Quando eu nasci meus pais já tinham um cachorro em casa. Na verdade, uma cadela que aparecera na porta um dia que eles chegaram e lá estava ela, deitada na soleira. Ela parecia bem cuidada e eles acharam que poderia ser de alguém da vizinhança. Como já era tarde e uma noite amena, a deixaram ali. Mas no dia seguinte de manhã ela continuava no mesmo lugar. Aí a fizeram entrar em casa, deram água e comida. Espalharam avisos pelo bairro — na quitanda, no tintureiro, no veterinário…  Claro que não tinha Feicibúqui nem ZapiZapi, então foi na base do cartaz mesmo. Nunca apareceu o dono e eis que ela passou a fazer parte da nossa vida.

Misto de vira-lata com pastor alemão, a Pulky era um amor. O veterinário calculou que devia ter uns 6 meses quando apareceu em casa, mas nunca soubemos ao certo e ficou até morrer, uns 10 anos depois, de velhice mesmo. Como bom pastor alemão era um cão de guarda, mas bem sui generis. Qualquer um podia entrar na minha casa que ela não latia, mordia, avançava, nada, exceto se a pessoa fizesse alguma coisa brusca ou se ameaçasse de alguma forma os membros da família. De resto, parecia um poodle.

Mas ai se o/a desavisado/a tentasse sair de casa sem que meu pai ou minha mãe abrissem a porta. E só podia ser um dos dois. Nem minha irmã nem eu tínhamos esse poder. Aí o cachorro ia para cima com tudo mesmo, ainda que fosse pessoa quase da casa como meus avós ou tios. Aconteceu alguma vez de minha avó esquecer e ir até a porta e o bicho foi para cima dela. O único jeito era recuar da porta e esperar que meus progenitores abrissem a porta pessoalmente.

O estranho é que ninguém ensinou esse comportamento e nem houve jeito de demovê-la disso. A piada era que qualquer dia chegaríamos em casa e encontraríamos eventuais ladrões dentro, pois entrar entrava qualquer um. Já sair…

Mas protegia a casa à sua maneira, assim como a família. Meus pais não podiam dar bronca nas filhas perto da Pulky, pois ela rosnava, ameaçava e sabe-se lá o que faria. Em compensação, nós fazíamos qualquer coisa com ela, por absoluta falta de noção. Gostávamos especialmente de fazer de conta que ela era um corcel e pulávamos nas costas dela como se fosse um cavalinho, segurando nas orelhas como se fossem arreios… Até a coitada cair de cansaço sem sequer bufar ou meus pais verem e nos tirarem do “brinquedo”, o que acontecesse primeiro.

Minha irmã inclusive chegou a roubar a comida dela. Sim, minha mãe a pegou um dia, quando ela ainda engatinhava, dentro da casinha comendo os biscoitos caninos. Mas ambas eram generosas. Minha irmã dava uma mordida e passava a bolacha para o cachorro, que comia a outra parte e assim por diante.

E por que conto aqui toda esta história, que poderia ser classificada como “nariz de cera” no jornalismo (aquela longa introdução antes de se chegar ao ponto central)? Porque foi na minha infância que tomei conhecimento das experiências do dr. Pavlov com cães e das conclusões sobre reflexos condicionados. Em algum momento quando era pequena percebi que ao pegar a coleira a Pulky já vinha correndo, ia até a porta e mudava totalmente a atitude, até fisicamente, pois sabia que pegar a coleira significava que iria passear. E, claro, minha mãe aproveitou montessorianamente isso para me explicar sobre como funcionam os reflexos condicionados e me contou a história dos cães que salivavam quando sabiam que iriam comer.

Pois é. Tenho lembrado muito do dr. Pavlov e suas experiências dirigindo por aí. Às vezes tenho a impressão de que muitos motoristas agem como os cachorros do teste: puro comportamento condicionado. Nas marginais Pinheiros e Tietê, mesmo nos trechos onde a velocidade máxima aumentou, muitíssimos ainda andam a 70 km/h até na faixa da esquerda. Canso de esperar atrás deles e mesmo pedir passagem e, necas. É como se nada tivesse mudado. Parece que foram condicionados a andar a, no máximo, 70 km/h e nada os tira disso.

É claro que não pretendo que ninguém acelere a ultrassônicos (modo irônico ativado) 90 km/h — apenas que circule abaixo da máxima pelas faixas da direita e permita a ultrapassagem como, aliás, diz o Código de Transito Brasileiro. Sei que em parte é condicionamento devido aos radares, mas se uma pessoa se condiciona a baixar a velocidade de 90 km/h depois de muitos anos para 70 km/h, como já aconteceu há somente três anos para não ser multado, qual seria a dificuldade em se condicionar de novo? Pelo visto para alguns, parece algo hercúleo. Adoraria que o dr. Pavlov testasse alguns motoristas brasileiros para saber qual seria a conclusão. Mas talvez ela seja que tem gente que tem menos neurônios que cães… OK, peguei pesado, mas se alguém tiver outra explicação, mensagens para este site.

Apesar da sinalização de solo, redutor de velocidade em Camocim, CE (Foto: www.camocimportaldenoticias.com)

O mesmo percebo nos cruzamentos sem semáforo ou quando ele não funciona. É como se as pessoas tivessem perdido a noção de “preferência”. Tenho certeza de que alguns param apenas porque não têm certeza de que quem vem do outro lado vá parar ainda que seja obrigado,  pois tem uma de formato octogonal vermelha, com a palavra PARE inserida nela, bem na cara deles, mas muitos o fazem porque desconhecem quem tem de atravessar primeiro. E se não houver indicação de preferência, então, das duas uma: ou alguém (ou ambos) acaba forçando a passagem mesmo que esteja errado (foto de abertura) ou para todo mundo.

O mesmo acontece em rotatórias. Lembro da primeira vez que estive em Brasília, pois me chamou a atenção que era a primeira cidade no Brasil onde vi o pessoal respeitar quem já está dentro da rotatória. Já comentei neste espaço que na Nova Zelândia vi muitíssimas rotatórias — e quem está dentro dela nem olha para o lado, pois é absolutamente impensável alguém lá não respeitar. Em três semanas dirigindo por aquele país não vi isso acontecer nem uma única vez.

Parece fácil saber de quem é a preferência. E é (Foto: www.girourbano.com.br)

Analogamente, tenho certeza de que pouquíssimos motoristas sabem qual a velocidade máxima para cada tipo de via. Se não houver placa, andam como lhes aprouver. Às vezes mais rápido, às vezes mais lentamente do que deveriam. É como se não sendo tudo absolutamente especificado e dito zilhões de vezes não existisse. Ora, alguma placa ou alguma lei lhe diz que você precisa dar partida no carro para que ele saia do lugar? Acho que se continuarmos assim chegaremos a algo parecido.

Pergunto-me (a ênclise da semana) se ficamos parecidos com os cães do dr. Pavlov, mas acho que não. Muitos se parecem mais com camundongos de laboratório, pois dotados de menos inteligência do que um cachorro, embora o reflexo condicionado seja o mesmo. E por falar em inteligência, outro dia conto sobre outro mascote que tive, um macaco. Aí sim falamos em inteligência em outro nível.

Mudando de assunto: fiquei feliz com a volta da Fórmula 1. No ano passado conheci o circuito de Melbourne e é realmente lindo, como, aliás, a cidade e o país. A corrida em si foi meio mais ou menos, mas ainda assim a vi duas vezes. A primeira ao vivo, pela televisão, com aquele narrador que conta sobre os zilhões de anos de F-1 que tem (e ainda não aprendeu a transmitir uma corrida…), confunde pilotos e escuderias e consegue saber menos de Fórmula 1 do que minha tia-avó. Como meu marido insistiu em deixar o som da televisão ligado (OK, casamento é sobre ceder às vezes, mas estou achando que há limite para tudo), acabei vendo no dia seguinte na SporTV e, aí sim, consegui ouvir os rádios dos pilotos, comentários, etc. Sei não, mas acho que a próxima corrida ou eu assumo o comando de como ver a prova ou assistirei longe da minha cara-metade. Adorei as informações e os grafismos usados em Melbourne e, claro, detestei o tal halo. Fora o patrocínio da Havaianas (genial) só vi uma utilidade nele: servir de apoio para as luvas do Magnussen logo antes da Q2. Fora que o obstáculo que representa para que os pilotos saiam do veículo me parece deveras preocupante.

NG

A coluna “Visão feminina” é de total responsabilidade de sua autora e não reflete necessariamente a opinião do AUTOentusiastas.
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