Órgão não exigiu exatamente o que mais interessa ao motorista: a durabilidade do pneu.

Depois dos refrigeradores, o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia), vinculado ao Ministério  do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, criou o  Programa de Etiquetagem Veicular de Consumo. Antes facultativo, todas as marcas presentes no mercado brasileiro foram obrigadas a aderir ao programa para fazer jus aos benefícios do Inovar-Auto, regime da indústria automobilística iniciado em 2013 que vigorou até o final de dezembro de 2017 e que contemplou — com redução do imposto federal sobre produtos industrializados (IPI) — o aumento da eficiência energética de seus modelos.

Todos os carros novos comercializados no país passaram obrigatoriamente a exibir,  enquanto nos salões de vendas das concessionárias, a etiqueta de consumo registrando quanto bebe aquele modelo e o classificando-o em relação aos concorrentes do mesmo segmento.

Agora é a vez dos pneus:  desde abril, todos os comercializados no Brasil devem ostentar uma etiqueta que os classificam de acordo com três características.

A primeira é o atrito com o piso, que resulta num maior ou menor consumo de combustível. A segunda indica seu comportamento no asfalto molhado: confere maior ou menor aderência que os concorrentes? A terceira característica é o ruído que emite, medido em decibéis. Entretanto, o Inmetro não exigiu exatamente o que mais interessa ao motorista: qual pneu tem maior durabilidade? Qual marca roda mais antes de exigir substituição?

Em outros países, este índice é obrigatório e chamado em inglês de Treadwear, desgaste da banda de rodagem. Talvez você já o tenha visto na banda lateral de um pneu fabricado no Brasil para exportação, ou num carro importado. Ele varia de 60 a 700 e não reflete objetivamente a durabilidade, pois se trata apenas de um referencial.

A duração de um pneu varia em função do piso, calibragem, cuidados do motorista, peso do carro, qualidade do asfalto, alinhamento das rodas e outros fatores. O índice Treadwear é determinado (nos EUA) numa prova a que são submetidos os pneus instalados em carros semelhantes que rodam a mesma distância (9.600 milhas/15.360 quilômetros) à mesma velocidade, no mesmo tipo de asfalto e se avalia então seu desgaste.

Cadê o treadwear? Não tem (Foto: produto.mercadolivre.com.br)

O pneu que se desgasta de acordo com um padrão estabelecido pelo governo tem índice 100. Mas se ele atinge apenas 60% da quilometragem padrão, seu Treadwear é 60. O pneu capaz de rodar o dobro do padrão faz jus ao índice 200, e assim por diante.

Quando o Inmetro divulgou a etiqueta pneumática, eu imediatamente o questionei a respeito do Treadwear e obtive a mais tosca das respostas: que a durabilidade depende das condições de utilização e não dá para determinar a quilometragem que ele vai atingir. O órgão imagina estar lidando com ignorantes que desconhecem como se determina o índice em outros países. E a obviedade de ser impossível estabelecer objetivamente, mas apenas referencialmente a durabilidade.

Aliás, o Inmetro já deu inúmeras demonstrações de incompetência ao estabelecer padrões de certificação do setor. Derrapou feio ao cuidar de pneus: pressionado por empresas do setor, chegou a emitir documento afirmando que pneu remoldado se enquadrava como novo (e não como remanufaturado). Percebeu o tamanho da encrenca e voltou atrás. A própria certificação de pneus remoldados “esqueceu” de exigir o registro das características originais da carcaça.

Decidiu recentemente estabelecer a certificação de peças de reposição, mas se restringiu a vinte delas entre as milhares utilizadas num veículo. Algumas do motor, que não interferem com a segurança veicular, como pistões, anéis, bielas e bronzinas, foram agraciadas. Mas válvulas ou árvores de comando não foram. Apenas algumas ligadas à segurança foram incluídas, como rodas e fluido de freio. Mas limpador de para-brisa ficou de fora. A absoluta falta de critério do Inmetro neste processo faz levantar suspeitas de que o órgão apenas contemplou empresas que se “interessaram” em ter seus produtos submetidos ao processo de certificação. A inépcia do Inmetro coloca em dúvida a seriedade de seus propósitos e em risco a segurança veicular.

BF

A coluna “Opinião de Boris Feldman” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

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