Não parece, mas o carro acima é 0-km. Apenas a grade é de um Packard, todo o resto foi feito do zero e com peças novas. Esse foi um dos automóveis na Batalha dos Construtores, que vou explicar o que é.

Há dois anos tenho sido escalado para cobrir o SEMA Show, em Las Vegas. Até então, minha referência sempre foi tudo o que ouvia os colegas falarem. Em 2016 achei fantástico o evento e lá tomei conhecimento de um tipo de premiação fora dos padrões “normais”, denominada “A Batalha dos Construtores”. Infelizmente a equipe técnica voltaria um dia antes do final do evento, logo eu não poderia cobrir essa premiação.

SEMA Show é o maior evento de carros customizados do mundo (Foto: SEMA Show)

Para 2017 fui novamente convidado a cobrir o SEMA, dessa vez já programei como a principal pauta a cobertura da “Batalha dos Construtores”. Entrei em contato com o assessor de imprensa do evento e com o porta-voz da entidade, que é o vice-presidente da organização que comanda o evento. O SEMA Show é a mostra do que uma parcela dos entusiastas de carros está fazendo, automóveis customizados. Nos Estados Unidos os criadores de hot rods passavam alguns perrengues com as autoridades de trânsito, muito parecido com o que acontece no Brasil ainda hoje.

No Filme “American Grafitti” um dos personagens tem um hot rod com o porta-luvas cheio de multas, um exemplo do que acontecia nos EUA dos anos 1960 (Foto: fotograma do filme)

A solução encontrada pelos construtores de veículos modificados foi se unirem para criar uma fundação sem fins lucrativos, com o objetivo de certificar peças, homologar veículos e estabelecer parâmetros. Essa entidade tem ligação diretamente com o governo federal americano, que após aprovação repassa aos governos estaduais a aceitação dos parâmetros. Essa entidade recebeu o nome de SEMA (Specialty Equipment Market Association) e está estabelecida em Los Angeles, na Califórnia, por ser esse o estado dos EUA com os padrões de trânsito mais rígidos. Logo – por associação – se o item estiver em condições de cumprir as regras californianas, estará também apto a cumprir qualquer legislação em solo americano.

Essa entidade fundou, ainda, uma instituição chamada SEMA Garage, que funciona como um “clube-escola”, para a formação de novos talentos. Aulas de funilaria, pintura, solda, construção de veículos, mecânica e engenharia básica são ministradas e a cobrança é feita conforme a condição social do aluno. O intuito é repassar conhecimento e garantir que a cultura dos veículos customizados seja propagada e continue em evolução.

Um dos laboratórios do SEMA Garage testando a emissão de gases de um novo sistema de escapamento (Foto: Sema.Org)

O SEMA.org ainda é responsável por testar peças e dispositivos, estabelecendo parâmetros de segurança e condições impostos pela National Highway Transport Safety Administration (NHTSA), a Direção Nacional de Segurança do Transporte Rodoviário dos Estados Unidos, uma espécie de mistura Inmetro-Contran americano, voltado também à customização de veículos. Uma vez aprovado pelo SEMA.org, a informação é passada à NHTSA e repassado aos estados da União como aprovado. Isso tira a burocracia na transformação de um carro: uma vez que o autor da modificação tenha usado peças homologadas, estará livre de ter que passar o veículo por órgãos de trânsito para algum tipo de verificação ou inspeção de segurança.

Sede do SEMA.Org e do SEMA Garage, em Los Angeles, Califórnia (Foto: Sema.Org)

Aqui, no Brasil, na prática 99,99% dos carros modificados estão irregulares segundo um artigo do Código de Trânsito Brasileiro de 1997 reaproveitado do anterior, de 1966, em que não são permitidas alterações das características originais do veículo.

Quando era criança ouvi diversas vezes a história de que meu pai havia comprado um Fusca 1962 branco por causa das rodas que o carro tinha e anos depois, levando minha mãe, grávida de mim, ao médico, ele foi parado num comando e os documentos foram apreendidos por causa das rodas. A única solução foi voltar ao Detran com o carro já com as rodas originais e ele nunca mais quis saber de nada diferente do original em seus carros.

Atualmente, dificilmente um automóvel terá seu documento apreendido por causa de uma roda, mas pelo CTB isso ainda é possível. Porém, a grande maioria dos acessórios ainda está irregular, já que cada mudança no carro exige um Certificado de Segurança Veicular (CSV) emitido pelo Inmetro ou firma credenciada que, nem sempre, estão capacitados para avaliar as mudanças estéticas ou funcionais dos veículos.

Brasília customizada na época, com maçanetas de Alfa Romeo 2300, pneu conhecidos com “balãozinho” e rodas esportivas, uma linda combinação que era um “prato cheio” para algum policial com vontade de mostrar serviço ou “uma caneta esfomeada” (Foto: Wagner Campos)

Há 40 anos isso também acontecia nos Estados Unidos e num grau ainda pior, porque os policiais — em sua maioria — são muito rigorosos e cada condado e cidade pode criar suas regras de trânsito com base na lei do estado, ficando para a União algumas poucas resoluções tais como “mão de trânsito”, “direção de circulação” e “regras básicas de conduta”. Tanto que em alguns estados americanos para virar à direita não há necessidade de aguardar o semáforo ficar verde — é como se fosse uma placa “Pare” —, mas a lei federal deixa claro que a preferência é para quem tem sinal verde, fator a considerar em caso de acidente. Outro exemplo é que em outros não é necessário o uso de capacete em motocicletas, mas o governo federal obriga o uso de óculos próprios, tipo aviador de antigamente, para pilotar motos.

Corvette 1954, uma recriação feita com peças de reposição para a manutenção dos originais. Como nos EUA se faz de tudo para esse carro, incluindo as partes estruturais, foi possível fazer um carro comprando tudo em lojas de autopeças (Foto: autor)

Uma maneira de regularizar os veículos modificados ou novos veículos criados do zero e de construção artesanal foi a criação de uma instituição, essa foi a ideia para a fundação do SEMA.org, que comanda os setores de homologação e registros. A SEMA Garage e mostra tudo isso em seu evento anual, o SEMA Show. No final das contas o “megaevento” não é uma amostra de veículos, mas sim de criações, peças, acessórios, onde os carros são a vitrine dos itens e seus construtores.

Graham 1938, exposto no SEMA Show 2018, chegou entre os 12 finalistas. O carro originalmente era um sedã e foi transformado num elegante cupê com muitas linhas redesenhadas (Foto: autor)

E justamente por ser palco das criações dos construtores, há quatro anos a organização do SEMA criou “A Batalha dos Construtores”, que funciona da seguinte maneira: todos os carros inscritos podem participar com os autores dos seus projetos concorrendo, mas eles são ao mesmo tempo julgados e juízes, uma vez que cada inscrito tem a obrigação de votar num projeto, desde que não seja o seu próprio veículo. No primeiro dia são centenas de carros participando. Em 2018 eram 328, dos quais 42 ficaram para continuar na batalha. No segundo dia os 42 projetos e seus construtores votam entre si tendo ficado apenas 12 veículos. No terceiro dia esse número caiu para cinco e na última noite três foram para a grande final.

Juízes e concorrentes analisando o Graham; conforme o número de veículos diminuí as avaliações vão ficando mais criteriosas (Foto: autor)

Quando vi essa votação onde todos participam votando e não podem votar em si mesmos, achei uma democracia sem tamanho e tratei de pedir autorização para trazer essa ideia ao Brasil. Expliquei que temos grande dificuldade nos concursos de veículos nos eventos e a dificuldade é ainda maior quando o quesito avaliado não é a originalidade de fábrica, mas sim a criatividade de alguém que customizou um automóvel. Na mesma hora e sem qualquer burocracia a autorização foi dada.

Na última noite de SEMA Show, a apresentação do grande vencedor, Troy Trepainer levou o caneco com seu Ford A Tudor 1931, criação feita do zero e com 100% de peças novas do mercado de reposição americano (Foto: SEMA Show)

Na próxima parte, a chegada da “Batalha dos Construtores” ao maior evento de carros antigos da América Latina.

PT

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