As histórias que tenho contado aqui são em sua grande maioria relatos de fatos ocorridos no passado, daí o nome desta coluna, “Do fundo do baú”.

Há momentos registrados em nossas vidas, porém, que não necessariamente dizem respeito a algo acontecido no passado. Eles podem dizer respeito ao presente também. Pois esse é o tema da nossa conversa de hoje, em que passado e presente se entrelaçam.

Como eu já disse inúmeras vezes, trabalhei na Volkswagen durante 30 anos e é óbvio que em todo esse tempo fiz muitos amigos — e nenhum inimigo, que eu saiba.

Seja atuando na fábrica em São Bernardo do Campo ou, depois, no escritório regional do Rio de Janeiro, nunca deixei de manter contato com meus colegas da Assistência Técnica uma vez que a administração, a Gerência Executiva desta área, ficava na Ala Zero da fábrica

Por isso, sempre que eu vinha a São Paulo procurava me reunir com todos estes amigos e ex-colegas diretos de trabalho. As happy hours eram frequentes e os restaurantes de São Bernardo, o nosso quartel. A receita para um final de dia agradável era uma só: chope, polenta, salsichas as mais variadas, frango à passarinho e, quando tinha, bolinhos de bacalhau.

Mas o tempo foi passando, amigos foram se aposentando e com isto a distância entre e eles só aumentava. Muitos contatos continuaram, mas eram cada vez mais raros. Talvez você já tenha passado por esta experiência.

Esse foi o motor que levou o colega da minha área, Carlos Janeba, aposentado, talvez o mais antigo, mas não o mais velho — se não me engano entrou para a Volkswagen em 1964 — a organizar e capitanear encontros periódicos, aqui em São Paulo, para matar a saudade. Esses encontros começaram há aproximadamente três anos.

Mas o Janeba me passou o bastão pouco depois, que aceitei de bom grado, e hoje cabe mim a organização desses almoços. A lista só cresceu e hoje são 92 ex-colegas da Assistência Técnica e Peças de Reposição. Um deles,  que vai quando tem tempo (o que é difícil…) é o amigo Bob Sharp.

Conseguir o contato com nossos ex-colegas foi uma árdua batalha. Sempre achava um que sabia da vida do outro e assim fomos juntando os dados necessários para fazer um contato e também aumentar a presença nesses eventos de confraternização, organizados em restaurantes de fácil acesso, uma vez que muitos já não dirigem mais.

Cuido para que os restaurantes nos reservem um espaço agradável, apresentem um bom cardápio e, principalmente para os aposentados — 98% dos presentes —, tenham preços razoáveis.

Os almoços são realizados a cada três ou quatro meses. Como convém variar local e cardápio, sempre peço a todos que sugiram o restaurante para o próximo encontro, bem democraticamente.

Os encontros, — às vezes reencontros — são sempre muito festejados e até lembramos a época em que trocávamos telefone das “gatinhas” e hoje trocamos telefone de médicos e receitas. Tudo isto faz parte da velha amizade.

Cabe a mim coordenar isto tudo, e fechar o acordo com o restaurante escolhido temos uma comissão que faz um “test drive” alimentar. Se aprovado, fechamos com o restaurante a data, o horário e uma previsão de quantos seremos.

Todavia, o grande problema é conseguir que os nossos velhos amigos simplesmente nos respondam se vão ou não, imprescindível para fazer a reserva e a preparação das mesas para todos.

A convocação é feita por e-mail, mas temos muitos que não têm o hábito de usá-lo, por isso recorro à ajuda de seus filhos ou filhas nesta tarefa. Temos neste grupo os superligados e os superdesligados em computador, mas um contato telefônico ajuda a lembrá-los de onde e quando será o próximo almoço.

A sempre essencial foto do grupo nos almoços

Uma coisa eu posso garantir a você: como coordenador desses encontros sinto-me muito feliz em poder ver todos estes que comparecem. Por outro lado, há também, infelizmente, notícias tristes, como algum participante deixar este mundo e ir para um melhor. O pior é termos consciência de que isso ocorrerá cada vez mais, é a ordem natural da vida.

Há também uma ausência provocada por compromissos pessoais, viagens com a família e consultas médicas, estas a maioria das justificativas para o não comparecimento. O ponto positivo desta ausência é num próximo encontro termos uma nova medicação para experimentar ou um novo médico para conhecer…

É um prazer inenarrável poder juntar ex-colegas em um mesmo descontraído ambiente e ouvir de cada um suas lembranças dos bons tempos de Volkswagen — que saudade é o que todos dizem.

Terminado o almoço, distribuo as fotos tiradas entre os que participaram —uma viva à tecnologia! — e as envio também aos que não vieram, assim poderão ver o que perderam.

E ao encerrar o encontro já anuncio o próximo, o que deixa a velha guarda muito ansiosa e feliz.

Só posso terminar esta história dizendo que se colhe tudo que se planta e amigos não nascem do nada. Como é bom tê-los!

RB

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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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