Recentemente assisti uma reportagem na televisão que me deixou pensando — algo bastante raro por si só, devo dizer. Não porque eu não pense, mas porque o que se mostra na televisão é que não nos estimula a isso. Era sobre a boa sacada de uma empresa de vendas pela internet que encontrou uma forma original de cumprir com suas entregas, mesmo em lugares considerados perigosos e, por isso mesmo, não atendidos pelos Correios. O empresário passou a utilizar veículos particulares para enviar as encomendas. Até aí, eu já estava achando uma ideia muito boa: veículos descaracterizados não chamam a atenção ao contrário de minivans ou mesmo caminhões com o logotipo de empresas de entrega. Mas isso já era feito há mais de um ano.

O sujeito da reportagem foi mais além: graças a um aplicativo ainda mais novo e específico contratava veículos de moradores desses mesmos lugares “perigosos”. Entrevistado pelo jornalista da televisão contou que não havia sofrido um único roubo sequer, pois todo mundo no bairro se conhece e ninguém iria prejudicar um “colega”. Pois é, parece que em alguns lugares ainda vigora algum tipo de código de honra…

Pelo que vemos diariamente, não é em toda favela que isso acontece, pois senão moradores da Rocinha não seriam extorquidos ao comprar botijões de gás ou ter que “assinar” o serviço de televisão das famosas Gatonets. Mas pelas imagens os locais de entrega não eram necessariamente favelas, mas apenas bem humildes.

Como empreendedorismo pouco é bobagem, o dono de uma lojinha de bugigangas no bairro passou a aceitar receber as encomendas das pessoas que não tem gente em casa o dia todo para fazer isso. E contou que fazia isso de graça pois quem ia buscar algum pacote acabava comprando alguma coisinha, recarregando o celular pré-pago…

Em algumas cidades os motoristas de Uber passaram a se identificar para minimizar os riscos em determinadas áreas, depois que motoristas foram ameaçados por membros de facções criminosas em Fortaleza. Não é uma garantia de segurança, mas dizem que ajuda ainda que para entrar em lugares como a Babilônia, Bom Jardim, Vila Velha além da plaquinha luminosa que os identifica, às vezes são parados e os bandidos pedem para verificar o aplicativo no celular.

Identificação de veículos particulares (Foto: mercadolivre.com.br)

Fiquei a pensar sobre o assunto. Se bem encontrei um viés interessante — o de não se deixar abater nem esperar por medidas de segurança que cabem ao Estado, mas que não atende como deveria — também me pus a refletir sobre como nos adaptarmos a condições de vida cada vez piores é contraproducente. Sim, porque em vez de brigar por nossos direitos (neste caso, segurança para ir e vir e morar sem sustos), driblamos os assaltos usando mecanismos de entrega disfarçados.

Ou seja, não apenas temos entregas por Ubers da vida em vez de FedEx ou Sedex, mas também temos os Ubers genéricos e específicos de bairros, aqueles que tem algum tipo de proteção por serem de vizinhos.

Qual é o problema de se receber uma encomenda em casa? Por que um veículo não pode ter identificação dos Correios? Tenho a mesma sensação cada vez que escuto especialistas em segurança ou policiais que recomendam que não se usem joias na rua, não se vá com relógio à praia e coisas desse tipo. E assim vamos nos acostumando a não fazer o que temos direito a fazer.

Por que não podemos andar com as janelas do carro abertas? Por que não podemos parar numa esquina sem ter de olhar para todos os lados como se fôssemos pardais ensandecidos? Por que não podemos entrar e sair de nossos carros e nossas casas com tranquilidade, mas temos de nos jogar dentro do carro como se fugíssemos de um lugar com risco de explosão e então sair colocando o cinto pelo caminho?

Veículos dos Correios são muito visados (Foto: youtube.com)

Conheço gente que gostaria de ter um determinado modelo de carro, e poderia comprá-lo, mas não o faz por medo de assalto. Já falei aqui da minha amizade com Paulo de Aguiar Goulart conhecido do grande público por ter sido o dono e idealizador do conceito Dacon. Os iniciados o conhecem por outras muitíssimas coisas que fez pelo automobilismo. Enfim, para mim era uma ótima fonte (como se diz no jargão jornalístico a quem nos conta coisas que depois podem virar notícia) e uma pessoa adorável. Ele era apaixonado por Porsche e além de ser o importador da marca, tinha dinheiro para ter e manter um. Mas depois de um sequestro relâmpago ainda na década de 1990 começou a andar com um simplérrimo Ford Ka.  Sim, o motor era preparado, mas não dá para fazer milagres e embora andasse mais do que um veículo comum, de linha, havia que se espremer para andar naquele carro-bolinha, com porta-malas minúsculo e sem opcionais que seriam comuns num Carrera ou num 912.

Outros conhecidos andam com carros médios, mas blindados, já que atualmente nenhum modelo deixa de ser motivo para ser assaltado. Triste, muito triste.

Mudando de assunto: bati recentemente meu recorde de velocidade. Acho que ultrapassei até mesmo a velocidade da luz, já que a do som devo ter deixado para trás faz algum tempo. Por algum estranho motivo, o marcador analógico de velocidade do meu carro ficou completamente maluco. Se estou a 30 km/h ele marca 150 km/h. Passei na cabine de um pedágio a 39 km/h segundo o indicador da concessionária mas a astronômicos 250 km/h pelo meu painel. O bicho chegou mesmo a dar mais de uma volta no relógio… hilário! Sorte que o digital funciona perfeitamente. Item para checar na revisão. Até lá, motivo de diversão com os passageiros. Vou logo avisando: segure-se, você vai passar de Mach 1 ao virarmos a esquina…

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.

 

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