Em 1981, como já citei algumas vezes nas minhas colunas aqui no AE, a diretoria da Volkswagen encarregou-me de comandar as atividades de Motorsport da fábrica, em paralelo com minha posição de gerente de Assistência Técnica do Produto.

Foi nesta época que, para auxiliar na organização das provas em Interlagos, consegui junto à diretoria a doação de uma ambulância Parati para atendimento médicos de emergência na pista. A Federação de Automobilismo de São Paulo (Fasp), então presidida pelo saudoso e mui querido Professor Rubens Carpinelli  (1927-2015), só precisaria arcar com as despesas de médicos e seus assistentes. A entrega da ambulância foi realizada por mim diretamente ao então Administrador de Interlagos, Chico Landi.

Eu já conhecia muito da história de Chico Landi e de seu papel no automobilismo, mas ainda não o havia conhecido pessoalmente. Para mim foi grande momento pessoal e profissional conhecê-lo já com seus 74 anos bem vividos no mundo das corridas de automóveis. Todos que o conheceram eram unânimes em afirmar que seu Chico pilotava uma barbaridade.

Histórias sobre ele, muitas. Uma que me contaram foi sua opinião sobre as corridas monomarca. “Ocorre uma briga, há o corre-corre para se ver o que está acontecendo, vem a pergunta ‘quem está brigando?’ e logo se sabe que são dois irmãos. As pessoas dão as costas e vão embora”. É como ele definia as corridas dessa modalidade, briga de irmão. Defendia as corridas multimarca.

Foi também nesse meu trabalho, três anos depois, quando a VW estava muito ativa no automobilismo de pista (Campeonato Brasileiro de Marcas e Pilotos), que consegui com a diretoria a autorização para requisitar um Santana, três Gols e uma Saveiro que serviriam para garantir os serviços de pista. O Santana (visto na foto de abertura) seria o carro do diretor de prova, do organizador e pace car. Foi entregue ao Carlos Menon, responsável pelos serviços de pista contratado pela Fasp, pessoa também muito querida no nosso meio, infelizmente falecido em 2002.

Chico Landi e eu junto da Parati ambulância doada pela VW à Federação de Automobilismo de São Paulo (Foto: arquivo do autor)

Foi uma inteligente estratégia de marketing da Volkswagen, ter os seus produtos, especialmente o Santana devidamente caracterizado (e com umas “coisinhas” para andar mais”), circulando no autódromo em todas as corridas.

 

Uma vida ligada ao automóvel

Francisco Sacco Landi, ou simplesmente Chico Landi,  ou mais simples ainda seu Chico,  nasceu em São Paulo, portanto um paulistano de corpo e alma, em 14 de julho de 1907. Veio a falecer, também em São Paulo, no dia 7 de junho de 1989, aos 81 anos.

Nasceu em um berço tranquilo, mas com a morte de seu pai, Paschoal, um industrial de sucesso, teve necessidade de trabalhar. Seguiu os passos do seu irmão mais velho, Quirino, e foi aprender mecânica em uma oficina próxima à sua casa. Muito aplicado que foi, trabalhou na área de montagem na indústria automobilística, uma delas a General Motors. Seu primeiro carro de competição foi um Chevrolet 1928, preparado por ele e seu irmão.

Em 1934 participou pela primeira vez de uma corrida, o II Grande Prêmio da Cidade do Rio de Janeiro, no Circuito da Gávea, em 3 em de outubro de 1934. O circuito 11,160 km de extensão percorria os bairros Gávea e Leblon e tinha um desafiante de trecho de serra, hoje envolto pela favela da Rocinha. Landi quebrou na oitava volta de 25 quando estava em segundo. Tentou na prova do ano seguinte, mas seu Bugatti quebrou na última volta.

Depois de abandonar em 1936 e 1937, chegou em segundo em 1938, o I Circuito da Gávea Nacional (só pilotos brasileiros), com Alfa Romeo. Venceu o VII GP da Cidade do Rio de Janeiro de 1941, com Alfa Romeo, fazendo dobradinha com o irmão Quirino, que correu de Maserati. Venceu também a prova de 1947 (não houve corridas entre 1942 e 1946 devido à Segunda Guerra Mundial) e de 1948. A última corrida no Circuito da Gávea foi em 1954, reservada a carros esporte, e Landi terminou em terceiro, com Ferrari.barchetta 3-litros.

Chico Landi e o Ferrari na Gávea de 1954, liderando e perseguido pelo suíço Emmanuel de Graffenried, com Maserati 2000, que venceria após um furo de pneu no Ferrari (Foto: livro “Circuito da Gávea”, de Paulo Scali)

Chico Landi e o Enzo Ferrari haviam se tornado amigos com a convivência, pois o comendador era o chefe de competições da Alfa Romeo. Quando Enzo Ferrari estabeleceu-se com sua firma em 1947 e construiu o primeiro carro de corrida, o carro esporte 125 S, inscreveu-o no Grande Prêmio de Bari, na Itália, em 1948, e chamou para pilotá-lo Chico Landi, que venceu a corrida. Consta que o carro não portava o adesivo do cavalinho empinado (que o comendador usava nos Alfa Romeo), mas um mecânico o tinha no bolso e só o colocou no carro depois da vitória…

Foi Chico Landi quem abriu as portas da Europa para os brasileiros chegarem à Fórmula 1, começando por Emerson Fittipaldi.

Chico Landi também foi um campeão nas nossas pistas, participou de incontáveis provas sendo uma das mais importantes a vitória na V Mil Milhas Brasileiras, em 1960, com FNM 2000 JK, em dupla com Christian Heins, quebrando a sequência de vitória dos carreteras. No mesmo ano chegou em segundo na 24 Horas de Interlagos, mesma dupla e mesmo carro, para no ano seguinte vencer esta corrida, mostrando que o binômio Landi-Heins e o carro que na Itália era o Alfa Romeo 2000 berlina (sedã) eram imbatíveis.

Na I 25 Horas de Interlagos em 1973, com Maverick 302 V-8, formando o trio com seu filho Luiz e Antônio Castro Prado, terminou em terceiro. Já tinha 63 anos, mas parecia 25 quando ao volante numa pista.

Sua presença no automobilismo foi marcante. Junto com Eugênio Martins fabricou monopostos de Fórmula Júnior e depois chefiou a equipe de fábrica da Simca, entre suas pegadas deixadas no automobilismo, que nunca deixou de acompanhar de perto.

E sendo pessoa tão carismática e interessada, em 1986 foi nomeado, pelo prefeito de São Paulo, Jânio Quadros, administrador do Autódromo Municipal José Carlos Pace.

Chico Landi, um grande nome, uma pessoa inesquecível (Foto: arquivo do autor)

Ele era uma pessoa muito querida e admirada, e sua presença nos boxes sempre era festa. Sempre juntava gente ao seu redor. Sempre será lembrado com carinho pelos que, como eu, os conheceram.

Ter conhecido o seu Chico foi mesmo muito bom, algo que vou sempre carregar comigo.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

 

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