Fiquei uma semana sem poder abrir a tampa do meu baú, mas felizmente ontem obtive êxito: achei anotações sobre uma bela viagem que eu e minha mulher, mais um casal, fizemos. Esta viagem foi na parada de fim ano de 1976, portanto há pouco mais de 41 anos.

No edifício onde morávamos, no Rio, havia um casal muito simpático de quem logo nos tornarmos amigos. Acabaram sendo nossos fiéis companheiros nas noites de sábado quando rachávamos a pizza — era o começo da vida de casado para nós quatro e economizar estava no ordem do dia. Como nós, eles ainda não tinham filhos. Fora isso, íamos praia, em Ipanema, posto 9, uma vez que minha mulher Lúcia morou desde criança nas imediações até nos casarmos e se sentia “em casa” naquele ponto. Depois da praia, a ida obrigatória a um dos barzinhos para um tira-gosto e um chope gelado. Como era bom!

A amizade com o casal — Rosa, professora, e Evandro, um competente imunologista — perdura até hoje. E viramos compadres: Evandro viria a ser padrinho do nosso segundo filho, Marcelo.

Na foto de abertura, da esquerda para a direita, Evandro, Rosa, eu e minha mulher Lúcia.

Nas nossas conversas em meio à aproximação do fim do ano, a pergunta: o que faremos nas Festas? Os três dariam a tradicional parada, eu da Volkswagen, Rosa da escola onde lecionava, Evandro do seu consultório. E Lúcia, da faina diária de dona de casa.

Coincidentemente, nenhum de nós conhecia duas importantes capitais da América do Sul, Montevidéu e Buenos Aires. “Por que não vamos conhecer as duas?”, perguntou todo animado o Evandro. “Boa ideia, vamos de carro”, eu disse concordando. As mulheres toparam no ato. “Calle Florida!”, bradou ansiosa a Lúcia. A viagem começou a ser planejada quase em seguida.

A primeira ideia era irmos com o meu Passat de serviço, mas naquela época era complicado,os países fronteiriços exigiam carta de fiança do proprietário do veículo, caso fosse pessoa jurídica, para o caso de carro não deixar os países, e eu não me senti confortável em pedi-la à Volkswagen. Resolvi que iríamos com meu carro, um Passat LS 1975 duas-portas de uso da minha mulher. A única providência burocrática foi informar a seguradora para assegurar cobertura no exterior.

Um parêntese. Como sempre fui simpatizante do número 7 — já contei isso aqui — consegui um amigo no Detran uma placa sui generis: ZS-7777 — as letras remetiam à zona sul da cidade.

O nosso Passat LS 2-portas 1975; note o emblema da grade colocado de cabeça para baixo

Resolvemos iniciar a viagem no dia 25 de dezembro após passar a véspera de Natal com nossos familiares (lado da Lúcia) no Rio e na noite desse dia com os meus pais em São Paulo. Com esse arranjo conseguimos agradar a “gregos e troianos”.

O carro era bem novo, mas precisávamos nos certificar de que tudo estava em ordem. Solicitei um reparo no ar-condicionado, que estava refrigerando pouco, em uma concessionária próxima de casa pois as temperaturas de verão que iríamos pegar certamente seriam muito altas.

Não me pergunte como: não percebi que o emblema VW na grade dianteira fora montado de cabeça para baixo. Esse “grave” erro foi corrigido durante a viagem — uma foto do carro de frente, na cidade de Gramado, mostra o emblema na posição correta.

Partida do Rio de Janeiro dia 25 após o almoço para pernoitar em São Paulo na casa dos meus pais, onde comemoramos mais uma vez o Natal. Já havíamos rodado 450 km e havia muito chão pela frente. Livro de bordo superatualizado, como ralizeiro não poderia faltar, tampouco uma caixa com ferramentas emergenciais e algumas peças de reposição passíveis de nos dar problemas, como lâmpadas, embora o carro fosse novo.

Na manhã seguinte, rumo a Foz do Iguaçu, um estirão de 1.100 km. Jantar e cama, estávamos todos cansados. No dia seguinte visita às Cataratas, um espetáculo inesquecível. O volume de água era enorme devido às chuvas dos últimos dias.

De Foz fomos para Porto Alegre , 900 quilômetros, sempre nos revezando (os homens) ao volante — sinceramente, prefiro dirigir a sentar ao lado, banco direito só na Inglaterra…

Um excesso de preocupação nos valeu muito. No trecho entre Porto Alegre e Chuy o Evandro dirigia e, sem ter tido condições de frear ou desviar, o carro caiu em uma cratera no meio da estrada, danificando bastante as duas rodas do lado esquerdo. Eu havia colocado no carro um jogo de rodas de liga leve Momo, italianas. Que dor!

O citado excesso de preocupação mostrou seu valor nessa hora: tínhamos um segundo estepe no bagageiro de teto. Trocamos as duas rodas danificadas e, diante dos motoristas dos vários carros parados no acostamento sem poderem seguir, reiniciamos nossa marcha, com as rodas Momo no eixo traseiro.

O estepe extra no teto que seria providencial

Passamos por Chuy, a fronteira com o Uruguai, e seguimos para Punta Del Leste, nosso próximo destino; mais 220 quilômetros pela frente. Não tivemos nenhuma dificuldade para sair do Brasil e entrar no Uruguai. Talvez fosse a época do ano contribuísse para o pouco movimento na alfândega.

Em Punta Del Leste fizemos uma parada para um lanche, uma vez que nosso objetivo era chegar a Montevidéu, que é perto, apenas 150 quilômetros.

Na lanchonete cada um pediu o seu sorvete de preferência. Bem na nossa frente o atendente os preparava, quando o vimos preparando outro, enorme. “Concorde!”, respondeu-nos o atendente ante nossa visível curiosidade.

Era um verdadeiro exagero e o “modelo” foi pedido pelo Evandro. Acabamos os nossos, que eram normais, e cada um ajudou a acabar com o Concorde. O sorvete tinha até asas feitas de biscoito.

Chegamos a Montevidéu, onde pernoitamos.

No dia seguinte o destino era Buenos Aires, e o caminho seria até Colonia del Sacramento, a 180 quilômetros ,onde pegaríamos uma balsa que nos levaria à capital argentina.

A travessia do rio da Prata de Colonia até Buenos Aires levou aproximadamente duas horas e meia. Era uma balsa antiga com aproximadamente 20 veículos. A cor da água do rio nos impressionou, era barrenta em função das chuvas.

Chegamos a Buenos Aires e ficamos admirados na beleza da cidade, seu visual de cidade europeia. Já era dia 30 de dezembro e o dia seguinte seria à noite do Ano Novo.

O hotel no qual ficamos era um de tipo bem familiar, o marido na recepção, a esposa com uma auxiliar na cozinha, as filhas como arrumadeiras, e um excelente ambiente.

Passeamos o dia 31 inteiro, fomos a todos os lugares que brasileiros costumam ir, gastamos mais do que podíamos e ainda haveria a noite do réveillon.

Perto das onze da noite pedimos à família uma sugestão de onde passar o réveillon, uma vez que não conhecíamos nenhum local específico. Para nossa surpresa nos disseram que em Buenos Aires as famílias comemoravam a chegada do Ano Novo em casa com seus amigos e familiares. Pois não é que nos convidaram a passar o réveillon com eles e sua família no hotel? Aceitamos com o maior prazer, eles eram muito simpáticos. E não nos deixaram pagar absolutamente nada, nem mesmo comprar o champagne. Foi um réveillon memorável, nunca poderíamos imaginar que seria assim.

O dia seguinte foi reservado ao turismo puro e simples. Circulamos com o Passat pelas principais ruas do centro de Buenos Aires e ficamos admirados com a beleza e a largura da avenida Nove de Julho, tida como das mais largas do mundo, se não a mais larga. Passamos pela calle Florida para conhecê-la.

Depois de pararmos em uma churrascaria para almoçar, com muita surpresa recebi uma proposta para vender o nosso Passat para uma pessoa que se identificou como dono de uma joalheria. A proposta era simplesmente milionária porque importar um era muito caro e ficar com o meu, um carro usado, as taxas e impostos seriam bem menores. Agradeci a oferta, mas disse que não me interessava. Mas confesso que balancei…

Retorno

Já em 1977, adeus a Buenos Aires, destino Gramado, agora por estrada, mais 1.500 quilômetros. Concepción Del Uruguay, Concordia, Alegrete, São Gabriel eram nossos pontos de passagem até Gramado.

Entre Concepción e Concordia a estrada era de terra e havia muitas pedras soltas. Moradores da região nos contaram ser comum quebrar o para-brisa pelas pedras atiradas pelos carros ao se cruzarem. Sugeriram que colocássemos uma proteção feita de tela de arame com rolhas que faziam a tela se distanciar do para-brisa e com isto garantir a integridade do vidro. Colocamos a tal proteção.

Gramado ainda conservava sua espetacular decoração de Natal já naquela época, era tudo muito, muito bonito, bem-cuidado, limpo, cada loja mais linda que a outra. Nas nossas andanças vimos uns cestos de vime, brancos, que as mulheres decidiram comprar. Como os dois casais estavam animados por bem decorar seus  apartamentos, acabamos comprando dois cestos de vime brancos que, fixados no  teto do apartamento, serviriam como um belo balanço e cadeira de descanso.

Porta-malas cheio, o bagageiro de teto com uma roda sobressalente para reparo, onde colocar os cestos? Ofereceram-nos entregar em casa no Rio de Janeiro, mas levaria mais ou menos um mês até completassem uma carga com aquele destino. Por mim e pelo Evandro tudo bem, mas as nossas caras-metades queriam porque queriam os cestos assim que chegássemos ao Rio! Conclusão, os dois cestos foram colocados no teto, parecia uma borboleta gigante.

Como os cestos de vime vieram; o emblema VW já estava colocado corretamente

Na volta para casa fizemos uma insanidade, viajamos por toda a madrugada e chegamos à casa dos meus pais em São Paulo às dez horas da manhã, surpresa para eles. Descansamos dois dias e seguimos para o Rio, uma vez que o dia 10 estava chegando e ainda tínhamos muito que fazer até voltar ao trabalho.

O resumo desta aventura foi que solidificamos nossa amizade e o melhor, não houve nenhum tipo de desentendimento, difícil de não ocorrer. Conhecemos o sul do Brasil, um pedaço importante de Punta Del Este, Montevidéu e Buenos Aires, e ainda tivemos um réveillon diferente e sobretudo muito agradável.

O meu Passat canarinho? Como esperado, foi um companheirão nos 6.785 quilômetros entre saída e chegada em casa. E tenho de dizer aos mais jovens: como era prazeroso viajar de carro sem a vigilância eletrônica exacerbada de hoje e as armadilhas colocadas quase que exclusivamente para esvaziar o bolso do cidadão-motorista. Consultar o velocímetro, só de vez em quando, e não permanentemente como hoje. Conseguiram transformar o Céu em Inferno.

Foi uma viagem que será lembrada para sempre.

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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Sobre o Autor

Ronaldo Berg
Coluna: Do Fundo do Baú

Ronaldo Berg, com toda sua vida ligada intimamente ao automóvel, aos 16 começou como aprendiz de mecânico numa concessionária Volkswagen em 1964. De lá para cá trabalhou na VW (26 anos), Audi (4), GM do Brasil (8), Kia (2), Peugeot Sport (4) e Harley-Davidson (2 anos). Sempre em nível gerencial e ligado a assistência técnica, foi também o gerente responsável pelas competições na VW e na Peugeot Sport, gerenciando a atividade dos ralis. No começo da década de 1970 chegou a correr de automóvel, mas com sua crescente atividade na VW do Brasil não pôde continuar.

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