Há muito material sobre os carros movidos por turbina da Chrysler, e ao se pesquisar sobre o assunto, dá para ficar em dúvida sobre o que é bom, ótimo ou apenas arranha a superfície do assunto. Um dos materiais mais didáticos que já vi sobre o assunto, em português, é um texto do André Dantas.

Uma boa referência sobre tudo que aconteceu na Chrysler nos anos em que as turbinas foram trabalhadas é esse livro de Steve Lehto, que tem uma medida perfeita para contar a história, publicado apenas em inglês. Lehto ressalta que teve muita ajuda para fazer a obra e entender e ser capaz de explicar detalhes desses curiosos motores, que quase se realizaram no mercado como opção aos motores a pistão.

A narrativa é ótima, já que Lehto é escritor premiado.  Além disso é advogado, professor de Direito na Universidade de Detroit Mercy e tem o dom da escrita claro em todas as páginas. Também tem coluna regular na revista Road & Track, chamada “Lehto’s Law”.

Mostrando a linha do tempo desde 1953 até 1978 através das sete gerações de turbinas criadas pela Chrysler, mostrando seus principais personagens, um deles o engenheiro Bill Carry que aparece na capa comendo um donut encostado no Turbine de 1963, o mais importante de todos os carros a turbina. Outra importante figura do programa foi George Huebner Jr., executivo-chefe da empresa, que tinha a capacidade de promover e divulgar o trabalho que consumiu dezenas de milhões de dólares.

A linha-mestra do livro é o fato de Lehto ter entrevistado quase 30 pessoas que trabalharam no programa, muitas delas ainda atuando em veículos, o que sempre coloca um sabor especial em um livro que conta algo que aconteceu há mais de cinco décadas.

Um dos maiores incentivadores e auxílios à publicação do livro foi Jay Leno, que após comentar um outro livro de Lehto  — ao lado de Jay Leno na foto de abertura —em seu programa de televisão, isso antes de 2009, recebeu de Lehto o manuscrito desse livro que ele vinha desenvolvendo, e o convidou a visitar a sua coleção que já tinha um dos 55 Turbines que foram fabricados e testados por pessoas comuns em 1963 e 1964.

Jay Leno queria ajuda de Steve Lehto para falar com Bill Carry, tido como o mais prático de todos os engenheiros que trabalharam com  carro, já que ele havia comprado da Chrysler o 42º Turbine produzido, sendo um dos três colecionadores particulares a ter um exemplar. Há outros dois com a hoje FCA, proprietária da marca Chrysler, e quatro em museus, nove no total.

Por essa ajuda e troca de ideias, o autor conseguiu então andar no carro e ter o prefácio do livro escrito por Jay Leno, melhorando ainda mais o entendimento do que foi esse projeto.

O Turbine  cor de cobre foi desenhado na Chrysler, mas refinado e construído na Ghia, estúdio italiano já mundialmente famoso. As carrocerias foram enviadas da Itália para Detroit, onde foram montadas sobre a mecânica. Esse cuidado no desenho e qualidade de construção foram usados também para atrair a atenção do modelo e promover o plano de divulgação e testes inéditos na indústria: colocar carros experimentais para serem usados nas ruas e estradas por gente normal, em condições variadas e realistas.

O aprendizado da empresa com as turbinas a gás foi muito enriquecido pela decisão de colocar 50 carros nas mãos de usuários normais, escolhidos pelas respostas de questionários distribuídos em pontos de exposição de alguns protótipos espalhados pelos EUA. Cada pessoa utilizou o carro por três meses, passando depois para outro, até cerca de um ano de uso de todos os carros.

A primeira entrega para um usuário normal, Richard Vlaha

Com isso, a promoção foi gigantesca, e o carro ficou conhecido por boa parte da população, com seu “ruído de avião” que chamava a atenção até de quem não se interessava pelo assunto.

Muitos desses sortudos foram também entrevistados pelo autor, dando uma mais recheada visão de como era dirigir o Turbine em uso normal, e divertidas histórias sobre a dificuldade de se tentar ir rapidamente ao mercado perto de casa e não conseguir gastar menos de meia hora respondendo perguntas de curiosos.

Para deixar bem explicado o que aconteceu para que não desse certo a ponto de ser colocado em produção, Lehto mostra o panorama da poluição nos anos 1950, a crise do petróleo de 1973 e os problemas financeiros da Chrysler, que, juntos, decretaram a morte dos carros a turbina.

Livros são uma preciosidade muito maior do que pode ser medida pelos seus preços de venda, como o Marco Antônio Oliveira resumiu de forma perfeita em um de seus últimos textos aqui no AUTOentusiastas com a seguinte frase:

…pegar um livro na mão e senti-lo, carregá-lo por aí, e depois guardá-lo na estante para que toda vez que passe por ele me lembre da incrível história que ele contém…”

Esse livro de Steve Lehto se encaixa perfeitamente na categoria de “lembrar a incrível história que ele contém”.

Com cerca de 35 fotos coloridas e em preto e branco, além de alguns desenhos esquemáticos das turbinas, é preciosa adição a uma biblioteca de automóveis, máquinas ou simplesmente de história.

É fácil de encontrar na Amazon, novo ou usado, clicando aqui.

JJ

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