Se você tem idade suficiente para lembrar-se dos anos 60 e 70, sabe do que estou falando. O Fusca, então, era uma verdadeira praga nas ruas, superando qualquer outro modelo de carro numa proporção maior que 2:1. Naquele tempo, o carrinho mantinha um mínimo de 40% do mercado de carros novos, e as ruas viviam infestadas de besouros, quase como se fosse ele a única opção existente.

O Fusca foi praticamente uma repetição do Ford modelo T, um sucesso tão grande que logo se tornaria o carro mais vendido da história, com exatamente 21.529.464 carros vendidos. Sim, sabemos que existem outros carros que reivindicam para si este título, mas basta olhar um Corolla 1968 e um 2018 para saber que de igual, só o nome mesmo.

Um sucesso deste tipo pede para ser repetido, e então a ideia de um “novo Fusca” sempre paira acima de toda a indústria, mas na verdade, como veremos, é uma quimera inalcançável. O mundo, principalmente o mundo do automóvel, mudou bastante desde então, e tal coisa, um sucesso tão absoluto, é impossível de acontecer novamente.

O que não impede muita gente de tentar. Na maioria das vezes, porém, o fizeram sem entender o sucesso do Fusca original. Pergunte por aí o motivo do sucesso do besourinho, e na maioria das vezes vai ouvir que o carro era barato, simples e robusto. Tudo verdade, claro, mas não era só isso. O Fusca, e o T antes dele, eram na verdade carros extremamente sofisticados para sua época. A impressão de simplicidade se dava pelo acabamento básico, a falta de equipamentos, e pelo fato de que a mecânica, apesar de sofisticada, era fácil de entender, extremamente confiável, e fácil e barata de reparar.

Mas ser só confiável, barato e simples não é lá tão difícil. Nunca foi. Não é só isso. Esses três predicados são somente o imprescindível para um sucesso de vendas desse tipo, mas só eles não são suficientes para criar a dominação de mercado que falamos aqui.

Henry e seu T (divulgação)

O T, por exemplo, era levíssimo, fazendo com que seu motor de apenas 20 hp, simples e barato de construir e reparar, fosse suficiente para um desempenho decente e uma economia de combustível exemplar. Seu câmbio epicíclico de duas machas era fácil de operar, fazendo um carro fácil de guiar, que dava prazer ao volante para o iniciante e ao experiente entusiasta. A suspensão e a distribuição de massas do carro o faziam confortáveis em todo tipo de piso, e com segurança ativa exemplar para sua época. E levava uma família de 4 pessoas e bagagem para qualquer lugar de forma rápida, segura e confiável.

O Fusca tinha exatamente as mesmas qualidades do T, levadas algumas décadas adiante. Mas era ainda mais sofisticado. Seu motor era algo exótico, de cilindros contrapostos e arrefecido a ar, com centro de gravidade baixo, e muito leve. Tão exótico para 1938 que um executivo da Opel, ao vê-lo, disse: “Isto é um motor de avião! Nunca poderá estar num carro barato! ” Este motor dava potência e economia que, para época, era incrível. As suspensões eram independentes nos quatro cantos, então algo que nem em carro de corrida era norma. Câmbio, direção e freios de acionamento leve e preciso completavam um carro incrivelmente gostoso de se guiar para seu tempo, fosse você um moleque na autoescola, fosse você um piloto de fim de semana, levando seu Fusquinha para as provas amadoras em Interlagos.

E apesar disso, de toda essa sofisticação, o carro era bem mais sólido e confiável que a concorrência. Tudo era tão bem projetado que funcionava extremamente bem por anos a fio. Qualidade. Eram carros feitos para durar a vida toda, o que é facilmente provado se observando a quantidade deles que ainda está na ativa, alguns sem cuidado nenhum de seus donos. Qual foi a última vez que você viu um Gordini em uso diário?

O Fusca ultrapassa o Ford modelo T em vendas. Conceitos parecidos. (foto:netcarshow.com)

A receita do T e do Fusca era mais complexa então. Não somente eram eles baratos, simples e confiáveis, mas também eram melhores em desempenho, economia, conforto, que a concorrência. De uma forma clara e decisiva. Melhores, e mais baratos. E é por isso que hoje é um fenômeno difícil de se reproduzir: os carros hoje em dia tem desempenho e especificação muito similar.

Muita gente tenta, porém, e ninguém tentou isso mais que a própria VW. Primeiro com o Golf, que muita gente aqui no Brasil não sabe, mas era um carro pequeno quando lançado em 1974, e o substituto planejado do Fusca. Aqui no Brasil, com nossas vias lastimáveis, a VW achou que o Golf não era uma boa ideia; substituiu o Fusca com o Gol, inicialmente usando até o motor arrefecido a ar do veterano besouro, imaginando uma reação tradicionalista à morte do amado boxer. Ledo engano; o Gol deslancharia como substituto do Fusca somente quando passou a usar motores arrefecidos a água, e se tornou um carro muito melhor por isso. O que prova a teoria de que não é o desenho externo, ou seu motor de arrefecimento por ar, que fez o Fusca ser o Fusca. Foi sua superioridade técnica, visível a todos, leigos ou entendidos. Quando ela deixou de ser clara, as vendas declinaram até o inevitável fim de produção.

Golf 1974. O primeiro “novo Fusca” (netcarshow.com)

O que nos leva ao up! Se existe um carro hoje que segue à risca a fórmula de superioridade técnica do Fusca, é este pequeno VW. Da sua sólida estrutura quase completamente quadrada, que usa cada milímetro de sua sombra ao meio-dia, passando por seu sofisticado e minúsculo motor três em linha, e chegando a sua simplicidade espartana no interior. “Levar uma família de 4 pessoas pela Autobahn, a 100 km/h, com conforto, confiabilidade, segurança e economia”: O mote inicial do VW nacional-socialista de 1938, mas que pode ser usado perfeitamente para o up!.

Desde seu lançamento, o carrinho é tecnicamente o melhor carro de sua categoria, inicialmente por uma boa margem. Essa margem foi se reduzindo ao passar dos anos, obviamente, enquanto a concorrência se mexia, mas ainda hoje é superior em quase tudo. Mais econômico, mais veloz, mais sólido e rígido, e teoricamente por isso mais durável. O espaço interno, apesar de aparência contrária, não deixa a desejar na categoria. O preço não é o mais baixo da categoria, mas também o Fusca e o Gol nunca o foram. Sempre custaram algo a mais, o que, sejamos sinceros, era o justo.

A família alemã e o Fusca. (netcarshow)

Então por que o carrinho vende tão pouco? Por que recentemente foi até movido acima do Gol em preço pela VW, efetivamente abandonando o plano inicial de substituí-lo? Por que o repúdio generalizado ao carrinho?

Se alguém soubesse de verdade porque um carro vende ou não, essa indústria seria fácil demais. Por mais que entendidos regurgitem suas verdades como se fossem absolutas por todo lado, ninguém sabe. Existem teorias e aproximações, mas na verdade, o porquê de carros como o Onix caem no gosto do povo e outros nem tanto, é um mistério. Os criadores dos sucessos proclamam sua inteligência e capacidade, a inevitabilidade de seu intelecto produzir o sucesso. Outros, de fora, criam teorias mirabolantes para minimizar o sucesso do outro, e proclamar a injustiça com seu obviamente superior produto. Mas dizer tudo isso, dito depois do fato já acontecido, é muito fácil de fazer. Chutar cachorro morto. Engenheiro de obra feita. Gente que nunca teve que colocar seu trabalho para outros julgarem com sua carteira, e aceitar o resultado feito adulto, sem choradeira. Eu não pretendo fazer isso.

Mesmo que particularmente prefira o up!, talvez o menos vendido da categoria, em relação ao Onix (primeiro colocado disparado em vendas), não acho um absurdo essa ordem das coisas. O fato, pessoal, a verdade nua e crua aqui, é que não existem mais carros como o T e o Fusca. Não existe mais um carro tão superior a todos os outros que se torne a decisão óbvia. Uma série de fatores muito mais emocionais e superficiais acabam definindo a escolha, e aí o efeito de manada acaba carregando os mais indecisos. Até para comprar coisas decididamente menos eficientes como os SUV.

Apesar do pequeno VW ser claramente superior tecnicamente, em termos absolutos a diferença é tão pequena que as pessoas menos interessadas nas nuances da engenharia automobilística não as enxergam. Quem conhece um pouco e vê a diferença entre os dois carros acaba por se revoltar e ventilar sua revolta dizendo que o povo é burro. Isso não é verdade. Nenhum carro nesta categoria é uma escolha burra. Nem o Kwid, novo alvo de muita gente revoltada, mas que é um carro interessantíssimo. Como falei, a escolha é bem mais emocional e superficial do que enxerga nossa vã filosofia.

(divulgação)

O Dr. Max Bentele (1909-2006), engenheiro automobilístico alemão famoso, entre outras coisas, por seu trabalho definitivo no aperfeiçoamento do motor rotativo de Felix Wankel, disse certa vez: “Para sobreviver no mercado de motores (ou qualquer outro) com algo novo, é preciso ser um pouco melhor do que a concorrência. Para substituir um motor existente por completo, é preciso ser muito melhor. ” Não existe hoje diferença desta magnitude no mercado. Existem coisas melhores e piores objetivamente, claro, mas não coisas “muito melhores” como eram o T e o Fusca.

O desenho externo é algo decisivo hoje, bem como percepção de marca, e detalhes insignificantes como nível de acabamento e equipamentos comparados a preço de venda. O que costumava ser detalhe hoje influi. O Onix, por exemplo, tem aparência de carro maior, mais encorpado, importante num país onde carros desta faixa são normalmente o único da casa. O up!, reto feito um caixote, já foi categorizado como feio, e pequeno demais, apesar de não ser verdade em ambas as contas. Você acha que, antes do lançamento dos dois, se os visse dentro dos estúdios de design das empresas, conseguiria perceber isso claramente? Claro que não. Certeza aqui é impossível. É um ato de fé liberar um carro para ser produzido. Uma aposta de milhões e milhões de dinheiros. Com empregos e vidas de milhares de pessoas como tempero adicional. Então vamos parar de falar mal de quem errou. É humano, e acontece contigo também, quer você admita ou não.

O up! é um carro pequeno? (Foto:autor)

Mas eu mesmo, confesso, tinha grandes expectativas para o up!. E fiz previsões corajosas! Coloco ele na minha lista de melhores carros para comprar todo ano desde seu lançamento, e escrevi em 2016:

“Só o tempo dirá se tenho razão, mas eu acredito que o up! é um daqueles carros que, em virtude de seu avanço tecnológico no lançamento, começa causando estranheza e vendas abaixo do esperado, mas acaba como um sólido e longo sucesso, sendo vendido por muito tempo.

Como o VW Tipo 11 no pós-guerra, como o Uno original em 1984, o up! é muito superior tecnicamente a todos os concorrentes de mesmo preço. Seu desenho é integrado a esta proposta de superioridade técnica, como eram também o VW e o Uno, e, portanto, é diferente e estranho para quem apenas quer mais do mesmo, coisa que ocorre com a maioria da população. Mas com o tempo, acredito, suas claras vantagens ficam óbvias, se acostuma com o desenho, e as vendas sobem. Pelo menos, é o que espero. ”

O que não esperava, claro, é que a concorrência se movesse tão rápido. Para ficar no Onix, ao ano-modelo 2017 o carro recebeu importante melhoria técnica que o colocou no mesmo patamar de economia de combustível do up!. Outros fizeram o mesmo.

Mas minha experiência pessoal com o pequeno VW tem me mostrado que, apesar de um fracasso comercial, o gosto pelas claras vantagens e características interessantes do carrinho vem crescendo. Da forma antiga, com experiências reais e nas conversas entre amigos.

Isto porque, e aqui dando uma banana para os que pensam que minha lista anual de “10 melhores carros que posso comprar” é fictícia, em 2017 e neste ano, eu realmente comprei um carro que estava na respectiva lista. E em ambos os casos, foram VW up!.

Primeiro, minha mãe decidiu que queria trocar o seu Chevrolet Sonic azul, que tinha desde que meu pai faleceu há cinco anos. Ela, que por influência de seu pai (meu avô Albert), sempre teve Chevrolet, queria um Onix com câmbio automático. Era realmente uma ótima opção para ela, em muitos casos melhor que o up!: o Onix é mais silencioso, mais confortável, mais potente na versão automática, e tudo isso sem abrir mão da economia de combustível, e uma segurança ativa e passiva que, embora num patamar inferior ao up!, ainda é perfeitamente aceitável.

Mas um fator importante me fez praticamente obrigá-la a pegar um up!. Explico: desde que meu pai faleceu, minha mãe passou a morar em prédios. Vocês sabem como são apertadas e ruins as vagas de prédios hoje em dia. Com 75 anos de vagas espaçosas, ela não se adaptou muito bem a isso, e o Sonic vivia permanentemente ralado nas laterais, apesar dos meus esforços em arrumá-lo de tempos em tempos. O up!, com vidros grandes e praticamente nenhum carro além dos vidros, é um carro muito mais fácil de estacionar, e então, buscando alguma coisa que melhorasse essa chata situação, pedi que ela pegasse um recém-lançado up! Ano-modelo 2018, na versão move, com câmbio I-Motion.

O carro de minha mãe (Foto:autor)

O carrinho azul claro, além de extremamente simpático, se mostrou ótimo para ela. Nunca mais ralou a pintura na garagem. Diz que “nem se lembra quando abasteci da última vez”. Suas amigas da mesa de buraco de quinta-feira adoraram o carrinho, e uma delas até comprou um exatamente igual mês passado. Ainda bem, porque como fui eu que escolhi o carro à sua revelia, já imaginaram se não tivesse caído no gosto dela? Ufa!

Mas o mais incrível é que mesmo eu, que sempre repudiei esses câmbios robotizados como o I-Motion, adorei o carrinho. Na verdade, mais que isso: amei de paixão. O motor aspirado é uma delícia, torcudo e girador, o desempenho é ótimo, o carrinho é sólido e com uma qualidade de construção clara e aparente. Até a simplicidade espartana do interior me apetece. O suporte de celular é perfeito, e uma ótima sacada. O carrinho é tudo que gosto e nada do que não gosto. Prefiro câmbio manual, claro, mas inesperadamente me dei muito bem com o I-Motion, em modo todo auto normalmente ou usando como manual à moda.

Num exemplo do que dizia sobre diferenças pequenas: em autoestradas espaçosas como a rodovia dos Bandeirantes aqui em São Paulo, o Onix automático é melhor que o up! I-Motion de minha mãe. Mais confortável e silencioso, motor maior e mais potente, ainda econômico em combustível. Mas confesso que, apesar de ciente dessa diferença, achei o up! uma delícia na estrada. O câmbio não atrapalha, o carrinho acelera com vontade, a suavidade de operação perfeita. Uma delícia! Para minha sensibilidade particular, o ronquinho gostoso característico do 3 em linha é definitivamente um bônus, apesar de claramente mais áspero que o 4 em linha do Onix.

Meu carro, no dia em que o peguei. Com os inevitáveis vidros escuros… (foto:autor)

Algum tempo depois, e sem dúvida incentivado por essa excelente experiência com o carro de minha mãe, acabei por comprar um up! para mim também. Um amigo colocou à venda seu high up! TSI 2016, com apenas 28 mil km e num agradável tom de chumbo metálico, e eu não pude resistir. Estava mesmo querendo um terceiro carro em casa, principalmente para minha filha mais velha, recém-habilitada, poder usar esporadicamente.

Mas olhem que interessante:  esse meu amigo que me vendeu o carro me disse que não queria inicialmente o up!. Achava o carro feio e pequeno apenas, e apesar de trabalhar na indústria, não é um autoentusiasta, e, portanto, tal sentimento lhe bastava para julgar. Sua esposa que queria, e o fez comprá-lo. Mas, ao vendê-lo a mim, você não ia encontrar uma pessoa mais entusiasmada. Ele repetia inúmeras vezes o quão ágil, veloz, econômico e gostoso era o carrinho. Apenas o fato de ganhar um carro designado de sua empresa o fazia vendê-lo.

Minha esposa, ao andar com ele, também adorou. E aí um fato interessante aconteceu. Todas as amigas de minha esposa hoje em dia andam com SUV’s. Jeeps e Hondas na maioria, mas todos novos e custando mais de cem mil reais. Ao conhecer o carrinho e andar nele com a patroa, todas começaram a se interessar. Ato contínuo, em churrascos e outros eventos sociais, os maridos começaram a me perguntar sobre ele, sinal claro que a conversa ficou séria. Todos, acostumados aos comparativamente pífios números de consumo de seus jipões, se impressionam em saber nossas médias de consumo num carrinho tão ágil e veloz. Um deles, que tem uma moto Kawasaki 650, me disse desanimado: “Poxa, esse consumo só andando devagar de moto!”

O meu up!, já sem o filme nos vidros. Vidros verdes! Chique! (Foto: autor)

Com a recente crise dos combustíveis devido à greve dos caminhoneiros, e o aumento generalizado do preço do álcool e da gasolina que se seguiu, aposto que devem estar pensando seriamente em trocas aparentemente radicais.

Eu simplesmente estou adorando o carrinho. Tem muita gente que o acha um carro esporte nesta versão TSI, mas não é; é apenas um delicioso companheiro para a labuta diária. Ágil e com torque sempre disponível, na cidade é arisco. É também objetivamente muito econômico, confiável, prático e confortável. Mas é subjetivamente onde ele me pegou de jeito: a vibração e barulho sofisticados e entusiasmantes do três em linha, a sofisticação mecânica misturada com uma alma ascética e simples, a vontade de servir ao dono feito um vira-lata resgatado das ruas. O carrinho é uma delícia de usar, e é muito fácil se apaixonar por sua personalidade marcante.

Uma personalidade marcante. Isso é algo raro hoje, e o que mais gosto nele.

O up! nunca será o sucesso que pretendiam seus criadores. Isso já é fato, não há volta. Na verdade, foi um grande fracasso para a VW. Mas vem silenciosamente criando um culto ao seu redor. Gente que não apenas gosta dele, mas o ama de paixão, atraído fortemente por suas características e idiossincrasias únicas. Nunca vai ser algo como o Fusca, ou mesmo o Gol, claro. Mas esse tipo de culto é a matéria-prima dos clássicos futuros.

Será? Deus sabe que já errei muita previsão, e até neste caso específico. Mas é o que acredito.

MAO

 

 

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