Faz alguns dias tive uma experiência maravilhosa, única, que só quem gosta de dirigir conhece: guiei por 300 quilômetros, quase sempre por estradas ótimas, sozinha. Havia muito tempo que não me acontecia isso — geralmente estou acompanhada ou dirijo por distâncias um pouco menores, ou em trechos mais curtos, ainda que num final de semana acabe somando o mesmo total e não raro bem mais do que isso. Ou vou no banco do carona. Ou tudo isso junto e combinado.

Entrar no meu carro, colocar meu pen drive com as músicas favoritas, fechar as janelas, abrir o teto solar e apenas sair acelerando… delícia de viagem. OK, tinha radares, é claro, por tanto “acelerando” deve ser visto e entendido com algumas ressalvas. Mas ainda assim, 120 km/h é algo que nem sempre conseguimos aqueles que moramos em São Paulo.

Música combina muito bem com carro (Foto: aerp.com.br)

Tudo de dia, caminho bom, dia de semana — o que me ajudou a evitar os diletantes que só tiram o carro da garagem aos finais de semana e morrem de medo de andar na estrada. Algo muito próximo do que posso chamar de uma experiência perfeita.

E ainda por cima a liberdade de ouvir apenas o que eu queria no carro. Então comecei com AC/DC (Back in black), mas ouvi também Chuck Berry (You never can tell, com direito a “coreografia” das mãos diante dos olhos, no melhor estilo John Travolta em “Pulp Fiction”), os irmãos Alessi, diretamente desencavados do túnel do tempo que é meu pen drive (I know it’s late, and I’m a little drunk…) Tudo, claro, cantado a plenos pulmões, com direito a mexer a cabeça e os ombros, acompanhando o ritmo das músicas. Ou acompanhar a batida no volante. Segui por Adele (Set fire to the rain), Bill Withers (Ain’t no sunshine), David Bowie (Space oddity), Etta James (I’d rather be blind), Nina Simone (I put a spell on you), Jason Aldean (She’s country), James Brown (I’ts a man’s, man’s world),  Meat Loaf (I’d do anything for love), Suzy Quattro (48 crash), Blondie (Call me), Bonnie Tyler (Holding out for a hero), Tom Jones (It’s not unusual), Van Halen (Dreams) e Journey (Separate ways, na versão com Arnel Pineda). Nestas duas últimas já se antevê o que pode acontecer quando escuto música sozinha ou, dependendo da companhia, às vezes acompanhada de alguma vítima também. Começo a me preparar para quando a coisa pega. Se tocar Alice Cooper, Bon Jovi ou Joss Stone, viro a própria sem-noção-do-ridículo.

Como meu carro não tem filme nas janelas certamente alguns devem ter estranhado a louca daquele sedã, falando sozinha e fazendo caretas. Porque, é claro, que tem de incorporar o espírito da música. Não adianta cantar ou ouvir como se estivesse no coral da igreja católica. Eu preciso interpretar as músicas. Aliás, já contei aqui que gosto de colocar o Youtube na televisão e ver e ouvir músicas como “Midnight train to Georgia” na versão da Gladys Knight e fazer as dancinhas dos backing vocals, os ótimos The Pips. Com direito a imitar a puxada na alça do trem e apitar junto. E imagino os outros me vendo nas reduções de velocidade nos pedágios. Mas, quem se importa? Eu, não. Como não atendo o telefone enquanto estou dirigindo, coloquei o volume um pouco mais alto que o normal e cantava ainda mais alto. Por isso é que faço isso quando dirijo sozinha. Ninguém é obrigado a ter meu eclético gosto musical nem a ouvir meus, otimisticamente chamados, trinados.

Não sou eu, mas poderia…(Foto: delas.pt)

Curti muito as paisagens do caminho e houve uns lances engraçados. Ao sair de uma estrada super-rápida em que estava e entrar numa outra de pista dupla, na alça de acesso me deparei com uma Pajero a menos de 35 km/h (essa era a velocidade a que tive de reduzir, a a infeliz do carro estava ainda mais lenta), na faixa da esquerda, fazendo a curva. Vixe!, baita susto, freada já que estávamos numa curva e jamais imaginaria alguém nessa velocidade, na pista da esquerda (é claro que a da direita estava totalmente livre) e entonação de mantra: “ommmmmmmm”. Não quis ir para a direita pois fiquei com receio que o susto de subitamente encontrar um carro enchendo o retrovisor fizesse a incauta motorista cometer mais uma barbaridade. Gesticulei brava dentro do carro, indicando que fosse para a direita, pois ela continuou depois da curva se arrastando pela estrada. Ela foi para a direita, reclamando e gesticulando comigo como se a errada fosse eu. Abri a janela e mostrei que ela devia ir para a direita da pista, acelerei e fui embora. O engraçado é que desde que estava pela estrada mais rápida, vinha atrás de mim um Cruze que também teve de frear subitamente atrás do meu carro quando nos deparamos com a Pajero.

Depois de finalmente ultrapassar a Pajero, acelerei, daí a pouco passei outros carros e o Cruze continuou atrás de mim. Assim que terminei as ultrapassagens fui para a direita, mas logo adiante havia um caminhão bastante lento. Eu ia esperar o Cruze passar para ir para a esquerda e ultrapassar o caminhão, mas meu novo amigo da estrada piscou o farol e indicou que me dava passagem. Fui para a pista da esquerda, agradeci, e continuamos andando rápida e corretamente pela estrada. Valeu meu dia. Não é sempre que se encontra outro motorista atento, bom de volante e gentil. Mas como a vida que vivo é a real, alguns quilômetros à frente ao sair desta estrada para entrar em outra, também de pista dupla, rápida e um verdadeiro tapete, tomei uma fechada de um carro que vinha pela esquerda, cruzou a estrada toda na minha frente para ir para a direita para pegar uma saída quase 600 metros adiante. Pois é, uma no cravo outra na ferradura.

O engraçado foi que naquela hora estava ouvindo Aerosmith, justamente “Dream on”, no trecho que diz “the good lord will take you away”. Ou seja, a perfeita tradução do que me passou pela cabeça naquele momento. Isso é o que se chama timing perfeito.

Como disse, eu vinha cantando e curtindo as paisagens e vendo o comportamento dos demais carros e motoristas. Tem de tudo na estrada, como em qualquer lugar. Mas a coincidência com as músicas foi uma constante pois aconteceu em outras ocasiões. E olha que minhas músicas favoritas são muito, mas muito, variadas.

Recentemente um amigo jornalista da área automobilística comentou que ele não entende as pessoas que compram carros pensando no valor de revenda. “Você casa pensando em quanto vai levar no divórcio?”, questionou. Para mim carro e casamento são, sim, muito parecidos e adorei a comparação. Apesar de que estou com meu marido há muito mais tempo do que poderia ter ficado com qualquer carro… Claro que alguém muito rico pode (e deve) fazer um acordo pré-nupcial ou algo assim, mas de uma forma em geral para nós, pobres mortais, pensar demais em valor de revenda não compensa o gosto de se ter o carro que se gosta.

Semana passada vi a chamada de uma reportagem no site da GloboNews que destacava que o valor dos imóveis havia caído 0,01% e que por isso agora era um bom momento para comprar a “casa própria”. Aliás, mais um dos meus muitos parênteses. Jamais entendi esta frase: em princípio, você compra algo que é de outro e depois vira próprio, não? Como assim, comprar a casa própria? Mas, vá lá…

Voltando, então à questão da incrível matéria. Um leitor espirituoso comentou: “Eu ia comprar um imóvel de R$ 500.000 mas me faltavam R$ 50. Agora, finalmente, posso comprá-lo”. Uiuiui, como fazem falta aulas de Matemática na faculdade de Jornalismo! Ou até mesmo nos anos anteriores do ensino. Ou apenas bom senso, senso crítico e qualquer outro. Até mesmo obrigação de reler as coisas antes de publicar.

É um pouco isso. Por que perder o prazer que foi esta viagem recente, no carro que eu gosto, quando poderia fazê-la talvez num carro que desvalorizasse menos. Sei lá quanto seria, mas estou falando de um sedã médio. Não, definitivamente, não vale a pena. Há coisas que não têm preço e a menos que estejamos falando em desvalorizações absurdas, como 80% no primeiro ano, é algo assim como o 0,01% de redução no preço dos imóveis.

Lembro quando foram abertas as importações no Brasil, em 1990. Finalmente, conseguia comprar meu macarrão Barilla em vez das gororobas que não eram “grano duro’. Para uma “oriunda” como eu, era motivo de felicidade. Eram mais caros? Claro, quase o dobro do preço. Mas enquanto o pastoso espaguete nacional custava, sei lá 1,50 da moeda da época (cruzeiro, cruzado, cruzado novo, contos de réis, URV, sei lá…) o Barilla custava 2,75. Ou seja, menos do que custava um cafezinho à época. Todos estes números são hipotéticos, mas lembro de ter feito a conta e o resultado ter sido mais ou menos esse.

Ainda que fosse o dobro, o delta entre os dois preços era tão ínfimo em dinheiro que valia muito a pena comprar a massa italiana. Diferente quando falamos de valores superiores. Por isso é que eu acho que olhar apenas o porcentual não é correto. Tem de ser colocado em sua devida magnitude. Em compensação, 70% mais caro num avião A-380 do que um modelo similar é muito, mas muito dinheiro. É bem isso. O mesmo para a valorização do carro. Se falamos de um modelo popular, as porcentagens acabam sendo as mesmas, mas os valores absolutos envolvidos não.

Faço a mesma coisa quando viajo. Verifico preço de hotéis e as vantagens de cada um. Muitas vezes um mais caro significa fazer tudo a pé, voltar para deixar as compras durante o dia em vez de carregá-las por aí, ou mesmo poder trocar de roupa se de repente o tempo esfriar. Simples assim. Pago pelo meu conforto, mas muitas vezes o que se economiza em transporte paga a diferença na diária. Isso sem falar no tempo que, quando contado em dólares ou euros, passa a ter outra relevância, não?

Felicidade realmente não tem preço. E ela pode estar nas coisas simples, como dirigir do ponto A ao ponto B por necessidade, mas curtindo a viagem e ouvindo música e cantando o que se quer. Nos tempos atuais, não é pouco prazer, não.

Mudando de assunto: Gosto muito de assistir programas de viagem na televisão — até porque é assim que “Noratur” extrai algumas sugestões para as férias. Recentemente vi uma edição do programa Destino Certo no qual se mostravam cinco circuitos de Fórmula 1 pelo mundo. Bem editado e com bom texto, me surpreendi com a pauta, normalmente recheada de obviedades como pontos turísticos manjados e peculiaridades culinárias. Pena que era tão curto e em somente 30 minutos fiquei com vontade de que fossem 10 pistas em vez de cinco. Mas valeu a pena ver os lindos Spa-Francorchamps, Imola, Monza (saudades do traçado antigo e daquela parte “peraltada”!), Brands Hatch e Nürburgring.

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
(2.593 visualizações, 1 hoje)