Com essa falta de combustível devido ao movimento dos caminhoneiros é inevitável que o homem que preza sua liberdade de ir e vir fique bolando um jeito de deixar de depender da maluquice dos outros. Em casa que falta pão todo mundo chia e ninguém tem razão e carro sem combustível no tanque não serve para nada.

Um amigo engenheiro, o Zique, ex-colega de escola, me escreveu dizendo que se aqui houvesse carro puramente elétrico para vender teria comprado um. Ele já tem placas fotovoltaicas no telhado de casa, kit comprado para economizar na conta de luz, e me perguntava quanto um carro elétrico rodaria com o que suas placas produzem.

Achei boa a pergunta e toquei a calcular.

Tomei como base o Chevrolet Bolt, carro elétrico recém-lançado pela GM americana e que considero o que há de mais moderno e viável no momento. Seu preço lá é de U$ 37.500, porém lá o governo dá um bônus de US$ 7.500 ao comprador de carros elétricos, o que resulta no desembolso de U$$ 30.000. Como aqui os governantes e políticos não têm tido tempo para nada além de consultar seus advogados criminalistas, não temos nenhuma lei clara a respeito, nem descontos de impostos ou qualquer incentivo, e muito menos planejamento estratégico, portanto, nem me darei ao trabalho de converter esses valores à nossa moeda, já que para o Brasil não se vê nada claro adiante a respeito do tema.

Eu só queria responder ao meu amigo Zique.

Ele comprou um kit de 4 placas, cada uma com 1 m², que, segundo o fabricante, cada placa deveria gerar 250 W. Tudo bem, mas elas estando em Campinas, onde mora o Zique, na prática geram em média 190 W, isso porque essa quantidade de 250 W é sob condições ideais, na faixa equatorial e com sol a pino. Sendo assim a “usina” do Zique gera 4 x 190 W = 760 W.

Placas fotovoltaicas (Foto: portalsolar.com.br)

Estimando que capte 8 horas por dia de boa luz solar, sua “usina” gerará 8 horas x 760 W = 6.080 W·h, ou seja, 6,08 kW·h/ dia, que arredondaremos para 6 kW·h/dia, números que batem com os cálculos do Zique, após ele conferir sua conta de luz.

E aí, consultando o site da GM e matérias feitas por revistas como a Car and Driver americana, constatamos que o Bolt atinge com certeza uma autonomia de 320 km, tendo uma bateria com 60 kW·h de capacidade. Disso concluímos que 1 kW·h é energia suficiente para fazê-lo rodar 5,3 km, que arredondaremos para 5 km.

Vale lembrar que, devido ao sistema de regeneração de energia durante as desacelerações e frenagens, a diferença de consumo entre estrada/cidade dos carros elétricos é bem menor que a diferença obtida com os carros a combustão. Esse rendimento de 5 km/kW·h é, portanto, médio.

Interior do Chevrolet Bolt (Foto: divulgação)

E como a usina do Zique gera 6 kW·h/dia, ela produz energia suficiente para que um Bolt rode 30 km/dia. Com mais um kit desses ele teria autonomia suficiente para suas necessidades de ao redor de 60 km/dia.

Seu kit custou R$ 9.000, sendo que metade à vista e outra metade dividida em 36 parcelas.

No caso do meu amigo Zique, cada m² de suas placas gera diariamente energia para que um Bolt rode 7,5 km. A eficiência e os preços das placas variam, porém aqui só estamos conjecturando sobre um caso prático, o do meu amigo.

Porém na prática “praticável”, mesmo, a coisa não seria tão simples, já que essa energia só seria gerada durante o dia, e como o Zique usa seu carro justamente durante o dia, essa energia gerada tem que ser injetada de dia na rede e retirada de volta à noite e de madrugada. Tudo bem, pois no final ele estaria contribuindo com a rede, pois nela injetaria energia no período onde há maior demanda e coletaria quando há pouca.

Para os que, como eu, não nadam de braçada no conhecimento da energia elétrica, seguem alguns números.

Um bom chuveiro elétrico — outra jabuticaba brasileira, já que esse é o menos eficiente e mais caro meio de esquentar a água do banho, daí que só a gente o usa em larga escala —, consome ao redor de 6.000 W, ou seja, 6 kW. Os mais fortes consomem 7,5 kW, energia suficiente para virar um motor de 10 cv. Uma hora de banho quente e gostoso gasta tanta energia quanto um Bolt gasta para rodar 37,5 km.

Um secador de cabelos consome em média 1.500 W, ou seja, 1,5 kW. Uma hora secando a cabeleira gasta tanto quanto um Bolt gastaria para rodar 7,5 km.

Em resumo, se o sujeito tiver mulher e filhas cabeludas e cheirosas, ele diariamente vai gastar tanto quanto gastaria para rodar 45 km ou mais com um Bolt.

Mulher bonita e contente é a alegria da gente (Foto: cashola.com.br)

A conclusão é que a minha liberdade de ir e vir que vá para as calendas.  Simplesmente não dá para sair rodando por aí e voltar para casa e encontrar a mulherada sem tomar banho e descabelada.

Outros números. Minha conta residencial de energia me custa R$ 0,6/kW·h. Para rodar 53 km com um Bolt eu consumiria 10 kWh, e isso, portanto, me custaria R$ 6,00. Com R$ 6,00, se eu for explorado como de costume, consigo comprar 1,3 litro de gasolina. Um carro econômico consome em média 10 km/l, portanto, com 1,3 litro consigo rodar 13 km, ou seja, a quarta parte do que um Bolt rodaria com o mesmo custo. Vale lembrar que nos EUA a energia elétrica custa em média a metade da nossa, talvez por eles serem pobrinhos e não possam pagar mais por ela. E olhe que lá, curiosamente, ela vem de fontes mais caras: ao redor de 1/3 vem do gás natural, outro 1/3 do carvão, uns 20% de nuclear e só 6,5% de hidráulica. Só que parece que gastam perto de zero % em propinas.

Trator elétrico da John Deere tem 4 horas de autonomia. Já é um começo (foto: agriland.ie)

Creio que num futuro não muito distante será comum a solução do carro elétrico alimentado por “usinas” solares residenciais que nem a do Zique. A sensação de independência tem seu valor. E em breve creio que os tratores elétricos também terão seu espaço. Gerar energia elétrica no campo é ainda mais viável, através de micro-usina hidrelétrica, eólica, solar e térmica. Para o trator, o peso das baterias não é problema, é solução; pois trator precisa ser pesado. A troca de baterias — deixar uma descarregada e engatar uma carregada — é fácil, pois trator não tem carroceria para atrapalhar a operação. Motor elétrico é instantâneo nos controles de tração e velocidade, fatores importantes no seu trabalho. Fabricantes tradicionais como a americana John Deere e a Escorts India já estão lançando os seus.

Trator elétrico da Escorts India, para serviços mais leves (Foto: auto.ndtv.com)

Gostemos deles ou não, os veículos elétricos já estão se viabilizando. É só mais um meio de transporte chegando à nossa disposição. Compra quem quer e/ou pode.

AK

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