O Mercedes-Benz Vito foi lançado no mercado nacional no finalzinho de 2015 e só agora chega a um “No Uso” aqui do AE. Não é usual que veículos comerciais frequentem nossas pautas mas, recentemente, o rival direto Citroën Jumpy foi avaliado pelo Arnaldo. A análise do astuto colega me instigou a fazer o mesmo com o Vito, um pouco por questões de isonomia, bastante por curiosidade e muito por também me julgar um “connoisseur” deste tipo de veículo. Foi em uma Kombi que dei meus primeiros passos ao volante e nas últimas duas décadas convivi bastante com vários desta espécie: Renault Trafic e Fiat Ducato (teto alto e baixo) passando rapidamente por um Mercedes-Benz MB 180 e até um Kia Besta.

Modernos, Mercedes-Benz Vito e seu rival Jumpy são quase como irmãos gêmeos. A fórmula é idêntica assim como o público alvo, bem específico, feito de gente que prescinde do maior espaço interno de bichões como o Iveco Daily, Mercedes-Benz Sprinter e Renault Master, entre outros em favor de um furgão cujas dimensões permitam a entrada em garagens com pé direito baixo. E fora isso há a capacidade de manobra mais parecida à de um suve ou van dos grandes e poder ser dirigido por quem tenha uma normalíssima CNH categoria B.

A avaliação ideal de qualquer veículo é o uso variado. Para um furgão isso significa abusar do espaço de carga de maneiras diversas. Nesse sentido, não perdi tempo: ao ir buscá-lo na histórica fábrica de São Bernardo do Campo fui só, de scooter, pois a ideia era botar o Vito para trabalhar imediatamente, carregando o bicho de duas rodas no de quatro. Eu sabia que o scooter Honda SH300i e seus 170 kg exigiriam, obviamente, uma alma caridosa para me dar uma mão na hora do seu embarque. Me preocupei com o peso mas não com a altura, e quase quebrei a cara.

Ao receber o Vito, logo vi que seu “vantajoso” teto baixo – a altura máxima do furgão da Mercedes-Benz é de 1,91 m – seria um problema. A porta de carga (basculante) tem “boca” de 1,26 m de altura, já o SH300i do chão ao topo do para-brisa, 1,60m… Segundos de perplexidade, mas a solução foi inesperadamente fácil: soltar quatro parafusos e retirar o para-brisa. Sem ele o SH300i entrou no limite e prendê-lo nos bem posicionados ganchos do vão de carga foi simples. Qualquer motocicleta (desde que com no máximo 1,26 m de altura) cabe no Vito e a inegável vantagem que furgões levam sobre picapes nesta tarefa é o plano de carga estar a meros 55 cm do chão.

Ao volante, scooter presinho, percorri os primeiros quilômetros admirando a qualidade da cabine do Vito. Salta à vista o DNA Mercedes-Benz, evidente no grafismo dos instrumentos e até no padrão do tecido de forração dos bancos. Sobriedade e nítida percepção de qualidade são destaque. A ergonomia para o motorista é exata, cujo banco é separado daquele destinado aos dois ocupantes possíveis. Regula-se volante em altura e distância, idem assento, além de encosto. A impressão inicial é que será possível passar horas ao volante sem sacrifício algo que é, aliás, uma obrigação em um veículo profissional.

Grafismo dos instrumentos revela na hora o DNA da marca; para virar “Wolfsburg” só faltam os ponteiros vermelhos

Esperto é um adjetivo preciso para definir o motor quatro-cilindros em linha turbo de 1,6 litro, codinome OM622 111 CDI, dotado de interresfriador ar-ar. A ficha técnica diz que sua potência é de 114 cv a 3.800 rpm e torque máximo de 27,5 m·kgf entre 1.500 e 2.500 rpm. A capacidade máxima de carga declarada é de 1.225 kg. O scooter e seus 170 kg nem foram notados pelo furgão, todavia percebi imediatamente um ligeiro “turbolag, a incerteza típica de motores superalimentados aplicados em veículos pesados assim que se pisa no acelerador para iniciar a marcha. Até pegar a mão (na verdade habituar o pé) deixei o motor apagar um par de vezes nas saídas de semáforos.

O bom Diesel 1,6-L de 114 cv, responsivo e econômico; o turbolag é mínimo.

No destino, descarregar o scooter foi fácil e durante um bom tempo fiquei admirando a área de carga e seus 6 m³ de área com certo ceticismo, afinal no dia seguinte deveria zarpar em viagem carregando uma fornida lista de bugigangas que, a olho, não caberiam naquele espaço. Felizmente me enganei! Coube quase tudo e faço questão de oferecer a impressionante lista do que carreguei no furgão: geladeira de 420 L, máquina de lavar 11 kg, dois sofás de ferro batido (dois e três lugares) e suas almofadas, seis cadeiras, três banquetas, dois criados mudos, uma cama de solteiro e dois colchões, duas bolsas de viagem grandes, várias caixas e quinquilharias como abajures, quadros, e as três mochilas dos viajantes na cabine e uma compra de supermercado para três almas viverem três dias. Certamente em termos de peso fiquei distante da 1,25 tonelada que o Vito permitiria carregar, mas em termos de espaço ocupado não. Basta dizer que não precisei amarrar nada de tão bem encaixadinho que os cacarecos estavam.

Das três pessoas na cabine, duas estavam felizes com o espaço a bordo e uma mais ou menos. O passageiro do meio sofreu com a protuberância do painel de onde surge a alavanca do câmbio manual de seis marchas, mirada para o joelho, porém a boa conformação dos bancos, o ar-condicionado (opcional) e rádio com conexão Bluetooth e entrada USB tornou a viagem de mais de três horas em um dia bem quente razoavelmente confortável.

É certo que o melhor lugar para se estar no Vito é ao volante e impressiona a dirigibilidade oferecida. Desenvolto no trânsito pesado, onde a boa visibilidade à frente se alia à visão proporcionada pelos espelhos retrovisores laterais, exatos mas não exagerados. Mas foi quando pisou na rodovia que o menor dos furgões da Mercedes-Benz pareceu ser ainda melhor.

O câmbio é bem escalonado, segue o esquema 5+E e tem a primeira marcha bem curta, tanto para agilidade nas arrancadas em subidas com veículo carregado quanto facilidade de “rastejar” no tráfego lento, no para e anda.

Gráfico dente de serra do Vito 111 CDI; note a primeira bem curta

Sexta marcha espetada, a 120 km/h o conta-giros marca pouco mais de 2 mil rpm e o motor mal se ouve ou se sente. O silêncio a bordo é digno de Mercedes-Benz. Os carros, digo. A direção com assistência elétrica, macia em manobra, se torna firme em velocidade e passa bastante segurança. A estabilidade direcional é de referência e saber que a tais características dinâmicas se alia uma eletrônica avançada, dotada de controle de tração, estabilidade assim como de vento lateral (que atua agindo unilateralmente no sistema de freios) torna a tocada do Vito tranquilíssima.

O efeito da carga é benéfico, pois a suspensão traseira independente se assenta e dá ao furgão uma capacidade impressionante de encarar curvas em ritmo animado. Aliás, na descida da Serra do Mar, feita pela Rodovia dos Tamoios (ligação entre o planalto paulista e o litoral norte) o ritmo em nada difere ao de um suve. Aliás, me pareceu até melhor do que muitos deles, pois a rolagem é mínima e o que se passa entre pneus e asfalto é sentido ao volante de modo sincero. Outro destaque positivo merece o câmbio, de engates precisos e com manobrabilidade idem. Quanto aos freios — disco nas quatro rodas —, sensação de potência e modulabilidade na medida.

Um “luxo” tecnológico do Vito é o assistente de monitoramento de cansaço, que analisa o comportamento do motorista ao volante. Se detectadas oscilação típicas de um motorista sonolento, sugere parada através de sinal sonoro e símbolo de uma xícara de café no painel. Por fim, um “mimo” bem útil é o assistente de partida em rampa; já um que faz muita falta foi uma câmera de ré.

A viagem de poucos mais de 400 quilômetros (ida e volta) resultou em consumo global de 13,2 km/l sendo que na ida, carregado (serra abaixo) lambeu os 14 km/l enquanto na volta, praticamente vazio, mas serra acima (e com mais pressa…) a marca ficou abaixo dos 13 km/l. É um consumo excelente mas, além disso, é preciso frisar como o pequeno motor de 1,6 litro superalimentado se expressa de maneira muito mais vigorosa que seus números fariam supor. Ele empurra as mais de duas toneladas do Vito em ordem de marcha de modo impressionante e durante a viagem fiquei imaginando como este mesmíssimo motor seria eficiente, do ponto de vista da economia e performance, se equipando um carro de pouco mais de uma tonelada. Porém, aqui no Brasil, Diesel só para utilitários.

O saldo final desta semana com o Mercedes-Benz Vito, que além da viagem proporcionou um uso urbano como se fosse o veículo do dia a dia, foi excelente. A palavra que vem à mente para defini-lo é “eficiente”: no consumo, na facilidade com que se deixa levar, na excelente agilidade e, por que não, no conforto. Apesar de projetado para carregar 1,2 tonelada as suspensões são razoavelmente amigáveis, copiando pisos ruins mesmo sem carga assim como a tração dianteira passou no teste da estrada de terra íngreme, situação na qual carregado ou vazio o Vito não tocou suas partes baixas nos desníveis.

Falta de espaço jamais, quando se dispõe de um furgão

No caminho de São Bernardo, novamente com o scooter embarcado, fui refletindo sobre a extrema necessidade da existência de veículos como o Vito (e o Citroën Jumpy e outros), herdeiros da Kombi, e do por que a Volkswagen, que era dona desse segmento, o deixou de lado. Vai entender! Fáceis, úteis, econômicos e práticos, esses modernos furgões conciliam dirigibilidade ótima à versatilidade. Perfeitos? Falta pouco. Ao Vito faria bem ter a já mencionada câmara de ré (ou ao menos sensores sonoros) e o sempre utilíssimo controlador de velocidade de cruzeiro. Fora isso, ter um preço menor: a pedida de R$ 105 mil supera de maneira exagerada (17 mil reais!!!) do concorrente avaliado pelo Arnaldo e, pelo que li, diferença que justifique isso não existe.

RA

 

FICHA TÉCNICA MERCEDES-BENZ VITO 111 CDI FURGÃO
MOTOR
Designação OM 622 DE
Tipo Diesel, 4 cilindros em linha, transversal, duplo comando de válvulas, corrente 4 válvulas por cilindro, biturbo com interreresfriador ar-ar
Diâmetro x curso (mm) 80 x 79,5
Cilindrada (cm³( 1.598
Formação de mistura Injeção direta e common rail
Potência (cv/rpm) 114/3.800
Torque (m·kgf/rpm) 27,5/1.500–2.500
Taxa de compressão (:1) 15,4
Norma de emissões Euro V
SISTEMA ELÉTRICO
Tensão (V) 12
Bateria (A·h) 74
Alternador (A) 140
TRANSMISSÃO
Câmbio Manual de seis marchas FSG 350, tração dianteira
Relações das marchas (:1) 1ª 4,182; 2ª 2,235; 3ª 1,1387; 4ª 0,902; 5ª 0, 707; 6ª 0,549; ré 3,889
Relação de diferencial (:1) 3,889
SUSPENSÃO
Dianteira Independente, McPherson, mola helicoidal,amortecedor pressurizado e barra estabilizadora
Traseira Independente, braço semiarrastado, mola helicoidal, amortecedor pressurizado e barra estabilizadora
DIREÇÃO
Tipo Pinhão e cremalheira, eletroassistida indexada à velocidade
Diâmetro mínimo de curva (m) 12,9
FREIOS
Dianteiros Disco ventilado
Traseiros Disco
Controle ABS (obrigatório), distribuição eletrônica das forças de frenagem, assistente à frenagem, duplo-circuito hidráulico
RODAS E PNEUS
Rodas Aço, 6,5Jx16
Pneus 195/65R16C
CONSTRUÇÃO
Tipo Monobloco em aço, furgão de carga, 3 portas (uma lateral corrediça), divisória para a cabine, 3 lugares
DIMENSÕES (mm)
Comprimento 5.140
Largura sem/com espelhos 1.928/2.249
Altura 1.910
Balanço dianteiro/traseiro 895/1,045
Distância entre eixos 3.200
Vão da porta traseira, altura/largura 1.261/1.391
Vão da porta lateral, altura/largura 1.252/961
Altura de carga (veículo descarregado) 558
Altura interior da zona de carga 1.392
Comprimento interior da zona de carga 2.831
Largura interior máxima da zona de carga 1.695
Largura entre caixas de rodas 1.270
AERODINÂMICA
Coeficiente de arrasto (Cx) 0,32
Área frontal calculada (m²) 2,945
Área frontal corrigida (Cx x A, m²) 0,942
PESOS (kg)
Em ordem de marcha 1.825
Carga útil 1.225
Peso bruto 3.050
DESEMPENHO
Aceleração 0-100 km/h (s) n.d.
Velocidade máxima (km/h) 170
Capacidade de subida, / carga máxima (%) 25
CAPACIDADES
Volume de carga (m³) 6
Tanque de combustível (L) 70
CÁLCULOS DE CÂMBIO
v/1000 em 6ª (km/h) 52,5
Rotação a 90 km/h em 6ª (rpm) 1.710
Rotação a 120 km/h em 6ª (rpm) 2.285
Rotação à vel. máxima em 5ª (rpm) 4.150
Alcance das marchas a 4.000 rpm (km/h) 1ª 28; 2ª 52; 3ª 83; 4ª 128; 5ª 163 (170 a 4.150 rpm)

 

EQUIPAMENTOS MERCEDES-BENZ VITO 111 CDI FURGÃO
Acionamento elétrico dos vidros
Bolsa inflável (obrigatório) para motorista e dois acompanhantes
Ar-condicionado (opcional, R$ 5.000)
Assistente de monitoramento de cansaço
Assistente de partida em rampa
Assistente de vento lateral
Controle de tração
Fechamento central das portas via controle remoto
Imobilizador de motor
Luzes de freio adaptativas
Parede divisória no compartimento de carga
Piso naval no compartimento de carga com ancoragem
Porta-copos no painel e nas portas
Porta-luvas com chave
Programa eletrônico de estabilidade (ESP Adaptativo 9.1
Rádio AM/FM com USB, cartão de memória SD e Bluetooth
Relógio
Revestimento lateral e luz no compartimento de carga
Termômetro do ar externo
Tomada 12 V no console central
Volante com ajuste de altura e distância
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