Fazia tempo que os Karmann-Ghias não eram mais produzidos, mesma coisa o SP2. Haviam parado em 1975, sendo que o primeiro K-G o havia bem antes, em 1971. A Volkswagen do Brasil vivia um bom momento na década de 1980. O Gol e o Santana, de 1980 e 1984, respectivamente, estavam muito bem no mercado. Inclusive, em 1987 o Gol foi carro mais vendido no país, façanha que repetiria 26 vezes consecutivas. Mas o Marketing da VW pensou mais alto, queria mais que a versão esportivada do Gol, o GTS 1,8-litro.

Em 1988, no Salão de Paris, em setembro, fora lançado o VW Corrado (foto de abertura), um cupê de 2+2 lugares bastante atraente. Naquele ano, em outubro haveria mais um Salão do Automóvel de São Paulo e, pronto, o marketing da VW do Brasil, chefiado pelo alemão Rainer Wolf, pensou em trazer o novo cupê para a mostra paulistana.

Serviria tanto para chamar a atenção para o estande da VW quanto para avaliar a reação do público visando sua eventual importação caso fosse liberada pelo governo que tomaria posse em março de 1990. Havia indícios claros de que isso seria feito pelo próximo presidente, embora a corrida presidencial de 1989 ainda estivesse por começar.

Depois de feitos os devidos acertos entre a matriz em Wolfsburg e a VW do Brasil, ficou acertada a exposição do Corrado no salão que estava por começar em 30 dias.

Todo material publicitário e de divulgação foi preparado a toque de caixa pela agência de publicidade Almap: banners, outdoors, painéis incrivelmente bonitos com paisagens, com estradas sinuosas, enfim, tudo feito para realçar um esportivo.

Todo material fora baseado no que já existia na Alemanha, que focava um vibrante Corrado vermelho, de tom bem forte e instigante.

Tudo definido, foi providenciada a importação temporária do Corrado para devolução após o encerramento do salão.

Na ocasião eu era gerente de Assistência Técnica ao Produto e tinha também como responsabilidade acabar de preparar todos os carros que iam para o salão, envolvendo limpeza, polimento e uma verdadeira inspeção final para que o grande público não tivesse surpresas — e nem nós.

Chega na Ala Zero um grande caminhão transportando um contêiner, era o esperado Corrado que acabava de chegar de avião devido ao exíguo tempo para o salão. Aberto o contêiner com o máximo cuidado e removida a proteção que vinha no carro para evitar danos na pintura, o grande susto, quase infartamos: o carro era MARROM!

E agora? Tudo, todo o material de divulgação estava preparado para um carro VERMELHO!

Reunimo-nos, Marketing, a Almap e nós, técnicos, para decidir o que fazer. Silêncio na sala: faltavam três dias para encerrar o prazo de entrada dos carros no salão, regra válida até hoje. O que fazer?

Propus a solução, que foi aceita, e me comprometi a aceitar o grande desafio se todos confiassem em mim: vamos pintar o carro de vermelho!

Chamaram-me de tudo que você pode imaginar, mas no final concluíram que eu não faria esta proposta caso não a achasse exequível.

Falamos com a fabricante de tintas automobilísticas Glasurit e nossa fornecedora, que fez contato com a Alemanha e obteve o código e a fórmula do vermelho original do Corrado, preparando a tinta imediatamente.

Reuni os profissionais que estariam envolvidos na operação de alto risco, mas, lógico, a única cabeça que iria rolar se algo desse errado seria a minha.

Funileiros, pintores, eletricista, tapeceiros e demais ajudantes todos ao redor do carro analisando o que fazer e como fazer. O carro seria pintado somente por fora, decisão com a qual todos os envolvidos concordaram.

Mãos à obra, desmontar somente aqueles itens que dificultariam a pintura, mas que seguramente não seriam danificados por ocasião da desmontagem.

Frisos eram colados, maçanetas eram removíveis, faróis idem, bem como para-choques, spoiler, etc.

As portas não poderiam ser abertas e muito menos o porta-malas e o capô do motor, pois as parte internas ficariam com a cor original, um marrom “cocô”.

A Glasurit nos entregou a tinta, a carroceria foi toda lixada e, como se diz, foi quebrado o brilho. O para-brisa e o vidro traseiro não foram removidos devido ao risco de quebra na remontagem.

Viramos duas noites e o Corrado marrom virou vermelho — só por fora!

Antes do início da montagem nova a pintura, já curada na estufa de 80 ºC que tínhamos na oficina da Ala Zero, estava pronta para o tratamento final.

Tratamento final? O que seria isto?

Especialistas em pinturas, nossos profissionais lixaram com material específico — lixa d’água grana 1500 — toda pintura recém-feita. Isto para tirar aquele efeito “casca de laranja” que todos nós conhecemos. O carro ficou um brilho só, liso, maravilhoso, era até difícil de acreditar o que havíamos conseguido.

Montagem feita, nada quebrado, veículo pronto para o Salão do Automóvel.

Como já previsto, ele seria o destaque do estande da VW, e uma plataforma giratória foi preparada para recebê-lo.

Duas horas antes do encerramento do prazo de entrada dos carros no salão, o nosso Corrado entrou no pavilhão de exposições do Parque Anhembi.

Demos ordens expressas para ninguém, absolutamente ninguém, abrir portas ou tampas do Conrado. Ele ficaria cercado na plataforma giratória, só poderia ser admirado de longe.

A modelo que costuma descansar sentada no carro que apresenta teria que ir sendo substituída por outra descansada, já que sentar num banco para descansar não seria possível.

Terminado o salão, o sucesso garantido, o carro estava de volta à Ala Zero. Adivinhe para quê? Adivinhou certo: pintá-lo de marrom, sua cor original, para assim devolvê-lo à matriz. Claro, a Glasurit, nossa parceira, já tinha providenciado a tinta também.

Devolver ao Corrado sua cor original não era apenas questão de honra: nos trâmites burocráticos de embarque para a Alemanha, como explicar aos funcionários da Alfândega que o carro que ingressara marrom no país semanas antes agora era vermelho? Daria confusão e muito trabalho para explicar.

O importante dessa história toda é que tudo deu certo, o gerente de divisão da Assistência Técnica Ruediger von Reininghaus concedeu sete dias de licença para todos os envolvidos na operação, um descanso mais do que merecido.

E aqui, de novo, nesta página do AUTOentusiastas, parabéns a todos que participaram deste sucesso — e ajudaram a salvar minha cabeça!

RB

A coluna “Do fundo do baú” é de total responsabilidade do seu autor e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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