele é membro do conselho do Clube VW Aircooled de Israel.

 

Aqui o Shmulik está posando com seu KG, e nesta época a ferrugem tinha começado a aflorar sobre a tinta de fundo; logo depois o carro foi trabalhado e chegou à sua condição atual

Agora vamos a um breve vídeo do antes e do depois do ”Sweet Caroline”, com cenas dele em ação:

 


Com isto desvendamos os segredos deste Karmann Ghia tão especial, um carro diferente que na aparência é um Rat Look, mas na essência é um carro antigo que foi maltratado por muitos anos e que encontrou um dono que estancou a sangria e o deixou em condições de continuar rodando por muitos anos, com a sua aparência capaz de chamar a atenção de todos.

AG

Agradeço ao Shmulik pelo apoio à realização deste trabalho, pelas respostas ao questionário, pelas fotos e pelos vídeos (que subi para YouTube para poder inserir aqui na matéria). Esta matéria mostra que o amor por um Volkswagen antigo, em especial por aqueles com motor boxer arrefecido a ar, não é uma exclusividade deste ou daquele pais, mas é universal!
NOTA: Nossos leitores são convidados a dar o seu parecer, fazer suas perguntas, sugerir material e, eventualmente, correções, etc. que poderão ser incluídos em eventual revisão deste trabalho.
Em alguns casos material pesquisado na internet, portanto via de regra de domínio público, é utilizado neste trabalho com fins históricos/didáticos em conformidade com o espírito de preservação histórica que norteia este trabalho. No entanto, caso alguém se apresente como proprietário do material, independentemente de ter sido citado nos créditos ou não, e, mesmo tendo colocado à disposição num meio público, queira que créditos específicos sejam dados ou até mesmo que tal material seja retirado, solicitamos entrar em contato pelo e-mail alexander.gromow@autoentusiastas.com.br para que sejam tomadas as providências cabíveis. Não há nenhum intuito de infringir direitos ou auferir quaisquer lucros com este trabalho que não seja a função de registro histórico e sua divulgação aos interessados.
A coluna “Falando de Fusca & Afins” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
(2.009 visualizações, 1 hoje)