Hoje vou falar um pouco da família Berg e seus automóveis. Mas não precisa apertar o cinto, não é nenhuma história de supermáquinas!

Meus pais, juntos com meus avós maternos, chegaram da Alemanha em 1939, pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Com uma mão à frente e outra atrás, como se diz. Meu pai, Kurt, era engenheiro têxtil e minha mãe, Gertrudes, enfermeira.  O navio partiu da Bélgica e atracou primeiro em Recife, depois veio para o Rio de Janeiro e em seguida para Santos, seu destino final. Aqui em São Paulo os esperavam o irmão de meu pai, o Hans, uma das razões de terem vindo para cá. A primeira dificuldade encontrada foi a língua.

Para meu pai arranjar trabalho foi necessário refazer seus estudos e tirar novo diploma, pois o que tinha da Alemanha não tinha validade no Brasil. Mas minha mãe logo conseguiu emprego como enfermeira.

Meus pais e meus avós foram morar primeiramente na casa de amigos no bairro de Higienópolis e depois de um curto tempo conseguiram alugar, com meus avós, uma casa que ficava em uma vila, na rua Itambé. Foi lá onde eu nasci.

Naquela ocasião a família não tinha carro, os salários eram dedicados à casa e à família. Tenho uma irmã três anos mais velha, a Sônia, e morávamos todos na casa da minha avó, a matriarca.

Por motivo de saúde foi-nos recomendado eu sair de São Paulo — imagine só, a poluição era um problema já em 1950. Eu tinha três anos. Fomos morar em Tremembé, perto da Serra da Cantareira.

Agora começa a história dos automóveis na família. A distância do Tremembé até o trabalho era grande e para a casa da minha avó, também. Com muito sacrifício meu pai comprou seu primeiro carro, um Ford Eifel de 1938, alemão. Com este veículo ele e minha mãe iam trabalhar e aos fins de semana íamos visitar minha avó no bairro de Higienópolis.

Resolvido o problema de saúde, voltamos para São Paulo e fomos morar com minha avó, onde cresci e vivi até os 15 anos.

Nestes anos que se passaram, meus pais melhoraram de padrão de vida e puderam comprar caros mais modernos. Meu pai saiu do Ford Eifel e foi para o Ford Prefect.

Não demorou para que ele comprasse um Ford V-8 cupê 1940 que tinha aquele banco traseiro externo escamoteável, o jump seat, que aqui ganhou o (maldos0) apelido de “banco da sogra”.

O Ford V-8 cupê, vendo-se a tampa traseira onde fica o banco escamoteável (Foto: arquivo familiar)

Em aproximadamente 1960 um amigo do meu pai lhe ofereceu uma grande moleza. Ele havia importado um novo Chrysler e ofereceu seu mais antigo Dodge 1946 station wagon para pagar como quisesse. Este carro tinha uma grande diferença de tamanho e peso em relação ao que ele estava acostumado e ainda oferecia uma comodidade adicional, a de não precisar usar a embreagem sempre. Era o sistema chamado Fluid Drive, nome que vinha grafado no para-choque traseiro.

Nesta ocasião, minha mãe já demonstrava interesse em aprender a dirigir e por curioso que pudesse parecer, as autoescolas da época utilizavam Ford Prefect para ensinar os novos motoristas. Lembro-me de ter acompanhado minha mãe em algumas aulas e percebi, curioso que sempre fui, de que o carro tinha comandos parcialmente duplos, ou seja, no lado direito, o do instrutor havia dois pedais, um para a embreagem e o segundo obviamente freio, para caso de necessidade ou emergência.

Para facilitar a vida da minha mãe, meu pai comprou um Ford Prefect para ela igualzinho aquele onde ela conseguira sua primeira CNH.

O Ford Prefect de minha mãe (Foto: acervo da família)

Depois do Ford Prefect veio aquele Renault 4CV “rabo quente” cuja história eu contei em minha estreia no AE com a primeira coluna “Do fundo do baú”, em 10/07/2016.

Em 1962, o “rabo quente” já estava ficando bem rodado e a família já estava mais estabilizada financeiramente. A troca do Renault “rabo quente” foi realizada na concessionária Agromotor localizada próximo de casa na Rua Marques de Itu no bairro de Higienópolis. Lá foi comprado o primeiro carro zero-km da família, um belo Renault Dauphine branco.

Meu pai já havia progredido profissionalmente e comprado um Simca Versailles, importado, usado, que tinha duas cores, o chamado saia-e-blusa na época, azul na parte inferior e teto branco. Era a moda.

O Simca Verasilles, eu (o magrela) e o Dauphine (Foto: acervo da família)

Eu já dirigia e, como morávamos numa vila, o meu divertimento era ficar subindo e descendo a rua de paralelepípedos e fazer manobras do tipo autoescola, baliza com dois cabos de vassoura, mas isto sempre quando meus pais não estavam em casa, ou seja, escondido.

O próximo passo foi a troca do Simca por um Mercury 1951 (foto de abertura). Que carrão, que motor! E como era grande!

Nesta mesma ocasião, o Dauphine com muitos problemas com embreagem (não sei se por culpa do pé esquerdo da motorista), foi trocado pelo primeiro Volkswagen da família, que está na foto de abertura ao lado do Mercury.

Em termos de ano era uns passos atrás, mas em termos de carro era mais confiável.

O VW era 1950 com teto corrediço de lona e vidro traseiro bipartido. Como era bom andar com teto aberto, foi aí que me apaixonei por teto solar. Até hoje dou preferência a carros com este item. Foi também com esse Fusca que desenvolvi a arte de trocar marchas, pois nenhuma era sincronizada, e também a arte de antever ao máximo os obstáculos à frente, uma vez que seus freios mecânicos, a cabo, não eram o que se pode chamar de eficientes.

Depois deste VW 1950 veio um bem mais novo, 1960, e neste, com 13 anos, eu já dava os meus palpites: calotas lisas, sobrearo, faróis de neblina e outros acessórios em seu interior.

O Fusca 1960, já nacional; engatar a primeira não sincronizada com o carro em movimento era muito fácil depois do aprendizado com o 1950 (Foto: acervo de família)

Meus pais ainda tiveram Karmann-Ghia, Brasília e Fuscão. O último carro mais novo que meu pai teve foi um Passat 1977 LS verde Amazonas, isto quando ele já estava com 70 anos.

Minha mãe infelizmente se foi muito cedo, aos 58 anos, e meu pai bem mais tarde, 82 anos. Até falecer  dirigia um Gol a ar 1981, cinza, aquele que diziam estar no primer e que só faltava pintar.

Os meus carros foram muitos que teria dificuldade de enumerá-los. Quando me tornei representante de Assistência Técnica na Volkswagen recebi meu primeiro carro de serviço e de lá até 2014 nunca mais fiquei sem carro da empresa para a qual trabalhava — e até uma moto quando trabalhei na Harley-Davidson.

Se for colocar números nesta história posso garantir que foram mais de 100 carros considerando que na VW em 34 anos foram pelo menos 68. Depois vieram Audi, Chevrolet, Kia.

O Audi A6 que foi de meu uso quando trabalhei na Audi (Foto: autor)

Uma coisa infelizmente não consegui fazer em minha vida, trazer este fanatismo por automóveis e motos para a minha cria. Meus dois filhos não seguiram meus passos, um nem dirige, prefere usar o Uber e o outro tem carro, mas não é fanático. Nem carro nem motos, cada um seguiu sua direção. Mas ser feliz é o que importa, e eles são.

Tentar até que tentei, mas meus filhos não adquiriram o gosto por automóveis e motos (Foto: autor)

Uma mania que sempre tive foi com as placas de carros. Meu número preferido é o 7, quando nas pistas era 27; no rali, 304 (cuja soma dos algarismos é 7); 1947 é meu ano de nascimento e tem ainda a data do meu casamento, 26 de outubro (2610). O máximo foi o primeiro carro que demos para o nosso filho Marcelo, um Gol cuja placa fui buscar em Florianópolis: MMB-0906 de Marcelo Moreira Berg – 9 de junho, seu aniversário. Depois transferi o carro para São Paulo.

Os números da placa da Zafira da minha mulher correspondiam a 26 de outubro, dia do nosso casamento

Cada louco com suas manias, as minhas pelo menos eram ou são inofensivas.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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