Houve fatos lamentáveis ocorridos durante meus muitos anos de Volkswagen, alguns presenciados por mim e outros acompanhados ou vistos por colegas de trabalho que me relataram o acontecido, que quero compartilhar com o leitor ou leitora. Nomes foram intencionalmente omitidos.

 

1º Fato

Trabalhava na Assistência Técnica, na Ala Zero, como recepcionista. Naquele época, 1968, não se utilizava o termo consultor técnico.

Havia lá uma oficina onde atendíamos veículos da frota, especialmente veículos de uso de gerentes e diretoria. Os carros de uso comum ou departamentais tinham uma oficina própria onde também se fazia a manutenção de empilhadeiras e outras máquinas.

Quando havia tempo disponível para outros atendimentos, agendávamos os carros de funcionários que, assim, tinham a facilidade de não precisar levar e buscar o seu carro na concessionária, não perdiam tempo e ainda economizavam, porque serviços e peças tinham desconto especial.

Havia um ex-mecânico que fora promovido a testador de veículos (não confundir com pilotos de prova da Engenharia). Pois bem, este funcionário era quem dava o OK para os reparos feitos em carros na oficina da Ala Zero e na avaliação verificava se os defeitos ou problemas reclamados pelos “clientes” tinham sido resolvidos.

Funcionário antigo da fábrica, conhecia a todos, simpático e até brincalhão. Fazia favores para o pessoal da segurança  quando saia para testar algum carro. Era amigo de todos, por conveniência? É a pergunta que não tem resposta.

Um dia, com a mudança das guardas das portarias, este funcionário foi “barrado” como muitos eram para uma inspeção no carro que estava saindo para testes. Era um Fusca, pertencia a um funcionário e a saída era para verificar ruídos no painel.

O exame de um carro, quando selecionado, era completo. Abrir porta-malas, porta-luvas, olhar debaixo dos bancos, conferir número do motor e chassi com a Ordem de Serviço, tudo isto rotina e estava certo.  A surpresa veio depois quando se levantou aquele tampão acessório que cobria aquele espaço atrás do encosto do banco traseiro, onde muitos instalavam alto-falantes: ali foram encontrados dois cabeçotes completos zero-km.

O funcionário não soube explicar a origem daquele material, o dono do carro foi chamado e disse que aquilo não lhe pertencia, ele inclusive era da área administrativa e sequer sabia onde cabeçotes eram fabricados.

O funcionário testador foi levado a uma Delegacia de São Bernardo do Campo e ali confessou seu crime. Deram continuidade às buscas e muitas outras peças foram encontradas em sua casa.  Foi demitido por justa causa.

 

2º Fato

Um funcionário saía ao término do expediente levando para sua casa um pãozinho, era permitido. Era servido pão na hora do almoço.

Aquilo se tornou um hábito diário até que um dia um segurança mais “esperto” perguntou: “Desculpe, mas você leva pãozinho para casa todo dia?”. A resposta foi imediata, “é para meus filhos”. Mostrou o pãozinho e passou, o segurança agradeceu e o funcionário seguiu seu caminho.

Alguns dias depois este mesmo segurança parou o funcionário novamente e pediu para ver o pãozinho. Surpresa, dentro do pãozinho estava escondida uma vela de ignição, o miolo havia sido retirado e a vela ali dentro escondida, tão bem feito que ambos lados do pão estavam fechados. O segurança desconfiou do peso do pãozinho. Mais um caso para a Delegacia de São Bernardo do Campo e mais uma demissão por justa causa.

 

3º Fato

Um funcionário antigo da fábrica trabalhava na área da tapeçaria. Naquela época os bancos eram montados na fábrica, vinha a espuma do fornecedor, a estrutura de outro e a capa era cortada e costurada internamente e assim os bancos eram produzidos e montados nos carros.

Este tal funcionário chegava cedo, entrava pela portaria da av. Galvão Bueno (via nos fundos da fábrica) e ia para o seu setor.

À tarde, quando saía e seguia em direção ao seu ônibus, caminhava mancando, puxando a perna como se tivesse se machucado. Pela manhã estava tudo bem e ao final do dia mancava.

A segurança, sempre muito atenta, um dia pediu para ao funcionário que se sentasse numa sala onde o chefe gostaria de falar com ele. E o chefe chegou e perguntou o que havia com a sua perna dele. Observou que “você chega bem pela manhã e à tarde sai mancando. Já procurou o departamento médico para uma consulta?”. O funcionário disse que não, que não era preciso, chegando em casa tomava um analgésico e a dor passava.

O chefe da segurança, homem experiente, percebeu o nervosismo do funcionário e pediu para ver o local da dor, o joelho. A grande surpresa: metros de tecidos utilizados para a fabricação dos bancos enrolados em sua perna. Resumo: demissão por justa causa mais um caso para a Delegacia de São Bernardo do Campo.

 

4º Fato

Este bem foi bem mais grave. Você sabe que em uma fábrica existe uma grande quantidade de peças de fabricação própria, o que resulta em uma quantidade enorme de limalha de aço e alumínio resultado do processo de usinagem. Este material é vendido a peso para ser reciclado. O processo de sua retirada era feito por caminhões-caçamba e era relativamente fácil. Havia um depósito deste material e uma saída em formato de funil por onde a limalha já era direcionada à caçamba do caminhão. O valor deste material era calculado por peso, esta era a razão de o caminhão ser pesado na entrada da fábrica e conferido na saída e a diferença era o valor a ser recebido pela empresa.

Desconfiados pela diferença de peso acima do normal, colocaram um segurança para acompanhar e observar a operação de carregamento da limalha na caçamba do caminhão, e aí veio a grande surpresa. Na caçamba do caminhão já havia três motores de Fusca devidamente cobertos com plástico preto e com a limalha jogada em cima deles ninguém os identificaria. Isto tudo foi fotografado. A comprovação além das fotos foi registrada pela diferença de peso dos caminhões só com limalha e caminhão com motores e limalha e os devidos registros de entrada e saída comprovavam isto. Eu não soube o resultado desta descoberta, só sei que a Delegacia de São Bernardo do Campo teve mais um trabalho.

Mas durante o trabalho de investigação aconteceria um grave acidente. Um segurança que não tinha autorização par a subir no telhado, ao procurar um local melhor para documentar o roubo pisou numa telha, esta se quebrou e ele caiu de uma altura suficiente para lhe provocar a morte. A VWB deu total assistência à família, esta recebeu todos os seus direitos de acidente de trabalho e nós todos lamentamos profundamente o ocorrido.

 

5º Fato

Este é bem curto e não posso dizer que é divertido, mas pelo menos curioso.

Lançamento do Gol GTi, um mecânico da nossa equipe de rali queria se mostrar, não sei se para a família, namorada, esposa ou amigos. Conhecendo o procedimento do uso das placas azuis (cor da placa de fabricante na época), observou que a nota fiscal que era emitida para a saída do carro pela portaria da fábrica ficava na minha mesa. Preencheu uma nota fiscal com os dados do carro, falsificou a minha assinatura e saiu com o carro, apesar do uso da placa ser autorizado somente para engenheiros e técnicos do setor, inclusive com documento de autorização específico.

Passou o fim de semana com o carro, a festa deve ter sido muito grande e só voltou na terça-feira. Obviamente percebemos a falta do carro na segunda-feira, vimos a emissão da nota fiscal com assinatura falsa e concluímos com quem estaria o carro, pois o funcionário faltara ao trabalho naquele dia.

Quando retornou na terça-feira não tinha nada a dizer senão, cabisbaixo, “Sim senhor”. Foi demitido por justa causa, mas não foi levado à delegacia policial da cidade, em atenção ao fato de ser um funcionário muito querido e sobretudo útil no departamento de Motorsport.

Emoções à parte, lamentamos todos estes tristes  acontecimentos.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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