Por volta de 1972, quando os automóveis importados eram raros, tive um Citroën ID-19, modelo apelidado de “sapo” por sua forma aerodinâmica. Embora fosse um carro usado, causava admiração (e inveja). No posto de abastecimento o frentista perguntava, só para confirmar: “Azul? Completa o tanque, Dr.?”

Depois de alguns anos de uso, a ferrugem obrigou-me a levá-lo para uma reforma que seria demorada. Para não ficar uns três meses a pé, resolvi comprar um carro sobressalente, tal como um milionário excêntrico, pois o automóvel escolhido foi um Gordini, carro que havia saído de fabricação em 1968.

Comecei então a sentir a diferença de tratamento que as pessoas me davam. No posto mandei encher o tanque e o frentista se espantou, só faltando pedir para pagar adiantado: “É mesmo p’ra completar, ô meu?”

Por outro lado tive algumas vantagens. Como o carro tinha rádio, mas faltava alto-falante, resolvi comprar um. Na primeira loja o instalador ficou com pena do preço que eu ia pagar e me aconselhou a procurar outra loja mais barateira, no centro da cidade. Seguindo a indicação, parei na frente da outra loja. Quando o vendedor soube que o alto-falante era para o Gordini — o “machão”, como era apelidado — disse que a instalação era cara, eu mesmo poderia fazê-la em casa e me ensinou como executá-la.

Uma vez, parado num engarrafamento, ao lado de um ônibus de excursão, seus passageiros começaram a gritar para mim: “Apolônio!” Apolônio era personagem de um anúncio na televisão da Volkswagen que, teso, de bicicleta, dizia para o amigo, novo proprietário de um Fusca: “Um dia eu chego lá!”

O melhor “causo” aconteceu em Teresópolis. Saindo de um restaurante, cruzei com um casal amigo que me convidou para ir à sua casa mais tarde. Fui e estacionei bem em frente da casa deles. Na rua não havia nenhum outro automóvel estacionado.   L. — que era uma deslumbrada — ao abrir a porta, foi logo perguntando pelo Citroën. Resolvi pregar-lhe uma peça e disse: “Não estou mais com o Citroën.”

Ela perguntou então se era um Ford Galaxie.

“Não”.
“Então é um Dodge Dart”?, tentou adivinhar.
Disse-lhe que ela não iria conseguir adivinhar e que o melhor era ir logo ver o carro.
Ela suspirou: “Será um Mercedes?” e, saindo à varanda, disse: “Não estou vendo o carro!”
“Como não? Ali está ele!”, respondi.
“Não é possível — caiu ela das nuvens — um Gordini!”

Aliviei a brincadeira, dizendo: “Não é um simples Gordini. É um Gordini Dart…

Outro caso, não ocorrido comigo — é bom esclarecer — foi o da colega, atropelada por um Gordini e que, tendo sofrido pouco mais do que o susto, passou a ser vítima da zombaria de outros colegas:

— Puxa. Que falta de sorte a sua! Ser atropelada logo por um Gordini. Ainda se tivesse sido por um Mercedes … — diziam meio a sério até.

Moral da história: numa sociedade consumista mais vale ter do que ser.

 

Roldão Simas Filho
Brasília – DF

Nota: A foto do Gordini é meramente ilustrativa, não é o do autor da historia.

(1.679 visualizações, 1 hoje)