Nessa vida fazemos de tudo, ou quase, uma delas é preparar caipirinhas, como eu na foto de abertura, num restaurante em Ingolstadt. Mas preciso contar por que, como e quando isso aconteceu.

Há momentos da vida, pessoal ou profissional, que são muito marcantes, significativos, que jamais sairão das nossas memórias.

O que vou lhe contar hoje é o episódio da minha saída da Audi AG e Volkswagen do Brasil e entrada na General Motors do Brasil. Isto aconteceu em 1998. Portanto, 20 anos atrás.

Como já contei inúmeras vezes, eu era sediado na Alemanha, mas tinha como responsabilidade visitar todos os importadores Audi da América do Sul. Era uma vida de aeroportos, hotéis, concessionárias, importadoras e aeroportos — até o próximo destino.

Minha região era pequena, apenas do Paraguai à Venezuela, com uma passagem mais demorada pelo Brasil onde dava apoio à Senna Import e passava dias com a minha família que havia ficado aqui no Brasil, pois não justificava a família se mudar para a Alemanha se eu estava sempre viajando pela América do Sul.

Eu tenho um padrinho de casamento e principalmente amigo chamado Bob Sharp. Ele trabalhava na General Motors do Brasil em São Caetano do Sul,  era um dos gerentes de relações com a imprensa.

Em um determinado dia Sr. André Beer, vice-presidente da empresa, perguntou ao Bob se ele conhecia alguém que entendia de assistência técnica, atendimento ao cliente e produto.

O  Bob disse ao Sr. André foi que conhecia sim, mas ele estava trabalhando para a Audi AG e viajando por toda América do Sul, e não saberia dizer se estaria disponível ou disposto a trabalhar aqui no Brasil, na GMB. “Pergunte a ele”, disse o Sr. André.

Bob contatou-me, contou do que se tratava e eu o informei de quando estaria no Brasil e esta data foi passada ao Sr. André. No período em que estava em São Paulo recebi um telefonema da secretária do Sr. André dizendo que ele gostaria de conversar comigo. Foi marcado um almoço a dois próprio refeitório da diretoria da fábrica de São Caetano do Sul, na avenida Goiás.

Conhecemo-nos, falamos sobre diversos assuntos, até que veio o tema assistência técnica e a pergunta direta, se eu estava satisfeito com o meu trabalho na Audi. Disse-lhe que sim. Não houve convite neste encontro, uma ocasião para me conhecer e me sondar.

Voltei ao meu trabalho e um dia estava no aeroporto de Bogotá, quando me encontrei casualmente com Sr. André Beer, que estava acompanhado de outro senhor que não falava português. Fui apresentado a ele e fui fazer o meu check-in. Encurtando a história, sentei-me ao lado daquele senhor e conversamos um pouco durante o voo (eu havia ganho um upgrade para a primeira classe).

Ao chegarmos ao aeroporto em Guarulhos, despedimo-nos, e ao pegar nossa bagagem ouvi o Sr. André Beer dizer para aquele senhor, “Esta é a pessoa de quem lhe falei.”. Fiz de conta que não ouvi, afinal não sabia quem era aquele estrangeiro. Mais tarde eu saberia que ele era Frederick Henderson, o presidente da GMB. Ele sabia quem eu era, mas eu não tinha a menor ideia com quem estava conversando no avião. Ainda bem.

Estava de férias passeando no Parque do Ibirapuera com minha mulher quando recebi um novo telefonema da secretária do Sr. André, que me convidava para outro almoço, na mesma semana.

O convite oficial para trabalhar na GMB foi feito. O cargo seria gerente da Engenharia de Serviço, responsável por todos os serviços realizados pela rede de concessionárias no Brasil e ser o porta-voz das concessionárias e clientes para a área de Qualidade e Engenharia de Melhoria Contínua trazendo informações dos principais problemas do campo.

Vida nova, agora numa fabricante americana (Foto: media.gm.com)

Tudo acertado, agora viria o mais difícil: informar à Audi sobre a minha saída. A desculpa foi o excesso de viagens e a distância da família, meus filhos e minha esposa precisavam de mim mais próximo de casa. Eu queria voltar a viver no Brasil.

Como eu sabia que aquela seria a última viagem à Alemanha, coloquei na minha bagagem duas garrafas de “51 Pirassununga”. Tive muita sorte de não ter a bagagem inspecionada, pois não seria permitida a minha entrada no país com duas garrafas; uma, talvez.

A notícia da minha saída correu rapidamente pelo setor e colegas vieram imediatamente falar comigo, eram meus colegas que faziam outras regiões como Ásia, países da Cortina de Ferro, América Latina e outros. Marcamos um almoço de despedida, que  foi realizado num pequeno restaurante em Ingolstadt.

Perguntei ao dono se poderia oferecer um drinque brasileiro aos meus convidados — entendeu agora o significado da foto de abertura? — e a resposta foi positiva, mas ele disse que eu teria que colocar um copo a mais: o dele.

O almoço transcorreu de forma calma e muito cordial, todos aceitaram bem a realidade da minha despedida, estavam tristes, mas não demonstraram. Depois alguns me confessaram este sentimento, eu havia feito muitas amizades naqueles quatro anos de convivência, esporádica porém saudável.

Discursos à parte, o almoço terminou e voltamos para nossos escritórios. Alguns já sentiam saudade — não de mim, mas sim da caipirinha que eu havia preparado para todos, homens e mulheres (as mulheres alemãs bebem um monte). O último dia foi só de despedidas. Peguei o carro, fui para Frankfurt, lá o entreguei à locadora e embarquei no avião rumo ao Brasil para um novo desafio profissional.

Alguns dias de volta ao Brasil, e novamente de férias, (ainda tinha um saldo de dias), fui convidado pelas diretorias da VWB e da Audi, com a presença da diretoria da Senna Import,  para um jantar num dos restaurantes mais chiques de São Paulo, o Massimo (não existe mais, infelizmente). Foi  um jantar de despedida por estar deixando não só a Audi, mas também a Volkswagen do Brasil, empresa onde trabalhei por 30 anos.

Discursos foram feitos, meu trabalho nas duas empresas elogiado e os tradicionais votos de boa sorte.

 

E assim curti mais alguns dias de férias até chegar a data do início do meu trabalho na GM. Lá fiquei oito anos, quando então aceitei uma proposta de demissão voluntária e fui para casa.

Haveria mais desafios pela frente, um já contei, comandar a Copa Peugeot de Rali. O diretor de comunicação e imprensa da Peugeot, Marcus Brier, perguntou ao Bob se ele conhecia alguém com o perfil para comandar a atividade na Peugeot. O Bob disse que conhecia…

RB

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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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