Se alguém me viu andando de carro semana passada por São Paulo num Peugeot 207 prata espero que tenha notado que eu estava no banco do carona. Logo, não tenho nenhuma responsabilidade pelo que o motorista estava fazendo, OK? Para que fique bem claro vou repetir: não tenho nenhuma responsabilidade sobre o que o motorista estava fazendo. Na verdade, tentei corrigir várias coisas, mas mesmo para alguém tão persistente e didática como eu foi absolutamente impossível.

Vamos aos fatos: chamei um Uber, como fiz várias vezes nos últimos anos, tanto aqui no Brasil quanto no exterior e esclareço que nunca havia tido problemas. Lembro quando surgiu o serviço de aplicativo aqui em Pindorama tive alguns dilemas de consciência e demorei muito para aderir. Inicialmente, achava que era uma forma de achatar salários e incentivar a informalidade. Mas aí um conhecido me disse que um amigo dele havia tido uma reação parecida quando surgiu o McDonald’s no Brasil. Ele se recusava a ir pois achava que levar a própria bandeja até a mesa e depois até a lixeira era tirar o emprego de um garçom ele disse: OK, e por que você não dá emprego para um coveiro e morre?. Extremo e sarcástico, é claro, mas o princípio faz sentido. E o McDonald’s está aí até hoje, mais de 40 anos com o mesmo sistema e emprega um monte de gente – não garçons, mas sim outras pessoas, inclusive sem qualificação que são treinados lá.

Num país com 14% de desemprego e sei lá quanto de informalidade, deixar de usar esse serviço de carro achando que vou ajudar taxistas ou outros profissionais não faz sentido. Também pago religiosamente meus impostos, mas já fiz e ainda faço eventuais contribuições para entidades como Unicef — ou deixar de fazê-lo faria com que os governos de países de terceiro mundo usem seus escassos recursos em vacinas e água tratada? Até chegar esse momento, centenas de milhares de inocentes terão morrido. Dito isto, só dou meu dinheiro para entidades que reputo idôneas e não dou esmolas na rua, mas já dei comida em alguma ocasião. Mas não sistematicamente nem às mesmas pessoas. Enfim, tenho lá meus dilemas de consciência e não é algo totalmente definido para mim, portanto não me joguem tomates — minha cútis é sensível, tá?

Volto então à minha própria via crucis logo depois da Páscoa. Entro no carro. O Waze diz que chegaria ao meu destino em 40 minutos, mas logo percebi que a única possibilidade de isso acontecer seria se eu mesma assumisse o volante. O sujeito andava entre 15 e 20 km/h, às vezes menos. Caros leitores, vocês sabem o que é passar pela avenida Hebe Camargo, que cruza Paraisópolis, a segunda maior favela de São Paulo a essa velocidade? Eu mesma passo por lá com frequência, mas não a 10 km/h. Posso dizer várias coisas sobre esse par de quilômetros, menos que admirei a paisagem.

Aí chegou a hora de o indigitado ter de virar à esquerda numa avenida de mão dupla, duas pistas para cada lado, vindo de uma ruazinha. O que ele faz? Embica o carro, olhando apenas para a esquerda. O carro que vinha pela faixa mais lenta piscou o farol, dando passagem. E meu motorista resolve buzinar e agradecer e sair andando, sem olhar (não sei como ele conseguiu isso) para a segunda faixa no mesmo sentido. Ou vai ver que ele não percebeu o carro. Sei lá… Claro que o sujeito que vinha teve de frear subitamente ao quase encostar o para-choque na porta do meu, vá lá, “motorista”. Aí ele completou continuando a conversão sem ter olhado nem por acaso para a direita, de onde desciam carros em duas faixas. Eu tive de falar, quase gritando “para”. Aí foi minha vez de ter um para-choque quase encostando na minha porta (foto 2). Meu ilustre condutor saiu andando megavagarosamente e eu quase pulei para cortar a jugular dele a dentadas. Sim, eu tenho meus momentos “Um drink no inferno”. Pelo menos dentro da minha cabeça, onde tudo tem um pouco de filme.

Momentos de puro pânico (Foto: youtube.com)

Daí a pouco, entramos novamente numa ruazinha e nova conversão à esquerda em avenida, obviamente preferencial, sem sinal.  Não é que o sujeito repetiu o comportamento? E eu novamente tive de quase gritar bem firmemente: “para!”. Só não elevei a voz pois acho que o susto pode ser pior. Ele saiu andando a um quinto da velocidade das batidas do meu coração e ainda comentou comigo: a senhora não acha que as pessoas deveriam treinar um pouco mais gentileza, dona Nora? Aí não me segurei. Filha de quem sou, e fruto de educação montessoriana que sempre vê oportunidades de aprender e ensinar, respirei fundo e disse: “Acontece que ele estava na preferencial e quem deveria ter parado era você”. Silêncio no habitáculo.

Sempre evito dar opinião quando não me é pedida, especialmente sobre coisas banais, e algumas (algumas!) vezes relevo coisas que talvez não deveria. Mas há casos, como este, em que a pessoa me faz entrar na discussão ainda que eu relute. E aí vai um parênteses. Tem um restaurante japonês ao qual vamos com alguma frequência,  pois a comida é excelente e o preço superrazoável. Mas o atendimento é mais ou menos. Oscilante, diria. Certo dia fomos lá e estava especialmente confuso tudo. É preço fixo, mas eles perguntam várias vezes ao longo da refeição o que você quer comer dentro de uma enorme lista de coisas e vão trazendo os itens à mesa. Pois é. Naquele dia tivemos de pedir umas três vezes meu missoshiro, duas vezes as bebidas e assim por diante. Fui ao banheiro e havia papel por todo o chão, bancada toda encharcada… um horror.

Na hora da conta, disse ao meu marido que eu ia andando, pois tinha certeza que ele deixaria gorjeta e eu achava que não mereciam naquele dia e não queria ver isso nem brigar com ele. Passo eu pela recepcionista, dou apenas um “boa noite” e ela me responde: “Boa noite. Estava tudo do seu agrado?”. Putz! Juro que eu queria tanto não ter ouvido isso! Voltei sobre meus passos e disse: “Já que você perguntou, não. O banheiro estava imundo, tivemos que pedir as bebidas duas vezes, o missoshiro três e estou indo embora sem que tenha chegado a saladinha de pepino apesar de termos pedido duas vezes”. Sabem que me telefonaram no dia seguinte, pedindo desculpas? De fato, voltamos uns 15 dias depois e estava tudo certinho e desde então o serviço tem oscilado menos do que antes, mas os banheiros eirós novamente limpos, como antes.

Mas vamos voltar ao meu nada galante charreteiro. Uns 500 metros adiante (e talvez 15 minutos, na velocidade que ele andava) chegamos num cruzamento sem sinal, mas com faixa de pedestres. Havia uma senhora atravessando a faixa. Não é que ele acelerou e passou na frente dela? Ué? Cadê o “exercitar a gentileza”? O raio que o parta a gentileza. Nesse caso é caso de norma do Código de Trânsito Brasileiro. A prioridade era da pedestre, caramba!

Tem alguém muito despreparado dirigindo por aí (Foto:caldeiraopolitico.com.br)

Eu estava para lá de irritada, deveras preocupada com minha segurança, mas o sujeito tentava a toda hora puxar conversa comigo. Lá pelas tantas perguntou como eu achava que ele dirigia. Desviei da bala no melhor estilo “Matrix” e perguntei há quanto tempo ele tinha CNH. Me disse que havia tirado aos 18 anos, portanto há 10. Caracoles!, pensei, se esse sujeito tem 28 anos eu tenho 15. Eu, que já desconfiava de todas as atitudes dele comecei a olhar em volta procurando uma câmera oculta. Devia ser pegadinha. Encarei novamente o motorista. Não, definitivamente não era o Luciano Huck se passando por motorista, mas será que há outros genéricos desse programa? Sei lá. Também não parecia com os integrantes do Porta dos Fundos nem com outros programas da internet que eu conheço. Até agora acho que pode haver algum vídeo, no mínimo, no Youtube com essa pegadinha na qual eu caí. Não há outra explicação. Só podia ser pegadinha…

Ele insistia e eu continuava tentando não conversar com o sujeito. Normalmente sou muito falante, mas precisava desesperadamente prestar atenção no trânsito — alguém dentro do carro tinha que fazer isso e já que não era o motorista, esse papel cabia a mim. Além disso, tinha que indicar o caminho, pois mesmo com o Waze o cara não conseguia interpretar as indicações. Por duas vezes começou a fazer uma conversão quando o aplicativo claramente mostrava apenas uma curva na rua e eu tive que mandá-lo de volta para a rota correta.

Ainda assim, ele insistia. Nova pergunta: “Como a senhora acha que eu dirijo?” E eu, cara de alface. Ouviam-se grilos no silêncio da minha não-resposta. Ele repetiu. E eu tentando ganhar tempo pois estava a quilômetros do meu destino e não queria bater boca e acabar a pé – se bem que algumas vezes pensei que o risco seria menor e que só por muito azar eu não conseguiria um carro com um motorista menos pior do que aquele. Mas estava com pressa… Ele insistiu na pergunta sobre seus dotes ao volante e eu mostrei meus dotes na arte do “enrolation”.  “Como assim? Por quê?”.  “É que mulher tem outra visão. Às vezes acha que homem dirige muito rápido. A senhora acha que eu dirijo muito rápido?” Vixe! não, homem de Deus, até as formigas nos ultrapassam.

Posso vê-las pela janela…  “Quem me conhece diz que eu dirijo como homem”, desviei esperando que ele parasse por aí. Daí a pouco ele volta às perguntas. Confesso que foram várias, mas entre meu coração palpitando, as buzinas daqueles que tentavam passar e ele não permitia pela vagarosidade do andar e minha irritação, devo ter me teletransportado para uma dimensão paralela, pois era como um zumbido para mim.

Lembro de ter ouvido, quase chegando ao meu destino: “A senhora sabia que se se atrasar no trânsito e for seu rodízio a senhora pode telefonar, explicar seu caso, e não ser multada?”. A Maria Montessori baixou novamente em mim: “Não, meu senhor, isso é lenda. Não existe isso, é multa mesmo. Já pensou quanta gente a CET teria de ter somente para atender o telefone e escutar as justificativas? Não, é multa, mesmo.”

Nem com muita meditação eu conseguiria me acalmar (Foto: kurotel.com.br)

Caros leitores, assisto muita televisão e olho internet com frequência, mas se alguém vir um vídeo com características parecidas com os fatos que eu narrei e comigo como passageira por favor, me avisem. Tenho certeza de que caí em alguma pegadinha, porque se não for isso tem uma pessoa que precisa desesperadamente mudar de profissão pois não tem a menor habilidade para o que está fazendo (foto 3). Prefiro que alguém tenha rido às minhas custas (ainda que eu tenha sofrido horrores) do que ser verdade que há alguém assim atrás do volante por aí.

Mudando de assunto: Gostei muito da corrida de Fórmula 1 do Bahrein, especialmente das últimas 10 voltas. De tirar o fôlego! Vettel foi perfeito e, claro, campeão tem de ter sorte também — e ele teve, pois os pneus podiam ter estourado. Destaque para o novato Gasly, a quem acompanhava na GP2 e na Fórmula Renault pela televisão, mais pelo resultado do que pelo que tenha feito, já que pouco (ou nada) apareceu nas imagens da televisão. Fiquei curiosa para ver mais o Hartley, pois pelos números ele estava fazendo uma boa corrida, mas a falta de imagens não permite maiores conclusões.  Belíssima ultrapassagem do Hamilton sobre três pilotos ao mesmo tempo e horrorosa a imagem do mecânico da Ferrari sendo atropelado na parada nos boxes do Kimi. Não que tenha sido culpa do piloto – nem um pouco. Culpa de quem liberou o carro, óbvio. Além de ter acabado com a perna do coitado, acabou com a corrida do finlandês. O ângulo de quebra da perna me lembrou a fratura de Anderson Silva, no UFC em 2013. Algo realmente triste de se ver.

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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